Ficha do Proponente
Proponente
- Janaína Oliveira (IFRJ / PPGCine UFF)
Minicurrículo
- Janaína Oliveira é pesquisadora de cinema e curadora independente. Professora do Instituto Federal do Rio de Janeiro (IFRJ) e do Programa de Pós-Graduação em Cinema e Audiovisual (PPG-Cine) da Universidade Federal Fluminense, é também consultora da JustFilms – Fundação Ford. Ela é doutora em História e foi Pesquisadora Visitante da Fulbright no Centro de Estudos Africanos da Howard University. Mais informações sobre seu trabalho podem ser encontradas em https://linktr.ee/jana_oliveiraa
Ficha do Trabalho
Título
- “O Boom era de fato um eco” : Pearl Bowser e o Black-Ground para os estudos de cinemas negros.
Seminário
- (Re)existências negras e africanas no audiovisual: epistemes, fabulações e experiências
Resumo
- A presente comunicação investiga a hipótese de que a articulação dos trabalhos de pesquisa e de curadoria realizados por Pearl Bowser a partir de meados dos anos 1960, abre caminho para a fundação do campo de estudos de cinemas negros. A atuação de Bowser aqui é considerada crucial, pois forjaria para o campo de estudos de cinemas negros, o que Tina Campt chama de Black-ground, isto é, a possibilidade de compreensão das experiências negras (Blackness) no cinema “em seus próprios termos”.
Resumo expandido
- No início da década de 1970, surgem dois movimentos que pareciam estar fundando o campo do cinema negro nos EUA. De um lado, na Costa Oeste, florescia a geração de cineastas independentes provenientes do contexto do curso de Etnocomunicação da Universidade da Califórnia que ficaria conhecida por L.A. Rebellion (A Rebelião de Los Angeles), que incluía nomes como Haile Gerima, Charles Burnett, Larry Clark e Julie Dash. E, no outro, na Costa Leste, dos filmes protagonizados e dirigidos por pessoas negras, mas com um recorte mais comercial, que inauguram um conjunto de filmes conhecidos por Blaxploitation, caminho aberto por cineastas como Gordon Parks, com Shaft, e Melvin Van Peebles, com Sweet Sweetback’s Baadasssss Song.
Diante do alvoroço causado por esses filmes, a pesquisadora Pearl Bowser afirmou que “o Boom era de fato um eco”, indicando que havia uma história anterior a esse momento que precisava ser contada. Bowser fez isso antes mesmo de Thomas Cripps lançar “Black Film as a Genre”- trabalho que para muitos foi pioneiro no para os estudos de cinemas negros – em 1978. Essa frase de Bowser foi inclusive o título de um artigo que ela publicou em 1973, organizando pela primeira vez sua pesquisa sobre a obra de Oscar Micheaux e o contexto dos Race Films, os assim chamados Filmes Raciais que inauguram a produção de filmes feitos por, com e para pessoas negras nos EUA nas primeiras décadas do século XX.
O primeiro contato de Bowser com a obra de Micheaux aconteceu ainda nos anos 1960, quando trabalhava como assistente do produtor Charles Hobson na rede de televisão ABC. Hobson havia encontrado no acervo do MOMA – Museu de Arte de Moderna de Nova York, um livreto de 1941 sobre os Race Films, no qual falava brevemente de Oscar Micheaux. Com planos de escrever mais sobre o diretor, Hobson designou Bowser para começar a pesquisa sobre Micheaux. Como parte do projeto, Bowser foi à Califórnia para entrevistar atores que podem ter estado em filmes negros antigos ou pessoas que podiam ter trabalhado ou mesmo só conhecido Micheaux. Suas descobertas deram início a uma imersão na obra de Micheaux e seus colegas cineastas.
Foi assim que em 1970 ela co-curou com Hobson e Mel Roman, uma primeira mostra de filmes, The Black Film (O Cinema Negro) — uma exibição de 14 filmes realizados entre 1925 e 1965. E em 1971, ela organizou seu primeiro festival de cinema negro, chamado Black Film History Series (Série de História do Cinema Negro). Para Bowser, mostrar os filmes, fazer circular os filmes de Micheaux e dos outros cineastas de sua geração foi a prioridade.
Em entrevista de 2020, concedida à cineasta e arquivista Ina Acher, Bowser diz: “O que eu passei uma vida inteira fazendo foi filmar e distribuir e tentar desenvolver um público para esses filmes (…) E eu estava sempre procurando por algo que fosse desencadear algo no público que estava assistindo, e eu pudesse falar sobre isso. Era como um tutorial, era como um momento inspirador para todos lá fora que só viam as imagens negativas de si mesmos na tela. Aqui estava a realidade, e era isso que eu gostava de fazer. Eu passei uma vida inteira fazendo isso.”
A presente comunicação investiga a hipótese de que a articulação dos trabalhos de pesquisa e de curadoria realizados por Pearl Bowser a partir de meados dos anos 1960, abre caminho para a fundação do campo de estudos de cinemas negros. A atuação de Bowser aqui é considerada crucial, pois forjaria para o campo de estudos de cinemas negros, o que Tina Campt chama de Black-ground, isto é, a possibilidade de compreensão das experiências negras (Blackness) no cinema “em seus próprios termos”. Essa comunicação faz parte do projeto de pesquisa em andamento “Oferendas Narrativas para pensar os Cinemas Negros no Brasil e nas Diásporas” que tem como objetivo conjugar as dimensões históricas, estéticas, poéticas e epistemológicas que permeiam a construção do movimento plural dos cinemas negros no Brasil e nas diásporas.
Bibliografia
- BOWSER, PEARL. “The Boom is Really an Echo.” Black Creation IV (Winter 1973): 32-35.
BOWSER, Pearl; GAINES, Jane; MUSSER, Charles (ed.). Oscar Micheaux and his circle: African-American filmmaking and race cinema of the silent era. Bloomington: Indiana University Press, 2001.
CAMPT, Tina. The Black Gaze: artists changing how we see. London / Massachusetts: The MIT Press, 2021.
____ “Black-Ground: Noah Davis and the Spacial Frequencies of Black Everyday”. In FRAY-SMITH, Wells; MALAVASSI, Paola; NAIRNE, Eleanor. Noah Davis. Munique, Londres, NY: Prestel, 2024, pp. 163-167.GLISSANT, Édouard. Poética da Relação. Rio de Janeiro: Bazar do Tempo, 2021, pp. 219-225
MARTINS, Leda Maria. Performances do tempo espiralar, poéticas do corpo-tela. Rio de Janeiro: Editora de Livros Cobogó, 2021.
OLIVEIRA, Janaína. “Narrative Offerings for a History of Black Cinemas in Brazil”. In CONDE, Maite; FURTADO, Gustavo. The Oxford Handbook of Brazilian Cinema. Oxford University Press, 2026. (No prelo)