Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Lorena Santos Reis (UFRB)

Minicurrículo

    Graduada em Cinema e Audiovisual pela UFRB. Mestranda em Comunicação pela UFRB. Foi consultora de roteiro e assistente de direção em A Pipa de Lupínio (2026). Foi roteirista da série de animação Áfricas (2021), oriunda da peça do Bando de Teatro Olodum. Realizou produção do filme Mungunzá (2022). Participou da direção coletiva do documentário Para os Velhos (2026). Atuou como continuísta em Na Rédea Curta (2023). Fez função de logger do filme Quem tem com que me pague não me deve nada (2026).

Ficha do Trabalho

Título

    O Realismo-Maravilhoso no Recôncavo Baiano – Café com Canela e o Sagrado Afro-Brasileiro

Eixo Temático

    ET 3 – FABULAÇÕES, REALISMOS E EXPERIMENTAÇÕES ESTÉTICAS E NARRATIVAS NO CINEMA MUNDIAL

Resumo

    Investiga-se como o filme Café com Canela (2017) constrói representações do sagrado, a partir de elementos do Realismo-Maravilhoso, onde a magia não é suspensão da realidade. Os espaços e personagens do filme são reinseridos ao mundo visível, ampliando as possibilidades do real. O maravilhoso é linguagem possível para explicar o sagrado, para tornar visível o que é invisível, para afirmar que a experiência do mundo é múltipla. Não é uma fuga da realidade, é a continuação dela por outros meios.

Resumo expandido

    A pesquisa analisa como o filme Café com Canela (2017), dos diretores Ary Rosa Duarte e Glenda Nicácio, produzido no Recôncavo Baiano, traduz o sagrado afro-brasileiro, por meio da investigação do Realismo-Maravilhoso. No Realismo-Maravilhoso o fantástico e a magia, atravessam a tessitura casual do cotidiano, sem romper com a percepção sensível e ética da realidade. O estilo surge como tradução de anseios políticos e poéticos de uma região marcada pelo colonialismo, disputas territoriais, sincretismo religioso e conflitos étnicos. A análise de Café com Canela (2017) investiga possibilidades epistemológicas aos referenciais teóricas do cânone eurocêntrico, impostos aos territórios invadidos e aos corpos subalternizados. Percebemos que, no filme, a encenação dos afetos cotidianos, das ancestralidades e dos gestos de cura revelam um modo de existir que desafia a lógica cartesiana e fragmentária da modernidade ocidental. O filme constrói uma experiência sensorial e espiritual em que corpo, memória e território se entrelaçam, convidando o espectador a conhecer o mundo em sua forma integral.

    Atualmente, há pesquisas que relacionam a origem do Realismo-Maravilhoso a tradições da Cosmovisão Africana e seu respectivo encontro com a filosofia dos povos originários. Alejo Carpentier defende que a América Latina é um território essencialmente maravilhoso e o extraordinário não surgiria da imaginação do autor, mas da observação sensível dos mitos, crenças e modos de viver dos povos afro-ameríndios. Segundo ele, “o real maravilhoso se encontra em estado bruto em toda a América”. Ele argumenta que há uma verdade estética e espiritual própria da América Latina, contrapondo-se a visão racionalista e fragmentada da modernidade europeia. O maravilhoso, portanto, é a expressão de uma realidade plena, onde o mistério e a transcendência se manifestam de modo orgânico na experiência histórica dos povos da América. Funde-se corpo e espírito, ancestralidade e presente, memória e tempo. O sagrado se manifesta no cotidiano e o cotidiano se espiritualiza. Desse modo, investiga-se perspectivas que permanecem como ruptura da visão cartesiana e que dão continuidade a ontologias anteriores a dominação europeia do século XVI, onde a Europa lançava ao mundo uma perspectiva que respondia aos anseios do advento do capitalismo, capaz de justificar a “demonização” e a colonização dos povos não-brancos. A magia se diluía, sendo relegada a concepção de “sociedades primitivas”. O sagrado, antes presente na natureza; nos seres e nas dinâmicas comunitárias, deixa de existir. O místico passa a ser incorporado ao sistema econômico, sendo agora estrutura moralizante das sociedades e não mais a experiência integral dos indivíduos. A invasão de territórios; a exploração da natureza e do Outro passa a ser justificada, pois o sagrado já não está mais contido nos seres ou nos elementos naturais.

    Contudo, por meio de práticas e saberes de povos tradicionais, o encantamento do mundo tem resistido ao sufocamento das diretrizes modernas, através de modos de vivências que são repassados por gerações. Em Café com Canela (2017) vemos que o cinema se mostra capaz de lançar possibilidades de perceber o real, de fruir o mundo, de se relacionar com a comunidade e a natureza. No filme o cotidiano percorre espaços sensíveis e espirituais, onde não há separação entre os seres e as dimensões orgânicas que os envolvem e atravessam. Tudo que existe participa de uma mesma força vital, que flui entre pessoas, animais, plantas e elementos da terra. Essa visão integradora recusa a separação entre o espiritual e o material, entre o individual e o coletivo. Avalia-se que em Café com Canela (2017) o universo simbólico do sagrado pode contribuir para o debate sobre as origens do Realismo-Maravilhoso e sua conexão com cosmovisões pré-coloniais e, com isso, avalia também que o filme pode ilustrar um mundo onde ainda há encanto e, em tudo que há vida, pode ser reconstituída a sua dimensão sagrada.

Bibliografia

    CARPENTIER, Alejo. O Reino Deste Mundo. CARPENTIER, Alejo. Prólogo. In: El reino de este mundo. Disponível em: https://pt.scribd.com/document/813387685/ALEJO-CARPENTIER-Prologo-a-O-Reino-Deste-Mundo-Pt-1 Acesso em 20/10/2025.
    CHIAMPI, Irlemar. O Realismo-Maravilhoso: Forma e ideologia no romance hispano-americano: São Paulo. Perspectiva,1980.
    MARTINS, Leda Maria. Poéticas do Tempo Espiralar. Rio de Janeiro: Cobogó, 2022.
    CARDOSO, Mateus Ramos. O Desencantamento do mundo segundo Max Weber. Revista EDUC-Faculdade de Duque de Caxias/Vol. 01-Nº 02/Jul-Dez 2014.
    PIERUCCI, Antonio Flávio. O desencantamento do mundo: todos os passos de um conceito. São Paulo: Editora 34, 2003.
    KRENAK, Ailton. Ideias para Adiar o Fim do Mundo. São Paulo: Companhia das Letras, 2019.
    OLIVEIRA, Eduardo David. Cosmovisão Africana no Brasil: elementos para uma filosofia afrodescendente. Rio de Janeiro: Ape’Ku Editora e Produtora LTDA,2021.