Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Eduarda de Oliveira Figueiredo (UFSCar)

Minicurrículo

    Doutoranda em Imagem e Som pela Universidade Federal de São Carlos. Realizou Mestrado em Estudos de Linguagem pela Universidade Federal de Mato Grosso (2023). Possui Bacharelado em Audiovisual pelo Centro Universitário Senac São Paulo (2017). Integra como estudante o grupo de pesquisa CINEMÍDIA – Estudos sobre História e Teoria das Mídias Audiovisuais. É uma das coordenadoras do Grupo de Estudos – Pensando o Cinema Brasileiro e Negro no PPGIS/UFSCar.

Ficha do Trabalho

Título

    “O Brasil machuca”: O filme Voltei! da Rosza Filmes na pandemia e o excesso melodramático

Resumo

    Este estudo busca analisar possíveis experimentações com o excesso melodramático presentes no filme Voltei! (2020), que foi realizado durante o isolamento na pandemia de Covid-19 por uma equipe da produtora Rosza Filmes, no Recôncavo Baiano (BA). A obra conta a história de três irmãs em um Brasil do ano de 2030 sob o Regime do Disparate, um governo autoritário. A proposta é abordar esta composição alegórica e melodramática pensando o modo de produção da Rosza Filmes e o contexto sócio-histórico.

Resumo expandido

    O caso do filme Voltei! (2020) chama a atenção para possíveis apropriações do melodrama apresentadas por meio de um uso complexo do gênero. Realizado durante a quarentena na pandemia de Covid-19 em 2020 e gravado em uma noite por uma equipe reduzida da produtora Rosza Filmes, no Recôncavo Baiano (BA), ele conta a história das irmãs Alayr, Fátima e Sabrina. Na diegese, o ano é 2030 e há um “Governo do Disparate” sendo julgado por todos os crimes cometidos em sua ditadura no Brasil. Enquanto acompanham o julgamento, Alayr e Sabrina são surpreendidas por Fátima que volta à vida depois de anos desaparecida após ser presa e declarada como morta pelo “Disparate”. Dadas as condições de produção da obra e o fato dela criar dispositivos de produção bastante objetivos para encontrar uma dramaturgia adequada a essas condições buscamos analisar as nuances do modo de produção da Rosza Filmes em paralelo à maneira possível de experimentação com o excesso melodramático no discurso fílmico, neste modo mínimo de produção de Voltei!. A produtora fundada em 2011 por Ary Rosa e Glenda Nicácio é fruto de políticas públicas setoriais, como a expansão da universidade pública e dos cursos de cinema e audiovisual nos anos 2000, que produziram disputas produtivas, discursivas e simbólicas ao passo que possibilitaram a chegada de pessoas quase ausentes anteriormente no audiovisual brasileiro (Bahia; Butcher; Tinen, 2023). O curso de Cinema e Audiovisual criado na UFRB, em Cachoeira (BA), em 2008, por exemplo, viabilizou o encontro de Ary e Glenda, em 2010, quando nesse território chegou gente de várias partes do Brasil que havia realizado o ENEM. Do interior de Minas Gerais, eles são da primeira turma do SISU, criado pelo INEP naquele ano. Nesse quadro também de garantia de direitos culturais na Constituição Federal de 1988, com a institucionalização da cultura e em meio a implementação gradual de políticas públicas robustas (Bahia; Butcher; Tinen, 2023), onde certo modelo de regulação e de fomento ao cinema e ao audiovisual teve uma situação geral mais favorável entre 2000 e 2015, seguida entre 2016 e 2022 da concretização de uma política institucional de desmonte dos setores do Estado que atendem ao interesse geral gerando enfraquecimento e destruição de políticas públicas para a cultura, para o audiovisual e cinema brasileiro, Ary e Glenda criaram a produtora compreendendo que existia um investimento no interior para esse curso de cinema e, pela lógica, também deveria haver uma demanda para produção e uma empresa seria o ideal para recorrer a elas. A Rosza é reconhecida por um método de trabalho que une intensa coletividade no processo, ancoragem em território singular, forte vínculo com iniciativas de educação, abertura à experimentação dos modos de fazer filmes e diálogo com as tradições do cinema brasileiro, sendo “indissociável da multiplicidade formal e do aspecto aventuresco materializado nas obras” (Nicácio; Rosa, 2021). Se a intensidade do modo de produção se revela na intensidade do filme buscamos analisar as nuances da forma de fazer o filme na forma do filme delineando a expressividade melodramática encontrada na obra feita em resposta ao país de 2020 numa composição alegórica a partir de material melodramático. Conforme Gledhill e Williams (2018), apontamos não para o que é o melodrama – uma questão taxonômica –, mas o que ele fez e faz – questão estética e cultural – buscando demonstrar a modernidade, a pertinência e a difusão das formas de melodrama como um modo que reflete sobre a modernidade, salta de uma mídia para outra e se traduz de uma cultura para outra. Um dos aspectos do melodrama seria sua habilidade de “usar ações e fatos do mundo real como uma espécie de metáfora que se reporta ao reino da verdade espiritual e dos significados morais latentes” (Oliveira Jr., 2012, p. 46). Ele pode usar o excesso expressionista de comunicar, que busca certa adesão emocional do público, sem ser realista, mas mais próximo de uma provocação.

Bibliografia

    BAHIA, Lia; BUTCHER, Pedro; TINEN, Pedro. Imaginar o audiovisual como política pública. In: 26ª Mostra de Cinema de Tiradentes. Universo Produção, 2023, p. 38-44.
    NICÁCIO, Glenda; ROSA, Ary. Aqui não se anda só. [Entrevista concedida a] Juliano Gomes, Ingá, Mariana de Lima, Calac Nogueira e Victor Guimarães. Revista Cinética, 2021. Disponível em: http://revistacinetica.com.br/nova/tag/5xroszafilmes/. Acesso em: 20 abr. 2026.
    GLEDHILL, Christine. Prologue: The Reach of Melodrama. In: GLEDHILL & WILLIAMS (eds.) Melodrama Unbound, Columbia University Press, New York, 2018, p. IX-XXV.
    OLIVEIRA, JR., Luiz Carlos. Em defesa do melodrama. In: STARLING, Cássio; GUIMARÃES, Pedro (eds). Douglas Sirk, O príncipe do melodrama, São Paulo, Centro Cultural Banco do Brasil, 2012, p. 43-52.
    WILLIAMS, Linda. “Tales of Sound and Fury…” or The Elephant of Melodrama. In GLEDHILL & WILLIAMS (eds.) Melodrama Unbound, Columbia University Press, New York, 2018, p. 205-217.