Ficha do Proponente
Proponente
- Anderson Luis Ribeiro Moreira (FUNAI)
Minicurrículo
- Doutor em Cinema pelo PPGCine (UFF), com a tese Poéticas da posse (2022), na qual investiga regimes de apropriação, reapropriação e desnaturalização da propriedade no cinema. Sua pesquisa atual desloca esse debate para o campo dos arquivos audiovisuais indigenistas, examinando práticas contemporâneas de reinscrição, recusa e disputa das imagens produzidas pelo Estado brasileiro ao longo do século XX e XXI.
Ficha do Trabalho
Título
- Histórias possuídas, imagens retomadas: arquivos indigenistas e memórias indígenas
Resumo
- Esta comunicação examina arquivos audiovisuais do indigenismo estatal brasileiro do século XX como dispositivos de produção histórica e simbólica. A partir do título Histórias possuídas, imagens retomadas, analisa‑se como práticas indígenas contemporâneas operam reinscrições e recusas dessas imagens, deslocando o arquivo de evidência histórica para campo de disputa da memória e da autoridade da representação.
Resumo expandido
- Esta comunicação propõe pensar os arquivos audiovisuais produzidos pelo projeto de Estado brasileiro ao longo do século XX como campos heterogêneos de disputa histórica, política e ontológica. Longe de funcionarem como repositórios neutros do passado, tais arquivos integraram dispositivos coloniais de tutela, administração territorial e controle simbólico, sustentando regimes específicos de visibilidade, autoridade histórica e produção do indígena como objeto de saber no interior da narrativa estatal.
Partindo de debates contemporâneos sobre arquivo, memória e restituição, o trabalho propõe deslocar o arquivo do campo da evidência para o da relação e do conflito, interrogando seus silêncios, lacunas e violências constitutivas. A análise organiza-se a partir de dois eixos distintos de relação indígena com o arquivo, concebidos não como etapas sucessivas nem como alternativas excludentes, mas como gestos analíticos e políticos qualitativamente diferentes, que revelam modos plurais de confrontar a autoridade histórica das imagens coloniais.
O primeiro eixo aborda práticas de reinscrição e ativação do arquivo, nas quais imagens produzidas pelo indigenismo do século XX retornam às comunidades filmadas e passam a operar como dispositivos de memória histórica, reconhecimento da violência colonial e afirmação política no presente. Como caso exemplar, analisam se as reativações contemporâneas dos filmes realizados por Vladimir Kozák, quando esses registros retornam ao povo Xetá. Nesse movimento, o arquivo deixa de funcionar como evidência estável de um passado encerrado e passa a adquirir múltiplas vidas no presente, sendo mobilizado em narrativas indígenas que reconfiguram sua temporalidade, seu sentido e sua autoridade. Trata se de um contra arquivo produzido pela reinscrição crítica da imagem, que não apaga a violência histórica do registro, mas a torna legível como parte constitutiva do processo memorial e político.
O segundo eixo examina situações em que o gesto predominante não é a reinscrição produtiva, mas a desautorização, a recusa ou o estranhamento do arquivo enquanto fonte legítima de história. Nesse sentido, toma se como referência a leitura crítica formulada por Vanda Witoto a partir do reencontro com imagens atribuídas a Silvino Santos no filme Amazonas, o maior rio do mundo (1918). Ao comentar esse reencontro, Vanda Witoto não reconhece nas imagens um passado compartilhável nem uma memória passível de restituição, mas evidencia o caráter fabulado, incompleto e violento da narrativa cinematográfica colonial. O gesto não busca corrigir ou completar o arquivo, mas expor seus limites éticos e epistemológicos, recusando a autoridade histórica da imagem e suas pretensões documentais.
Tal posicionamento dialoga diretamente com a crítica formulada por Saidiya Hartman em Vênus em dois atos, ao problematizar a repetição da violência do arquivo sob a forma de novas reivindicações narrativas. A recusa, nesse caso, não se configura como ausência de história, mas como forma ativa e situada de confrontar a violência inscrita no gesto de arquivamento e nas expectativas contemporâneas de restituição, reparação ou reconhecimento mediadas pela imagem. A articulação entre esses dois eixos permite compreender o contra arquivo indígena não como simples inversão do arquivo institucional, mas como um campo de práticas diversas, que inclui tanto a reinscrição crítica quanto a recusa ontológica da imagem.
Em diálogo com Marisol de la Cadena, propõe‑se pensar essas operações como encontros entre regimes ontológicos distintos, nos quais imagens coloniais falham em reconhecer entidades e territórios que não se deixam capturar pela historicidade moderna ou pela lógica documental do Estado. Mais do que produzir novas versões do passado, essas práticas colocam em crise o horizonte do arquivável, deslocando o cinema e o audiovisual do campo da prova histórica para o da disputa pelos modos de narrar e habitar a história no presente.
Bibliografia
- DE LA CADENA, Marisol. Seres-terra: ecologias da prática e conflitos ontológicos. São Paulo: Ubu Editora, 2023.
DOS SANTOS, Nathan. Restituição e resistência ao genocídio indígena Xetá: as várias vidas, agências e memórias dos filmes de Vladimir Kozák. Diálogo Andino, Arica, n. 77, p. 1-18, 2025.
HARTMAN, Saidiya. Vênus em dois atos. ECO-Pós, Rio de Janeiro, v. 23, n. 3, p. 12-33, 2020.
PIAUÍ. O reencontro de Vanda Witoto com o filme Amazonas, o maior rio do mundo (1918), de Silvino Santos. Revista piauí, São Paulo, n. 209, fev. 2024.