Ficha do Proponente
Proponente
- Diego Arvate (Unicamp)
Minicurrículo
- Pesquisador e poeta, trabalha na fronteira entre vídeo e teatro há mais de dez anos, com uma trajetória bastante ligada ao Teatro Oficina. Graduado em Comunicação e Multimeios pela PUC-SP, onde foi professor convidado durante o ano de 2018. Atualmente, é mestrando no PPG-Multimeios da Unicamp. Publicou em 2012 a iniciação científica Ivan Cardoso: Uma Experiência do Cinema (Bolsa: CAPES/CNPQ), prêmio do ano de melhor trabalho na área de Ciências Sociais Aplicadas – Comunicação, na PUC-SP.
Ficha do Trabalho
Título
- Extremos do prazer: cinema brasileiro e os fantasmas da abertura.
Eixo Temático
- ET 4 – HISTÓRIA E POLÍTICA NO CINEMA E AUDIOVISUAL DAS AMÉRICAS LATINAS E DOS BRASIS
Resumo
- A pesquisa procura entender como o filme “Extremos do prazer”, dirigido por Carlos Reichenbach em 1983, por meio de suas personagens e procedimentos fílmicos, expõe e critica um imaginário incorporado pelo cinema brasileiro ao longo da abertura política (1976-1984).
Resumo expandido
- O trabalho investiga quais são as personagens-tipo que se esboçam nos caracteres do filme “Extremos do prazer”, dirigido por Carlos Reichenbach em 1983, e de que modo elas apontam para o espectro de um imaginário específico, projetado sobre o cinema brasileiro durante os anos finais do governo militar. A partir da comparação com outros filmes realizados no decorrer da abertura política (1976-1984), queremos identificar como, no crepúsculo da ditadura, o cinema brasileiro se tornou um meio privilegiado pelos militares em seu projeto de cultura, programa ancorado sobretudo na formatação de um imaginário nacional como herança do regime para a transição democrática. As estratégias críticas de Carlos Reichenbach, especialmente em “Extremos do prazer”, proporcionam um ângulo singular para o reconhecimento de muitos dos fantasmas preeminentes no cinema “nacional” às vésperas da redemocratização. A intenção é destacar como o cineasta, ao estabelecer uma trajetória de produção com relativa independência no cinema brasileiro, atingir respaldo de bilheteria, e garantir a confiança de produtores da boca do lixo, consegue explorar em sua filmografia procedimentos que entram em fricção com os padrões normativos do cinema popular brasileiro da época, ao mesmo tempo em que manuseia suas formas e por ele é absorvido.
Lançado durante os últimos suspiros do regime militar, “Extremos do prazer” apresenta o embate entre três gerações afetadas diretamente pelas irresoluções dos anos da abertura política. São sete personagens, homens e mulheres, isolados durante um fim de semana de veraneio numa casa de campo. Encontra-se lá um ex-professor universitário com os direitos cassados, signo de uma geração sufocada prontamente pelo golpe de 1964, cercado por um apostador da bolsa de valores arrivista e tecnocrata, uma mulher recém divorciada, e um casal de burgueses acomodados, todos representantes de uma geração que trocou a omissão política por uma posição social privilegiada durante o “milagre econômico”. Além deles, aparecem dois jovens com concepções heterogêneas sobre política e comportamento, menos racionalistas do que a geração que sofreu imediatamente o golpe. O filme chama atenção por revelar essas figuras como se fossem caracteres bastante familiares, personagens-tipo, minuciosamente pinçados da cinematografia brasileira de seu tempo. Do lado de fora do sítio, dois outros personagens, populares e anônimos, circundam a propriedade e, sem serem notados, aparentam lançar olhares ameaçadores contra o grupo. Do lado de dentro, o fantasma de uma mulher torturada e morta durante a ditadura, ex-companheira do professor, assombra alguns dos personagens da casa.
Produzido pela Embrapi, uma cooperativa de profissionais do cinema que reunia, além de Carlos Reichenbach, o diretor Jean Garret e o montador Éder Mazini, foi o último filme do diretor realizado nos esquemas de produção da boca do lixo, onde o cineasta realizara toda sua filmografia até então. O filme teve uma boa recepção de crítica e público, e ganhou três prêmios no Festival de Gramado de 1984 (montagem, roteiro e menção honrosa pela integridade da obra), além do Prêmio “Governador do Estado de São Paulo” de melhor direção. Com o passar do tempo, a relevância do longa-metragem parece ter ficado opaca na memória de nossa cinematografia, acompanhando o esfacelamento das produtoras da boca do lixo nos anos seguintes. Ao contrário de outras obras do diretor, até hoje Extremos do prazer não foi restaurado e jamais saiu em DVD. A única cópia acessível na internet é uma versão sofrível disponibilizada no Youtube, provavelmente ripada de uma reprodução em VHS.
Bibliografia
- ABREU, Nuno Cesar Pereira de. Boca do lixo: cinema e classes populares / Nuno Cesar Abreu. 2. ed. – Campinas, SP: Editora da Unicamp, 2015
AVELLAR, José Carlos, O cinema dilacerado. Alhambra, Rio de Janeiro, 1986
BERNARDET, Jean-Claude. Cinema brasileiro: propostas para uma história. São Paulo Cia. das letras. 2009.
GAMO, Alexandre; MELO, Luís Alberto Rocha, Histórias da boca e do beco. In RAMOS, Fernão; SCHVARZMAN, Sheila. (org.). Nova história do cinema brasileiro, vol. 2. São Paulo. Edições Sesc. 2018.
LYRA, Marcelo. Carlos Reichenbach: o cinema como razão de viver / Marcelo Lyra. – São Paulo: Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2004.
ORTIZ RAMOS, José Mário. Cinema, estado e lutas culturais; anos 50, 60 , 70 – José Mário Ortiz Ramos. – Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1984
XAVIER, Ismail. O cinema brasileiro moderno. São Paulo. Paz e Terra, 2001. (Coleção Leitura)