Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    José Leandro dos Santos (UFS)

Minicurrículo

    José Leandro dos Santos é mestrando em Cinema e Narrativas Sociais (PPGCINE/UFS) e bacharel em Comunicação Social Audiovisual pela UFRN. Artista e realizador — assinando como Turré —, atua em direção, produção, montagem, roteiro e direção de arte. Destacam-se as obras Íntimo (2021), na direção e produção, e Bgirling (2025), na produção. Pesquisa estéticas pornográficas e narrativas homoeróticas brasileiras sob a ótica da análise fílmica e da cartografia do desejo.

Ficha do Trabalho

Título

    Estéticas pornoeróticas: a construção audiovisual e narrativa da produtora Hotboys

Eixo Temático

    ET 1 – CINEMA, CORPO E SEUS ATRAVESSAMENTOS ESTÉTICOS E POLÍTICOS

Resumo

    Esta comunicação apresenta reflexões acerca da pornografia como obra, sob a ótica da transgressão (SONTAG, 2015) e do interdito (BATAILLE, 2021). Propõe-se uma cartografia da imagética gay (MEDEIROS, 2010) na produtora Hotboys. Pela perspectiva da análise fílmica (AUMONT & MARIE, 2013), estuda-se como a decupagem e arquétipos nacionais territorializam o desejo. O fim é validar a pornografia como linguagem híbrida e arquivo da sensibilidade, revelando a poeticidade na imanência do corpo.

Resumo expandido

    Esta comunicação é parte de um esforço desenvolvido no âmbito da pesquisa de mestrado vinculada ao Programa de Pós-graduação Interdisciplinar em Cinema/UFS, cujo objetivo é, a partir da provocação de Sontag (2015), investigar a produção pornográfica como obra, aplicando a ela uma análise fílmica própria dos estudos em cinema e audiovisual, buscando assim compreender sua formação visual e estética – e como essa formação pode ser transposta para outros meios.
    Na noção que Bataille (2021) estabelece para o fenômeno cultural do erotismo, a pornografia é mais um produto artístico que nasce da tensão entre interdito e transgressão. A distinção entre ela e o erotismo é meramente moral, conforme colaboram os apontamentos de Medeiros (2010), Kämpf (2008), Oliveira Junior (2021) e Moraes e Lapeiz (1984). Superando essa limitação moral, buscamos encontrar os traços de uma “poesia da transgressão”, noção que Sontag (2015) propõe e que encontra ecos nos trabalhos já citados, pois: “Aquele que transgride não apenas quebra uma norma. Ele vai a algum lugar onde os outros não vão; e conhece algo que eles não sabem” (SONTAG, 2015, p. 71)
    Nesse sentido, como propõe Afonso Medeiros (2010) ao esboçar apontamentos para uma cartografia da história da arte pornoerótica, para construí-la é preciso deslocar o olhar do eixo da imagem estritamente museada para outras formas de representação do corpo e da sexualidade. Ao encontro dessa premissa, o objeto de investigação desta comunicação é a produção de vídeos pornográficos gays pela produtora brasileira Hotboys. Metodologicamente, a pesquisa se desenvolverá partindo da análise fílmica de três produções recentes do estúdio: “Bolada na cara!”, “O encanador caralhudo” e “A traição”.
    A análise dessa produtora para a presente comunicação se dá pela sua distribuição e longevidade no mercado, além de seu alto valor simbólico. Fugir de formas alternativas de produção, focando em uma produtora comercial trata-se também de uma escolha por analisar a forma como o pornoerotismo se apresenta na sua imagem comercial contemporânea, sendo as obras da Hotboys todas de fácil acesso e circulação, torna-se um caso excepcional para o entendimento da estética pornografica e como essa tensiona e aciona o corpo de quem assiste.
    O que se propõe é esmiuçar as três obras selecionadas com o mesmo rigor dedicado a uma produção cinematográfica tradicional. Assim, acionando conceitos próprios da análise fílmica, como proposto por Aumont e Marie (2013), elementos como planos, sequências e enquadramentos serão investigados em um esforço de análise plano a plano. As obras serão decupadas e, posteriormente, comparadas para identificar pontos de convergência e semelhança, buscando verificar a construção de uma estética própria da produtora.
    Espera-se com isso verificar de que forma esses produtos, retornando a Sontag, oferecem um comentário ou registro sobre a imaginação pornográfica humana, focando, aqui, em entender de que forma o caso específico da HotBoys oferece material para compreensão do desenvolvimento estético da pornografia gay e do acionamento de esteriótipos e padrões da sexualidade gay no Brasil.
    Retomando a cartografia de Medeiros (2010), pretende-se perceber como a representação explícita do corpo na Hotboys contribui para a “revelação da estética da obviedade e da carnalidade”, ponto de distinção entre a arte convencional (transcendente) e a pornoerótica (imanente). A produtora ancora-se no “teatro de tipos” (SONTAG, 2015), mobilizando arquétipos sexuais que territorializam o desejo gay brasileiro. Por meio da análise fílmica e investigando a pornografia como linguagem híbrida e arquivo da sensibilidade contemporânea, pretende-se, enfim, inserir tais obras na história das formas audiovisuais, revelando a poeticidade contida na imanência do corpo e em sua visualidade.

Bibliografia

    AUMONT, Jacques; MARIE, Michel. A análise do filme. Lisboa: Texto & Grafia, 2013.
    BATAILLE, Georges. O erotismo. Tradução de Fernando Scheibe. 2. ed. Belo Horizonte: Autêntica, 2021.
    KÄMPF, Raquel. Para uma estética na pornografia. 2008. 77 f. Dissertação (Mestrado em Ciências da Linguagem) – UNISUL, Palhoça, 2008.
    MEDEIROS, Afonso. Apontamentos para uma cartografia da história da arte porno-erótica. In: ENCONTRO DA ANPAP, 19., 2010, Cachoeira. Anais […]. Cachoeira: ANPAP, 2010. p. 1-13.
    MORAES, Eliane Robert; LAPEIZ, Sandra Mara. O que é pornografia. São Paulo: Brasiliense, 1984.
    OLIVEIRA JUNIOR, Ribamar José de. Entre performances e próteses, os pés: circuitos tecno-orgânicos da erótica dos fragmentos corporais masculinos na pornografia online. Cadernos Cajuína, v. 6, n. 1, p. 213-244, 2021.
    SONTAG, Susan. A vontade radical: estilos. Tradução de João Roberto Martins Filho. São Paulo: Companhia das Letras, 2015.