Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Giulia Dela Pace Santos (UnB)

Minicurrículo

    Mestranda em Comunicação pela UnB (PPGCom), na linha Imagem, Estética e Cultura Contemporânea. Graduada em Publicidade e Propaganda pela UnB, pesquisa Cinema e Gênero. Foi bolsista PIBIC/AF (2021–2022) e recebeu menção honrosa em congresso de iniciação científica. Atua como crítica na Revista CineStylo e lidera a redação no cineclube CineBeijoca. Integra o grupo de estudos do CNPq: Estudos de roteiros: arquivos, processos e cartografias.

Coautor

    Pablo Gonçalo (UnB)

Ficha do Trabalho

Título

    Entre Nelson e Neville: cartografia do desejo feminino em “A Dama do Lotação” (1978)

Eixo Temático

    ET 2 – INTERMIDIALIDADES, TECNOLOGIAS E MATERIALIDADES FÍLMICAS E EPISTÊMICAS DO AUDIOVISUAL

Resumo

    O trabalho investiga a adaptação do conto A Dama do Lotação, de Nelson Rodrigues, no filme homônimo de Neville d’Almeida (1978). Analisa como as escolhas autorais tensionam o roteiro de adaptação no espaço de inscrição do corpo desejante na imagem, dando vida à experiência sensorial e erótica das mulheres rodriguianas. Ainda, busca compreender como a adaptação cinematográfica não se limita à transposição da escrita para a imagem, mas reorganiza seus focos de enunciação e regimes de visibilidade.

Resumo expandido

    Esta pesquisa investiga a adaptação do conto “A Dama do Lotação”, de Nelson Rodrigues, no filme homônimo dirigido por Neville d’Almeida em 1978. A pesquisa observa como escolhas narrativas, cartográficas e a expressividade do corpo configuram uma autoria que tensiona a crítica rodriguiana do moralismo e o excesso estilístico de Neville, marcado por centros urbanos saturados e encontros sexuais fetichizados e casuais. Nossa aproximação à obra combina três eixos: análise fílmica (2013), análise sensível (Baltar, 2024) e olhar comparativo (Xavier, 2026) a pesquisa investiga como o percurso autoral pode abrir espaço à inscrição do corpo e desejo feminino no cinema, entendendo o cinema como campo aberto e inesgotável de interpretação sensível.O filme, situado no auge do “cinemão” e ambiente cinematográfico frequentemente dominado pelo male gaze (Mulvey, 1983) e pela espetacularização do corpo feminino sem objetivo fílmico aparente, consegue distorcer essa lógica. Já que Neville, com filmografia que transita entre o subversivo e o popular, articula provocação crítica e apelo de mercado. Ele tem como marcas autorais mais evidentes a operação do excesso cromático, leitmotiv, montagem fragmentada e ritmo narrativo acelerado que constrói experiência sensorial deslocando o erotismo da simples contemplação para um campo de fricção simbólica. “A Dama”, nesse sentido, opera nas fissuras do “cinema masculino” ao reinscrever o erotismo feminino como prática de transgressão do interdito (Bataille, 2020). O conto de Rodrigues constrói, brevemente, um quadro sintomático da hipocrisia moral da classe média carioca por uso de uma única cena focada na descoberta do adultério. E que posteriormente Neville junto a Rodrigues ampliam a história de Solange (protagonista) centrados no oscilar entre desejo e culpa. “A Dama”, assim, emerge como figura rodriguiana típica, seu conflito dramático deriva do desejo fora do casamento e da culpa produzida pela transgressão das normas conjugais. No conto, o erotismo surge como índice narrativo da crítica social mediado por um narrador externo que enfatiza a dimensão moral da transgressão feminina. Na adaptação de d’Almeida, ele ganha materialidade performática e espacial quando o percurso de Solange é marcado por movimento pendular entre espaços privados (casa) e públicos (lotação;ruas) produzindo uma cartografia erótica da cidade. Ainda, a adaptação não se limita à conversão do literário para o cinematográfico, mas expande o material narrativo tanto pelo protagonismo de Solange, quanto por meio da imagem que dá centralidade à experiência erótica da protagonista. A força motriz da narrativa em Neville são as ações de Solange, esvaziando a importância de Carlinhos (marido) graças ao regime visual e excessivo do autor. A crítica à norma emerge não pela voz de um narrador onisciente — como em Nelson —, mas pelo deslocamento espacial e desobediência da personagem. E a transição entre Zona Sul e Norte do Rio de Janeiro traduz visualmente o percurso erótico (Lorde, 2019) da protagonista. Mas ao mesmo tempo em que descobre sua capacidade de prazer, ela ainda se vê presa às normas sociais que regulam seu corpo, como no conto original. A adaptação não se limita à transposição da escrita para a imagem, mas reorganiza seus focos de enunciação e regimes de visibilidade. Ao deslocar a crítica rodriguiana do moralismo para uma experiência sensorial e espacial do desejo feminino, Neville reinscreve o material literário — junto à Nelson (Xavier, 2026) — em uma poética marcada pela estilística autoral e centralidade do corpo erótico e da cidade como operadores narrativos. Portanto, para além do autoral, Neville cria também um modo do roteiro de adaptação funcionar como espaço de inscrição do corpo desejante na imagem, dando vida à experiência sensorial e erótica das mulheres rodriguianas.

Bibliografia

    AUMONT, Jacques; MARIE, Michel. A análise do filme. Campinas: Papirus, 2013.
    BALTAR, Mariana. Por uma análise sensível: corpo e sensorialidade como ponto de partida metodológico. In: Anais do 33° Encontro Anual da COMPÓS, Niterói, 2024.
    BATAILLE, Georges. O erotismo. Belo Horizonte: Autêntica, 2020.
    D’ALMEIDA, Neville (dir.). A dama do lotação. Rio de Janeiro: Embrafilme, 1978. Filme.
    LORDE, Audre. Irmã outsider. Belo Horizonte: Autêntica, 2019.
    MULVEY, Laura. Prazer visual e cinema narrativo. In: XAVIER, Ismail (org.). A experiência do cinema. Rio de Janeiro: Graal, 1983.
    GONÇALO, Pablo. Hollywood de papel: roteiros não filmados de Ben Hecht, Billy Wilder e Frances Marion. Rio de Janeiro: Editora Zazie, 2022.
    RODRIGUES, Nelson. A vida como ela é…. Rio de Janeiro: Agir, 2006.
    XAVIER, Ismail. O olhar e a cena. São Paulo: Cosac Naify, 2003.