Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Ana Claudia da Cruz Melo (UFPA)

Minicurrículo

    Pesquisadora e professora associada do curso de Bacharelado em Cinema e Audiovisual e do Programa de Pós-Graduação em Artes da Universidade Federal do Pará (PPGArtes/UFPA). Pós-doutora em Educação pela Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (FEUSP-SP). Doutora em Comunicação e Semiótica pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Mestra em Ciências da Comunicação e especialista em Cinema pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos/RS).

Ficha do Trabalho

Título

    A Experiência Fílmica LGBTQ+: entre práticas pedagógicas, recepção e dispositivos de controle

Resumo

    Este trabalho se propõe a apresentar a análise de experiências fílmicas LGBTQ+ na interface pedagógica sobre gênero e sexualidade, no ensino básico brasileiro. O estudo se desenvolve por meio do exame de recomendações e de planos de ensino compartilhados em plataformas digitais voltadas à educação. Além disso, apresenta a recepção de filmes trabalhados em sala de aula e discute sobre dispositivos de controle.

Resumo expandido

    O cinema sempre foi alvo de controle quando se trata das abordagens ou representações lésbicas, gays, bissexuais, transsexuais e queer (LGBTQ+). Se, por um lado, esse controle produziu narrativas estigmatizantes ou limitadas, por outro, fez emergir um campo de resistência que transformou o cinema, sobretudo a partir dos anos 1970, em um lugar político onde se pensa sobre sexualidade, identidade de gênero, desejos, exclusão, opressão, criminalização e LGBTfobia .
    Também nessa direção, teóricos e críticos do cinema, como o ativista do movimento gay americano Vitor Russo (1981), desenvolveram, entre o final dos anos 1960 e a década de 1980, métodos de leitura de códigos presentes nas tramas, que demonstraram como, ao longo da História do Cinema, dispositivos de controle produziram inúmeros filmes que associavam LGBTQ+ à doença mental, ao pecado, ao crime, à vilania e à morte.
    Codificações “queer” que foram desconstruídas e ressignificadas por cineastas e realizadores atentos às problemáticas do universo LGBTQ+, dando origem ao que ficou conhecido como Novo Cinema Queer (NQC). Termo criado, em 1992, pela crítica de cinema B. Ruby Rich para se referir ao conjunto de filmes e vídeos com traços comuns de “apropriação”, “pastiche” e “ironia”, além de uma reelaboração da história que considera sempre “um construtivismo social” (Rich, 2015).
    Desde então, o cinema (compreendido seja como queer ou não) tem respondido por uma intensa produção LGBTQ+ que se torna um convite ao pensamento. A partir dessa perspectiva, neste trabalho analisamos como experiências fílmicas LGBTQ+ têm ocupado um lugar relevante entre as estratégias pedagógicas, no ensino básico brasileiro. Isso tanto à luz das Diretrizes Curriculares Nacionais da Educação Básica (DCNEB), no que tange à promoção do respeito às relações de gênero, quanto daquilo que preconiza a Base Nacional Comum Curricular (BNCC) em relação à necessidade de se promover o debate sobre as causas da violência contra populações marginalizadas (negros, indígenas, mulheres, homossexuais, camponeses, pobres) para construir uma cultura de paz, empatia e respeito.
    Para isso, detemo-nos, primeiro, em recomendações e em planos de ensino, compartilhados em plataformas digitais voltadas à educação. Em relação a esse aspecto, identifica-se que as experiências fílmicas LGBTQ+ são trabalhadas em sala de aula, sobretudo, com foco na promoção dos Direitos Humanos e no combate à LGBTfobia e ao bullying. No ensino Médio, essa atividade acontece nas disciplinas de História e Sociologia; e nos anos finais do ensino do Fundamental, na disciplina de História. No segundo momento, analisamos como educadores desenvolvem suas dinâmicas de discussão sobre os filmes. Em todas as experiências, os filmes são trabalhados tanto com o intuito de discutir quanto de refletir sobre sexualidade e gênero.
    Ainda com vistas a experiência fílmica, analisamos a recepção de dois documentários, Se essa escola fosse minha, de Fellipe Marcelino e Letícia Leotti (2017), e Depois da tempestade – A LGBTFobia na escola, de Bruno Nomura (2018). No painel dos comentários do Youtube, onde estão disponíveis, selecionamos 43 postagens de usuários que se identificaram como estudante, em algum momento da vida, professor ou professora e que mencionaram experiências vivenciadas em ambientes escolares.
    Todos os comentários analisados demonstraram que as obras audiovisuais possuem um forte potencial educativo e transformador, seja ao despertar ou reativar memórias, seja ao motivar a empatia ou identificação, ou ainda por proporcionar uma reflexão acerca da identidade de gênero e a necessidade de se combater a violência e a LGBTFobia nas escolas. Com base nesses dados, o trabalho discute, por fim, como os dispositivos de controle apresentados por grupos ultraconservadores e por políticos da extrema-direita brasileira podem ser compreendidos como mecanismos que limitam o uso de filmes LGBTQ+, por meio da censura explícita ou pela indução à autocensura.

Bibliografia

    CARREIRA, Denise. Tempos terríveis: Memória e produção de resistências no governo Bolsonaro. In: CARREIRA, Denise. LOPES, Bárbara (orgs.). Gênero e educação: ofensivas reacionárias, resistências democráticas e anúncios pelo direito à educação. São Paulo: Ação Educativa, 2022.
    DEPOIS da Tempestade: a LGBTfobia na escola. Direção: Bruno Nomura. Paraná, 2018. vídeo (24 min). Disponível em: Acesso em diversas datas.
    RUSSO, Vito. The celluloid closet: Homosexuality in movies. New York: Harper & Row, 1981.
    RICH, B. Ruby. New Queer Cinema: Versão da diretora. In: MURARI, Lucas; NAGIME, Mateus (orgs.). New Queer Cinema: cinema, sexualidade e política. São Paulo: Caixa Econômica Federal, 2015. p. 18-29
    SE essa escola fosse minha. Direção: Fellipe Marcelino e Letícia Leotti. Brasília: UnB, 2017. 1 vídeo (35 min). Disponível em: . Acesso em diversas datas.