Ficha do Proponente
Proponente
- Thiago Clemente (UFMS)
Minicurrículo
- Thiago Antônio Santos Gil Clemente é mestrando em Comunicação e bacharel em Audiovisual pela Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS). Atua como cineasta independente e colorista, com experiência em edição e pesquisa acadêmica. Foi bolsista de Iniciação Científica, desenvolvendo pesquisas sobre a evolução do noir e neo-noir como categorias discursivas. Possui trabalhos apresentados e publicados no Congresso de Ciências da Comunicação na Região Centro-Oeste (Intercom)
Ficha do Trabalho
Título
- Desvendando o Noir: Uma Investigação das Características e Evolução de Gênero
Eixo Temático
- ET 3 – FABULAÇÕES, REALISMOS E EXPERIMENTAÇÕES ESTÉTICAS E NARRATIVAS NO CINEMA MUNDIAL
Resumo
- O estudo analisa o noir e o neo-noir como um agenciamento coletivo de enunciação em disputa discursiva. Enquanto o noir opera em regime de fluidez entre gênero e estilo, o neo-noir promove a reterritorialização de seus códigos via consciência metacrítica. Através da análise comparativa de pares de filmes como The Big Sleep (1946/1978) e D.O.A. (1950/1988), toma-se o noir como laboratório conceitual para compreender como essa oscilação categorial redefine os limites da teoria dos gêneros.
Resumo expandido
- Este estudo investiga a classificação do film noir e do neo-noir como categorias cinematográficas, partindo da premissa fundamental de que ambos são definidos de maneira vaga e inconsistente ao longo da história do cinema. Diante do caráter ambíguo dessas formas, o trabalho busca compreender os processos históricos e discursivos que permitem a essas categorias operarem simultaneamente como gêneros reconhecíveis, estilos visuais trans-históricos e constructos críticos retrospectivos. Investiga-se a instabilidade constitutiva do noir como um mecanismo para tensionar os paradigmas tradicionais da teoria de gêneros, funcionando como um laboratório conceitual para discutir a natureza das classificações no cinema.
A complexidade dessa classificação reside na própria gênese retrospectiva do objeto, uma vez que o termo foi cunhado pela crítica francesa nos anos 1950 para catalogar filmes americanos que apresentavam uma visão pessimista da condição humana no pós-guerra. James Naremore, argumenta que o noir pertence à história das ideias tanto quanto à história do cinema. Para o autor, trata-se de um “discurso” — um sistema evolutivo e flexível de argumentos e leituras que ajuda a moldar tanto as estratégias comerciais da indústria quanto as ideologias estéticas da crítica. Sob essa ótica, o noir é uma categoria instável, cujos contornos são permanentemente renegociados em resposta a ansiedades culturais, como a masculinidade em crise e a urbanização acelerada.
Essa multiplicidade é reforçada por Raymond Durgnat, que identifica no noir uma “vasta paisagem de impulsos contraditórios”, operando mais pela atmosfera paranoica e niilista do que por uma estrutura lógica ou fórmula única. Durgnat propõe que se trata de um “estilo atmosférico” cujas fronteiras porosas se confundem com o melodrama e a tragédia existencial. Já Paul Schrader estabelece uma distinção técnica fundamental ao defender que o noir não é um gênero definido por convenções de cenário, como o faroeste, mas sim um estilo que corta transversalmente diversos gêneros. Ao delimitar o ciclo clássico (1941-1958), Schrader caracteriza o fenômeno por marcas visuais expressionistas e estruturas narrativas não lineares, definindo-o primordialmente através de qualidades sutis de tom e atmosfera.
O neo-noir surge como uma retomada contemporânea que reelabora essas convenções em novos contextos socioculturais. Diferente do ciclo clássico, os realizadores do neo-noir produzem suas obras plenamente cientes do legado que os precede. Mark T. Conard destaca que essa consciência metacrítica permite que os filmes atuem como meta-comentários sobre o próprio noir, deslocando signos clássicos para refletir a alienação pós-industrial e a desconfiança nas instituições contemporâneas.
Para analisar essa construção discursiva, o estudo operacionaliza o modelo de Rick Altman, que compreende o gênero como um processo de negociação entre a indústria, a crítica e o público. A análise foca no tensionamento entre a dimensão semântica, que envolve os elementos visuais e símbolos recorrentes — como a femme fatale, o detetive cínico e o jogo de luz e sombra —, e a dimensão sintática, que evidencia os padrões de organização do espaço-tempo narrativo e o desenvolvimento de tramas. Esse tensionamento é materializado na análise comparativa de D.O.A (1950) e seu remake de 1988, onde a crise do protagonista se desloca do “homem comum” para o intelectual contemporâneo, demonstrando como as dimensões semânticas e sintáticas onde ocorre uma reterritorialização para refletir novas ansiedades sociais. Dessa forma, entende-se que o noir talvez não deva ser classificado estritamente como gênero ou estilo, mas, mais precisamente, como uma categoria discursiva instável que expõe os limites dos modelos tradicionais de classificação cinematográfica.
Bibliografia
- ALTMAN, Rick. Film/Genre. London: British Film Institute, 1999.
CONARD, Mark T. (Org.). The Philosophy of Neo-Noir. Lexington: University Press of Kentucky, 2007.
DURGNAT, Raymond. Paint It Black: The Family Tree of the Film Noir. In: Film Noir Reader. [S.l.], 1970. p. 37-41.
NAREMORE, James. More Than Night: Film Noir in Its Contexts. 2. ed. Berkeley: University of California Press, 2008. SCHRADER, Paul. Notes on Film Noir. Film Comment, v. 8, n. 1, p. 8–13, 1972. Disponível em: https://intelligentagent.com/noir/Schrader.pdf Acesso em: 20 jun. 2025