Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Carla Italiano (UFMG)

Minicurrículo

    Pesquisadora, curadora e professora de cinema. Doutora em Comunicação Social pelo PPGCOM/UFMG. Integra anualmente a curadoria dos festivais: Olhar de Cinema, FENDA e forumdoc.bh, e foi coordenadora das mostras temáticas: Mulheres Mágicas – Reinvenções da Bruxa no Cinema, El Camino – Cinema de Viagem da América do Sul, e Retrospectiva Helena Solberg. Co-organizou o dossiê “Cinema e Escritas de Si” da Devires – Cinema e Humanidades (UFMG), entre outras publicações.

Ficha do Trabalho

Título

    Esta noche todo cambiará: experimentação, corpo e coletividades em “O México não existirá mais!”

Mesa

    Experimentações e práticas de criação: diálogos a partir do gênero

Resumo

    Um olhar sobre os modos de experimentação no longa “O México não existirá mais!”. A experimentação como um desaprender das convenções – das tradições de cinema de vanguarda e do pensamento colonial moderno –, em prol dos fragmentos de uma história potencial. O foco será a centralidade conferida ao corpo na obra, em seu processo artesanal e partilhado: em particular ao corpo-filme da película 16mm e à corporificação de mitologias fundantes mexicanas, marcadas por construções raciais e de gênero.

Resumo expandido

    Lançado em 2024, “O México não existirá mais!” (no original: ¡Aoquic iez in Mexico! ¡Ya México no existirá más!) é o longa de estreia de Annalisa D. Quagliata Blanco, fruto de um processo artesanal iniciado em 2017, vinculado ao LEC (Laboratório Experimental de Cine). Captado em película 16mm, o filme se estrutura em cinco partes, organizadas por uma montagem vertiginosa que mergulha nas contradições da sociedade mexicana, especificamente da Cidade do México (outrora nomeada Tenochtitlan, no Império Mexica). Ele aposta nos fragmentos de tempos, imagens e mitos que alinhavam o passado e o presente dessa metrópole colossal, atravessados pelos legados dos povos originários e as marcas da colonização.

    Avesso a categorizações, o longa convoca estratégias diversas em seu hibridismo estético, sem se filiar inteiramente a nenhuma – de tradições de cinema experimental (de linhagem estadunidense), às sinfonias da cidade do século XX, passando por procedimentos do documentário etnográfico e das artes visuais. Permanece como linha de fuga o convite à experiência sensível: às relações imprevistas entre os sons e as imagens, com os questionamentos que delas resultam.

    Mas o que alicerça a ideia de experimentação do filme? Talvez a definição de Germaine Dulac em 1928 forneça um caminho, em sua defesa do cinema de vanguarda como aquele que “rompe com as tradições estabelecidas para explorar (…) novos acordes emocionais” (Dulac, 1978, p. 44). Ecoando esses acordes emocionais, a experimentação desenhada em “O México não existirá mais!” surge como um “desaprender” das convenções. Primeiro, das tradições de experimental que ele igualmente evoca, sobretudo no uso do suporte 16mm e em sua montagem frenética. Segundo, a experimentação está igualmente no desaprender de um pensamento colonial moderno, ou mesmo na recusa das narrativas totalizantes que amparam um suposto ideal de progresso civilizatório. Ele torna evidente o trabalho dos obturadores imperiais, nos termos de Ariella Azoulay, a fim de recusá-los – ou ainda, de praticar uma história potencial, “contra a separação entre passado e presente, entre pessoas colonizadas e seus mundos e posses, entre história e política” (Azoulay, 2024, p. 22). Por meio de uma construção caleidoscópica e inebriante, o filme opera uma fenda na história hegemônica e sua falácia de neutralidade, retomando possibilidades interrompidas ou declaradas impossíveis. Nesse sentido, ele habita o intervalo produtivo entre o “existir” e o “inexistir” – de tempos, visões de mundo, cosmologias –, algo reivindicado desde o título (grafado simultaneamente em espanhol e náuatle).

    Um dos aspectos que cifram esse estado de contradição produtiva está na centralidade do corpo no filme, latente na posta em cena das pessoas filmadas, entre um regime documental cotidiano e uma chave performática. Aqui, divindades de mitologias nahua aparecem ora em esculturas seculares, ora em tatuagens inscritas na superfície da pele. Ou ainda, elas surgem personificadas por pessoas próximas à diretora (parceiras no processo de feitura), convocando uma incontornável perspectiva feminista à obra. Mas essa ideia de corpo também se amplia na lida com o 16mm, explorado em sua materialidade como uma espécie de “corpo-filme” – presente na película manipulada pela diretora de diversas formas, em fotogramas que derretem diante de nossos olhos, a evidenciar a opacidade do que é visto e sentido.

    Assim, esta comunicação busca investigar os modos de experimentação em “O México não existirá mais!”, com foco na ideia de corpo. Será conferida atenção especial às performances encenadas para a câmera, corporificando mitos fundantes atravessados por construções históricas raciais e de gênero. Interessa ainda sinalizar como o processo de criação do longa se expande em horizontes de coletividade – algo evidente nas parcerias firmadas com as pessoas filmadas, na rede de referências pregressas, ou nos diálogos contemporâneos no campo do cinema experimental mexicano.

Bibliografia

    AZOULAY, Ariella Aïsha. História potencial: Desaprender o imperialismo. São Paulo: Ubu Editora, 2024.

    CORONEL, Ariadna Lucas. “Un trance hacia la mexicanidad: Entrevista a Annalisa D. Quagliata Blanco”. 22 Festival Internacional de Cine de Morelia, 20 out. 2024.

    CURIEL, Ochy. Construindo metodologias feministas a partir do feminismo decolonial. In: HOLLANDA, H. B. (org). Pensamento feminista hoje: perspectivas decoloniais. Rio de Janeiro: Bazar do Tempo, 2020.

    DAVIES, Byron. Mitopoiesis de Tenochtitlán: ¡Aoquic Iez In Mexico! / ¡Ya México No Existirá Más! de Annalisa D. Quagliata Blanco. S8 Mostra de Cinema Periférico, 04 jun. 2024.

    DULAC, Germaine. “The Avant-Garde Cinema. The Works of the Cinematic Avant-Garde: Their Destiny before the Public and Film Industry.” In: SITNEY, P. A. (org.). The Avant-Garde Film: A Reader of Theory and Criticism. Nova York: New York University Press, 1978, p. 44.