Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Thiago Clemente (UFMS)

Minicurrículo

    Thiago Antônio Santos Gil Clemente é mestrando em Comunicação e bacharel em Audiovisual pela Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS). Atua como cineasta independente e colorista, com experiência em edição e pesquisa acadêmica. Foi bolsista de Iniciação Científica, desenvolvendo pesquisas sobre a evolução do noir e neo-noir como categorias discursivas. Possui trabalhos apresentados e publicados no Congresso de Ciências da Comunicação na Região Centro-Oeste (Intercom)

Ficha do Trabalho

Título

    Desvendando o Noir: Uma Investigação das Características e Evolução de Gênero

Eixo Temático

    ET 3 – FABULAÇÕES, REALISMOS E EXPERIMENTAÇÕES ESTÉTICAS E NARRATIVAS NO CINEMA MUNDIAL

Resumo

    O estudo analisa o noir e o neo-noir como um agenciamento coletivo de enunciação em disputa discursiva. Enquanto o noir opera em regime de fluidez entre gênero e estilo, o neo-noir promove a reterritorialização de seus códigos via consciência metacrítica. Através da análise comparativa de pares de filmes como The Big Sleep (1946/1978) e D.O.A. (1950/1988), toma-se o noir como laboratório conceitual para compreender como essa oscilação categorial redefine os limites da teoria dos gêneros.

Resumo expandido

    Este estudo investiga a classificação do film noir e do neo-noir como categorias cinematográficas, partindo da premissa fundamental de que ambos são definidos de maneira vaga e inconsistente ao longo da história do cinema. Diante do caráter ambíguo dessas formas, o trabalho busca compreender os processos históricos e discursivos que permitem a essas categorias operarem simultaneamente como gêneros reconhecíveis, estilos visuais trans-históricos e constructos críticos retrospectivos. Investiga-se a instabilidade constitutiva do noir como um mecanismo para tensionar os paradigmas tradicionais da teoria de gêneros, funcionando como um laboratório conceitual para discutir a natureza das classificações no cinema.
    A complexidade dessa classificação reside na própria gênese retrospectiva do objeto, uma vez que o termo foi cunhado pela crítica francesa nos anos 1950 para catalogar filmes americanos que apresentavam uma visão pessimista da condição humana no pós-guerra. James Naremore, argumenta que o noir pertence à história das ideias tanto quanto à história do cinema. Para o autor, trata-se de um “discurso” — um sistema evolutivo e flexível de argumentos e leituras que ajuda a moldar tanto as estratégias comerciais da indústria quanto as ideologias estéticas da crítica. Sob essa ótica, o noir é uma categoria instável, cujos contornos são permanentemente renegociados em resposta a ansiedades culturais, como a masculinidade em crise e a urbanização acelerada.
    Essa multiplicidade é reforçada por Raymond Durgnat, que identifica no noir uma “vasta paisagem de impulsos contraditórios”, operando mais pela atmosfera paranoica e niilista do que por uma estrutura lógica ou fórmula única. Durgnat propõe que se trata de um “estilo atmosférico” cujas fronteiras porosas se confundem com o melodrama e a tragédia existencial. Já Paul Schrader estabelece uma distinção técnica fundamental ao defender que o noir não é um gênero definido por convenções de cenário, como o faroeste, mas sim um estilo que corta transversalmente diversos gêneros. Ao delimitar o ciclo clássico (1941-1958), Schrader caracteriza o fenômeno por marcas visuais expressionistas e estruturas narrativas não lineares, definindo-o primordialmente através de qualidades sutis de tom e atmosfera.
    O neo-noir surge como uma retomada contemporânea que reelabora essas convenções em novos contextos socioculturais. Diferente do ciclo clássico, os realizadores do neo-noir produzem suas obras plenamente cientes do legado que os precede. Mark T. Conard destaca que essa consciência metacrítica permite que os filmes atuem como meta-comentários sobre o próprio noir, deslocando signos clássicos para refletir a alienação pós-industrial e a desconfiança nas instituições contemporâneas.
    Para analisar essa construção discursiva, o estudo operacionaliza o modelo de Rick Altman, que compreende o gênero como um processo de negociação entre a indústria, a crítica e o público. A análise foca no tensionamento entre a dimensão semântica, que envolve os elementos visuais e símbolos recorrentes — como a femme fatale, o detetive cínico e o jogo de luz e sombra —, e a dimensão sintática, que evidencia os padrões de organização do espaço-tempo narrativo e o desenvolvimento de tramas. Esse tensionamento é materializado na análise comparativa de D.O.A (1950) e seu remake de 1988, onde a crise do protagonista se desloca do “homem comum” para o intelectual contemporâneo, demonstrando como as dimensões semânticas e sintáticas onde ocorre uma reterritorialização para refletir novas ansiedades sociais. Dessa forma, entende-se que o noir talvez não deva ser classificado estritamente como gênero ou estilo, mas, mais precisamente, como uma categoria discursiva instável que expõe os limites dos modelos tradicionais de classificação cinematográfica.

Bibliografia

    ALTMAN, Rick. Film/Genre. London: British Film Institute, 1999.
    CONARD, Mark T. (Org.). The Philosophy of Neo-Noir. Lexington: University Press of Kentucky, 2007.
    DURGNAT, Raymond. Paint It Black: The Family Tree of the Film Noir. In: Film Noir Reader. [S.l.], 1970. p. 37-41.
    NAREMORE, James. More Than Night: Film Noir in Its Contexts. 2. ed. Berkeley: University of California Press, 2008. SCHRADER, Paul. Notes on Film Noir. Film Comment, v. 8, n. 1, p. 8–13, 1972. Disponível em: https://intelligentagent.com/noir/Schrader.pdf Acesso em: 20 jun. 2025