Ficha do Proponente
Proponente
- ana maria rufino gillies (UNESPAR)
Minicurrículo
- Doutora em História pela UFPR, História Cultural (2010). Professora do Curso de Licenciatura em Artes Visuais e do Programa de Pós-Graduação em Cinema e Artes do Vídeo na Universidade Estadual do Paraná/Unespar, campus II de Curitiba/FAP. Membro do Grupo de Pesquisa em Artes, Cultura e Subjetividades-GPACS.
Ficha do Trabalho
Título
- Sobre o filme SHAFT, Richard Roundtree, cinema negro e seus significados para a população negra bras
Resumo
- Movida pela afirmação de bell hooks (2019, p.216) em O olhar opositor: mulheres negras opositoras, de que “mulheres negras escreveram pouco sobre suas perspectivas como espectadoras, sobre nossas práticas ao ir ao cinema”, referindo-se a textos de teoria e crítica, ofereço uma perspectiva subjetiva marcada pela experiência e pela memória dos efeitos causados, em espectadores comuns, da década de 1970, por filmes com protagonistas negro/as, particularizando o filme Shaft (1971).
Resumo expandido
- Exibido pela primeira vez em São Paulo em 1971, estrelado pelo ator negro Richard Roundtree e dirigido por Gordon Parks, esse filme marcou uma geração, empoderando e inspirando, também por meio do soundtrack de Isaac Hayes, uma sociabilidade negra que se configurou como resistência diante do racismo estrutural e da ditadura militar.
O contexto de vivência que compõe essa memória é São Paulo, onde o que uma parcela das pessoas negras assistia, na televisão e no cinema, e as músicas que ouvia, era significativamente marcado pelo contexto de luta antirracista e pela cultura de origem norte-americana. Naqueles anos, podia-se ouvir jazz e Black music, em geral na Rádio Difusora; admirávamos o movimento político cultural promovido pela luta antirracista e pelo slogan Black is Beautiful, assistíamos filmes norte-americanos com Diane Carrol e outras atrizes negras cujos nomes não conhecíamos, mas eram pessoas negras performando e representando. No Brasil, surgia a figura de Tony Tornado, cujos passos de dança eram imitados nos bailinhos de final de semana registro, espaços de sociabilidade cujo um importante registro está registrado na produção áudio-visual de Dom Filó, Black Rio! Black Power! (2025); meninas negras sonhavam parecer-se com Eliana Pitmann e, no cinema, a a Diahann Carrol e outras atrizes negras cujos nomes não sabíamos mas representavam modelos de beleza que desejávamos ter.
Exibido inicialmente no Cine Ipiranga, localizado na rua de mesmo nome, quase esquina com a Avenida São João, na capital São Paulo, Shaft provocou fortes impressões em moças e rapazes negros. Tocados pelo cenário do cotidiano negro no Harlem, bairro negro de Nova York, pelo destemido enfrentamento do policial John Shaft, pela intensidade do ritmo do filme e embalados pela música de Isaac Rayes, saíamos da sala de cinema olhando o mundo com outros olhos, sentindo-nos empoderados pela fantasia de que podíamos ser interessantes, atraentes, fortes e poderosos, misteriosos e secretos em face das pessoas brancas. Além disso, eis que surge um homem negro no papel de um agente atraente atéentão reservado para o personagem britânico James Bond. Considerado como um ícone do gênero blaxploitation, o filme Shaft se configura como uma virada na representação cinematográfica de personagens negros no cinema, promovendo efeitos positivos na autoestima de espectadores negros e negras. Naqueles anos, para quem era jovem, filhos e filhas de famílias mais ou menos pobres, a preocupação era estudar e trabalhar. Vivia-se num cenário de ditadura militar, de repressão, censura e ordem; rapazes não ousavam sair à rua sem portar suas Carteiras de Trabalho, pois era comum serem parados aleatoriamente pela polícia e tinham que provar que não eram ‘vagabundos’. Em relação à questão racial, ainda era forte o discurso de que no Brasil não havia preconceito dessa natureza, inclusive porque não era comum ver pelo noticiário denuncias de racismo. Então as pessoas tocavam suas vidas como se tudo estivesse dentro de uma normalidade. As denúncias, as análises críticas e sua divulgação para públicos mais amplos, que levam à percepção e compreensão do racismo estrutural que marca nossa existência enquanto pessoas negras desde o século XVI, é razoavelmente recente. Assim sendo, é fundamental compreender a produção, exibição e impressões sobre negros e negras no Cinema dentro de contextos sociais, culturais e políticos específicos. Por fim, A discussão aqui proposta identifica-se com um projeto de pesquisa em andamento intitulado Imagem, Representação e Identidade negra: análise crítica da história da arte e do cinema para o combate ao racismo, o qual dá continuidade a um projeto anterior, recentemente finalizado, Negros e Negras na história das artes visuais. Ambos têm como objetivo a produção de um repertório para publicização do protagonismo negro nas artes e no cinema dirigidos, entre outros públicos, para estudantes em cursos de licenciatura e mestrados.
Bibliografia
- Augusto, Heitor. Blaxploitation: um cinema de revolta. In: Acrobata: Literatura, audiovisual e outros desequilíbrios, Teresina, vol. 7, p. 22-25, Out. 2017.
Caetano, Michelle S. Shaft e o movimento Blaxploitation: a emergência do protagonismo negro nos anos setenta. In: XIII Encontro Estadual de História. História e Mídias: narrativas em disputa. 15 a 19 de setembro de 2020. ANPUH-PE. Anais.
FREITAS, Kênia; MESSIAS, José. O futuro será negro ou não será: Afrofuturismo versus Afropessimismo – as distopias do presente. Revista de la Associación Argentina de Estudios de Cine y Audiovisual, nº 17, 2018.
Hall, Stuart. Quem precisa de identidade? In: Silva, Tadeu Tomaz da (org.) Identidade e diferença: a perspectiva dos estudos culturais. 15.ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2014.
hooks, bell. Olhares negros: raça e representação. Tradução Stephanie Borges. São Paulo: Elefante, 2019.
Prysthon, Angela. Stuart Hall, film studies and the cinema. In: V.10 – Nº 3 set/dez. 2016 São Paulo