Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Vinícius Silva Dórea (PPGCINE – UFS)

Minicurrículo

    Vinícius Dórea é realizador audiovisual e pesquisador. Mestre em andamento pelo Programa de Pós-Graduação em Cinema da Universidade Federal de Sergipe. Atua na fotografia e na direção de fotografia em produções audiovisuais e codirigiu três curtas-metragens. Tem interesse em práticas de curadoria cinematográfica. Sua pesquisa de mestrado fricciona os conceitos de afrofuturismo e afropessimismo, investigando tensionamentos entre estética,temporalidade e política no cinema contemporâneo.

Ficha do Trabalho

Título

    ENTRE O AMANHÃ E O FIM DO MUNDO: ÓTICAS AFROPESSIMISTAS E AFROFUTURISTAS EM “ERA UMA VEZ BRASÍLIA”

Seminário

    (Re)existências negras e africanas no audiovisual: epistemes, fabulações e experiências

Resumo

    A pesquisa analisa Era uma vez Brasília a partir do Afrofuturismo e do Afropessimismo, mostrando como o cinema de Adirley Queirós articula fabulação e catástrofe. A Ceilândia surge como espaço de ruínas futuristas, onde passado, presente e futuro se confundem. O filme evidencia a permanência da violência da escravidão e, ao mesmo tempo, projeta possibilidades de reinvenção a partir dessa catástrofe

Resumo expandido

    Essa pesquisa investiga as relações entre Afrofuturismo, Afropessimismo e o cinema de Adirley Queirós, especialmente no filme Era uma vez Brasília (2017). A pesquisa busca compreender como essas duas correntes teóricas, ainda que situadas em temporalidades distintas, o Afrofuturismo projetando futuros possíveis e o Afropessimismo evidenciando a permanência da catástrofe histórica, podem se tensionar e dialogar na análise fílmica. Diante dos incontáveis fins do mundo, que não se apresentam apenas como possibilidade de futuro, mas também como memória sedimentada na história, o trabalho parte da ideia de que, para aqueles que enfrentaram o trauma da escravidão e do colonialismo europeu, o fim do mundo já havia acontecido.
    O interesse na temática surge a partir do contato com narrativas de fim de mundo e pós apocalípticas, associadas tanto a experiências pessoais quanto à leitura de textos que relacionam o presente a uma continuidade da catástrofe. Nesse sentido, o Afropessimismo contribui ao anunciar a sobrevida da lógica escravista e a existência de uma gramática da antinegritude que alicerça a sociedade civil atual, enquanto o Afrofuturismo propõe narrar experiências negras através dos artifícios da ficção especulativa e criar futuros possíveis para corpos periféricos e racializados. Essas posturas não se anulam, mas se complementam por propor desdobramentos diferentes para a mesma tragédia.
    A análise se concentra no cinema de Adirley Queirós, que constrói uma experiência radical de espaço e tempo ao deslocar a Ceilândia para o centro da narrativa cinematográfica brasileira. Seu cinema rompe as fronteiras entre documentário e ficção e utiliza desse hibridismo para contestar a história oficial, revelando um território de “ruínas futuristas” que reconfiguram passado, presente e porvir. Em Era uma vez Brasília, fabulações interplanetárias ganham contornos de uma tragédia anunciada atravessada pelos resquícios da escravidão e por um contexto político específico, em que futuro, passado e presente se confundem.
    O filme articula elementos de ficção científica, fabulação e distopia para construir um espaço-tempo em suspensão, em que os personagens transitam por uma cidade marcada pela exclusão, pelo encarceramento e pela impossibilidade de resolução. A Ceilândia aparece como um planeta-cárcere, ecoando conceitos do Afropessimismo, enquanto a presença de viagens no tempo e deslocamentos interplanetários aproxima o filme das estratégias do Afrofuturismo, que não respeita abordagens lineares únicas com relação ao tempo e à história.
    Diante disso, o trabalho propõe pensar a articulação entre essas duas lentes teóricas como um ponto de encontro. Ambas reconhecem a catástrofe como ponto de partida, mas divergem na forma de desdobrar respostas: enquanto uma projeta futuros possíveis, a outra evidencia a permanência da violência. A análise fílmica permite identificar como o cinema de Adirley tensiona essas perspectivas ao construir imagens que apontam tanto para o fim do mundo quanto para sua reinvenção.
    Assim, o estudo demonstra que o cinema de Adirley Queirós opera uma reinvenção do espaço e do tempo, criando paisagens que evocam ruínas do futuro e desafiam a linearidade histórica. Ao mesmo tempo, evidencia que a fabulação não nega a catástrofe, mas se constrói a partir dela, propondo outras formas de imaginar o mundo e a experiência periférica. Dessa forma, o trabalho se insere no campo da análise fílmica e teoria crítica racial ao investigar como o cinema brasileiro contemporâneo dialoga com movimentos culturais e teóricos da diáspora africana, articulando memória, violência e possibilidade de futuro.

Bibliografia

    DÉRY, Mark. Black to the future: entrevistas com Samuel R. Delany, Greg Tate e Tricia Rose. 2020.

    ESHUN, Kodwo. Further considerations on Afrofuturism. CR: The New Centennial Review, 2003.

    FREITAS, Kênia; MESSIAS, José. O futuro será negro ou não será: Afrofuturismo versus Afropessimismo – as distopias do presente. 2021.

    HARTMAN, Saidiya. Cenas da sujeição: terror, escravidão e criação de si na América do século XIX. Rio de Janeiro: Zahar, 2025.

    HARTMAN, Saidiya. Perder a mãe: uma jornada pela rota atlântica da escravidão. Rio de Janeiro: Bazar do Tempo, 2023.

    MARTINS, Leda Maria. Performances do tempo espiralar. Rio de Janeiro: Cobogó, 2021.

    SEXTON, Jared. People-of-color-blindness: notes on the afterlife of slavery. Social Text, 2010.

    WILDERSON III, Frank B. Afropessimism. New York: Liveright Publishing, 2020.

    WOMACK, Ytasha L. Afrofuturism: the world of black sci-fi and fantasy culture. Chicago: Lawrence Hill Books, 2015.