Ficha do Proponente
Proponente
- Victor Gabriel Xavier da Silva (UFBA)
Minicurrículo
- Mestrando em Comunicação pelo Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Cultura Contemporâneas da Universidade Federal da Bahia (PÓSCOM-UFBA). Graduado em Jornalismo pela Universidade Federal de Alagoas (UFAL). Integra o Grupo de Pesquisa em Interações, Tecnologias Digitais e Sociedade (GITS), o Laboratório de Estudos em Tecnologia e Sociedade (LETS) e o Estopim – Laboratório de Tecnopolítica, Comunicação e Subjetividade.
Coautor
- Yuri Gabriel Peixoto Melo (UFAL)
Ficha do Trabalho
Título
- “Strange Days” e a experiência imagética tecnomediada
Eixo Temático
- ET 2 – INTERMIDIALIDADES, TECNOLOGIAS E MATERIALIDADES FÍLMICAS E EPISTÊMICAS DO AUDIOVISUAL
Resumo
- Em Strange Days (1995), dispositivos tecnológicos permitem o consumo de experiências sensoriais alheias, transformando vivências em mercadoria. Partindo dessa premissa, o trabalho discute a cultura digital e a imagem como infraestrutura da sociabilidade contemporânea. O foco é analisar como o filme tensiona a centralidade da imagem como mediadora e indutora de experiências e a necessidade por imagens confeccionadas sob demanda para suprir uma lógica mercantil.
Resumo expandido
- A cultura digital contemporânea nos inseriu em um mundo expandido que articula dimensões virtuais e materiais. Neste ecossistema, as Tecnologias da Informação e Comunicação (TICs) são incorporadas como infraestruturas mediadoras da sociabilidade, instaurando novas possibilidades nos campos de experiência existencial e cognitiva (Ribeiro; Silva, 2012).
Nesse ambiente tecnomediado, a imagem tem papel central na sociedade. Assim, artefatos imagéticos podem se referir a qualquer produto da economia que influencia a forma como as pessoas pensam e sentem, “isto é, que estabeleçam com eles uma relação de caráter fetichista — de modo a subordiná-los cada vez mais profundamente à lógica do capital e a transformá-los objetivamente em espectadores passivos” (Costa, 2020, p. 163).
Nesse sentido, Costa (2020) explica que, para Debord, o sucesso da dominação exercida pelo capitalismo moderno se ancora na capacidade desse sistema na produção e reprodução industrial de objetos de fetiche voltados ao consumo das massas.
É nessa lógica que, segundo Debord (2003, p. 9), o espetáculo “não é um conjunto de imagens, mas uma relação social entre pessoas, mediatizada por imagens”. Devido à arquitetura das mídias sociais, isso faz emergir uma cultura midiática voyeurista.
No filme Strange Days (1995), dirigido por Kathryn Bigelow, imagens gravadas — e muitas vezes orquestradas — são transmitidas e sentidas através de um dispositivo que se conecta ao córtex cerebral, chamado “SQUID” (Superconducting Quantum Interfering Device). Essas imagens são objetos de contrabando-voyeur dentro do filme e são lidas em discos que são traficados, afinal eles contêm experiências sensoriais que permitem ao outro ser e ter coisas que ele nem é e muito menos as têm.
E, diferente dessas imagens confeccionadas sob demanda para os tecno-tarados dentro do longa, não precisam existir questionamentos para as imagens naturalmente produzidas, como a que Mace Mason tem ao assistir seu filho brincar com fogos através de uma janela. Essa cena, através de uma blocagem e um enquadramento muito bem dirigido, mostra Mace (atriz) de um lado do quadro — assistindo seu filho brincar — e, do outro, Lenny Nero (ator), tendo a sua experiência de uma forma totalmente sintética, usando o aparelho que lhe transmite as imagens enquanto constrói sensações e experiências sensoriais simuladas.
A diferença entre as duas imagens — que estão sendo sentidas ao mesmo tempo — vai além da contra-efemeridade de uma gravação. Ela diz também sobre a mediatização da conexão social que é construída naturalmente e da que é pré-fabricada, simulada e tecnomediada.
Se a discrepância entre o poder da micro imagem pura sendo vista por Mace na janela não escancara o poder dela, basta perceber a dilatação entre os fogos no céu e os fogos na mão do menino. O pesadelo óptico que Lenny vê em seu capacete é macro e hiperestimulado, como os fogos lançados no céu um dia antes da virada do século. Na mão do garoto, e num quadro muito mais fechado — com menos ambição —, são fogos pequenos, mas potentes na imagem não sintética de um filho que está sendo observado pela mãe num momento de alegria. Imagem essa, que não possui valor mercantil dentro do filme.
Dessa forma, utilizando o universo fílmico de “Strange Days” como objeto interpretativo, o presente trabalho propõe-se a discutir o consumo imagético da sociedade articulada por redes de hiperconectividade. O foco é analisar como o filme tensiona a centralidade da imagem como mediadora e indutora de experiências sociais contemporâneas e a necessidade por imagens confeccionadas sob demanda para suprir uma lógica mercantil.
Bibliografia
- COSTA, I. J. A. Guy Debord e o caráter fetichista da imagem na sociedade do espetáculo. In: SILVA, F. G. P. da et al. (org.). Pilares da Filosofia: estudos acerca da ética, política, linguagem, conhecimento e ensino de filosofia. 1. ed. Porto Alegre: Editora Fi, 2020. v. 1, p. 159-169.
DEBORD, G. A sociedade do espetáculo. Tradução de Railton Sousa Guedes. São Paulo: eBooksBrasil.com, 2003.
RIBEIRO, J. C.; SILVA, T. Self, Self-Presentation, and the Use of Social Applications in Digital Environments. In: Rocci Luppicini. (Org.). Handbook of Research on Technoself: Identity in a Technological Society. 1. ed. Hershey: IGI Global, 2012. v. 1, p. 439-455.