Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Amanda Mansur Custódio Nogueira (UFPE)

Minicurrículo

    Amanda Mansur é professora da Universidade Federal de Pernambuco e do Programa de Pós-graduação em Comunicação e Inovação Social (Póscom/UFPE). Realizou pós-doutorado em Cinema na University of Reading (Reino Unido). É pesquisadora do audiovisual pernambucano, com atuação no campo da história e das formas de produção cinematográfica, além de atuar como roteirista, diretora e curadora. É autora de O Novo Ciclo de Cinema em Pernambuco (2010) e A Brodagem no Cinema em Pernambuco (2019).

Ficha do Trabalho

Título

    O fim do cinema pernambucano

Resumo

    O cinema pernambucano, ao longo do século XX e início do XXI, estruturou-se como forma histórica baseada na formação de grupos, afetos e interesses, dinâmica consolidada no conceito de brodagem (Nogueira, 2019). No entanto, as transformações recentes no campo audiovisual em Pernambuco, marcadas pela expansão territorial, institucionalização das políticas públicas e profissionalização, reconfiguram essas relações e colocam em crise a experiência comum que sustentava essa ideia de cinema.

Resumo expandido

    Há algo de retrospectivo no gesto de revisitar aquilo que, ao longo de décadas, se convencionou chamar de cinema pernambucano. Não se trata apenas de reconstruir uma trajetória, mas de reavaliar criticamente as condições históricas, sociais e afetivas que tornaram possível sua emergência como forma reconhecível. Esta comunicação parte do deslocamento da pergunta “o que caracteriza o cinema pernambucano?” para uma questão processual: como ele se constitui enquanto formação histórica. Ao fazê-lo, abandona-se a centralidade exclusiva dos filmes e passa-se a considerar relações, práticas e mediações que sustentam sua produção.
    Desde o Ciclo do Recife (1922–1931), documentado por Bernardet (1970), passando pela crítica cinematográfica dos anos 1950 (Araújo, 1997), pelo cinema clandestino articulado nos cineclubes e na produção documental da década de 1960 (Cunha, 2014), pela experiência do Super-8 nos anos 1970 (Figueirôa, 1994), pela formação do grupo Vanretrô nos anos 1980 (Nogueira, 2010), pela retomada em 1996 com Baile Perfumado, de Lírio Ferreira e Paulo Caldas (Nogueira; Cunha, 2016), e pela consolidação da produção contemporânea a partir dos anos 2010 (Nogueira, 2020), observa-se que, apesar das descontinuidades, o cinema pernambucano se organiza a partir da formação de grupos de jovens cinéfilos, em grande parte autodidatas, que produzem desde uma posição periférica no campo nacional, com poucos recursos e forte dependência de redes colaborativas. Essa dinâmica é conceituada como brodagem (Nogueira, 2020), entendida como forma relacional de produção baseada na articulação entre afetos, interesses e práticas compartilhadas.
    A constituição desse cinema está ligada à experiência urbana do Recife, que opera como condição de possibilidade para sua emergência. A cidade funciona como território de encontros e formação, no qual cineclubes, universidades e festivais configuram espaços de convivência e criação. A trajetória do cineasta Fernando Spencer evidencia essa continuidade ao articular gerações e preservar a memória do Ciclo do Recife, em diálogo com Jota Soares, diretor de A Filha do Advogado (1926). Do mesmo modo, as relações entre realizadores de diferentes gerações — como Kleber Mendonça Filho e Marcelo Gomes, no cineclube Jurando Vingar; Gabriel Mascaro e Cláudio Assis, na realização de Baixio das Bestas; e Camilo Cavalcante e Celso Marconi, no Museu da Imagem e do Som de Pernambuco (MISPE) — demonstram a centralidade das experiências intergeracionais compartilhadas.
    Até o início dos anos 2000, a ausência de formação universitária específica fazia com que o aprendizado se desse predominantemente na prática, em processos coletivos mediados por instituições como a Associação Brasileira de Documentaristas de Pernambuco (ABD/PE) e o Centro Audiovisual Norte-Nordeste (CANNE), fundamentais para a consolidação das políticas públicas e da estrutura produtiva do audiovisual. A partir dos anos 2010, esse quadro se transforma. A ampliação dessas políticas, como o Funcultura Audiovisual (Lei n. 15.307/2014), a Lei Aldir Blanc, a Lei Paulo Gustavo e a Política Nacional Aldir Blanc (PNAB), associada ao barateamento das tecnologias e à expansão do ensino superior na área, promove uma descentralização da produção, que alcança a Zona da Mata, o Agreste e o Sertão. O reconhecimento internacional de O Último Azul (2024), de Gabriel Mascaro, premiado em Berlim (2025), e O Agente Secreto (2025), de Kleber Mendonça Filho, premiado em Cannes e indicado ao Oscar (2026), insere Pernambuco no circuito global.
    Argumenta-se que esse processo não implica o fim da produção cinematográfica, mas o esgotamento de uma forma histórica de organização. A brodagem deixa de operar como princípio estruturante dominante, evidenciando a dispersão da experiência compartilhada. Propõe-se, assim, pensar não apenas no fim de um cinema pernambucano, mas na consolidação de um cinema em Pernambuco: ampliado, institucionalizado, descentralizado e heterogêneo.

Bibliografia

    ARAÚJO, L. S. L. C.. A crônica de cinema no Recife dos anos 50. Recife: Fundarpe, 1997.
    BERNARDET, Lucila R.. Cinema Pernambucano de 1922 a 1931: Primeira Abordagem. Dissertação de Mestrado, Universidade de São Paulo, 1970.
    CUNHA, P. C.. A Imagem e seus Labirintos: o cinema clandestino do Recife (1930-1964). 1. ed. Recife: Nektar, 2014.
    FIGUEIRÔA, Alexandre. O cinema super 8 em Pernambuco: do lazer doméstico à resistência cultural. Recife. FUNDARPE, 1994.
    NOGUEIRA, Amanda. A Brodagem no Cinema em Pernambuco. Recife: Editora Massangana, 2019.
    NOGUEIRA, Amanda e CUNHA, Paulo. A aventura do Baile Perfumado: 20 anos depois. Recife: Companhia Editora de Pernambuco, 2016.
    NOGUEIRA, Amanda. O novo ciclo de cinema em Pernambuco: a questão do estilo. Recife: Editora Universitária, 2010.