Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Juliana Rodrigues Pereira (UFPR)

Minicurrículo

    Doutoranda em História pela Universidade Federal do Paraná e mestra pela mesma instituição (2018). Autora do livro A Aventura: Notas Sobre o Estilo de Michelangelo Antonioni.

Ficha do Trabalho

Título

    Nanni Moretti e o PCI: duas maneiras de filmar uma crise

Resumo

    Em Palombella rossa (1989) e La cosa (1990), Nanni Moretti aborda uma crise sem precedentes do Partido Comunista Italiano. No primeiro, uma ficção, o protagonista Michele torna-se a alegoria de um partido que perdeu sua memória e sua identidade. No segundo, Moretti registra uma série de debates entre militantes sobre o futuro do PCI. A proposta deste trabalho é investigar semelhanças e diferenças entre esses dois gestos cinematográficos do realizador: o olhar que imagina e o que testemunha.

Resumo expandido

    Em um intervalo de poucos meses, Nanni Moretti realiza dois filmes que abordam uma crise sem precedentes do Partido Comunista Italiano (PCI), Palombella rossa (1989) e La cosa (1990). No primeiro, uma ficção, o protagonista Michele torna-se a alegoria de um partido que perdeu sua memória e sua identidade. No segundo, o realizador sai de cena para fazer o registro documental de uma série de reuniões em que militantes do PCI compartilham sentimentos, memórias e propostas para o futuro do partido. O objetivo deste trabalho é, portanto, investigar semelhanças e diferenças entre esses dois gestos cinematográficos de Moretti: o olhar que imagina e o que testemunha.

    Em Palombella rossa, Moretti retoma seu personagem alter ego, Michele Apicella, agora um jogador de polo aquático que desenvolve amnésia depois de um acidente de trânsito. É dentro e fora de uma piscina onde sua equipe disputa uma partida interminável que Michele é confrontado por personagens que representam diferentes forças da política italiana — dissidentes comunistas, um democrata cristão, um sindicalista, a imprensa. Flashbacks da infância, da juventude militante e de sua participação em um debate na televisão ajudam a restaurar a memória: Michele é um comunista.

    A crise de identidade do protagonista antecipa e espelha a do PCI. Palombella rossa foi lançado em setembro de 1989, poucas semanas antes da queda do Muro de Berlim e do anúncio do então secretário-geral do PCI, Achille Occhetto, de que o partido passaria por um processo de transformação que incluía a mudança de nome, porém sem especificar qual ele seria ou quando ocorreria (Ginsborg, 2003).

    Exibido na televisão em março de 1990, o média-metragem La cosa é o registro de parte das discussões que ocorreram nas seções do PCI por toda a Itália após a fala de Occhetto. Moretti acompanha oito delas, realizadas entre 22 de novembro e 19 de dezembro de 1989, conforme indicado nas cartelas vermelhas que localizam as reuniões. É nesses encontros, definidos por Moretti como de uma “autoconsciência em público”, que militantes compartilham suas visões sobre o passado e o futuro do partido, ora enquadrados sozinhos na imagem, ora com ouvintes ao redor, que reagem positiva ou negativamente, aplaudem ou mantêm conversas paralelas. Em momento algum os militantes são identificados por nome, profissão ou posição no partido. Moretti definiu La cosa como um documentário que representava sua vontade de ser testemunha direta da história: “Tudo o que eu queria era estar ali: ver com meus olhos, com a minha câmera. Para não ter que ver aquelas imagens apenas na televisão” (Gili, 2006, p. 29).

    Os dois filmes podem ser pensados como obras complementares. Se em Palombella rossa a crise é imaginada e antecipada pelo cinema, em La cosa ela é captada e preservada como documento histórico. Como afirma o crítico Alberto Crespi, no primeiro filme Moretti conseguiu individualizar a crise coletiva vista em La cosa. “Se Palombella rossa colocou diante de nós, militantes do PCI, um espelho deformante, La cosa éramos nós. Sem filtros” (Crespi, 2023, p. 102).

Bibliografia

    BRUNETTA, Gian Piero. Guida alla storia del cinema italiano – 1905-2003. Torino: Einaudi, 2014.
    CRESPI, Alberto. “Pre-social, pre-Twitter, pre-tutto: ritorno alla politica che fu”. Bianco e Nero. Roma: Edizioni del Centro Sperimentale di Cinematografia, 2023. Ano 84, n. 606, maio-ago. de 2023.
    FABRIS, Mariarosaria. “Il sol dell’avvenire”. A terra é redonda, 25 maio 2024. Disponível em: .
    GILI, Jean A. Nanni Moretti. Roma: Gremese Editore, 2006.
    GINSBORG, Paul. Italy and Its Discontents. Family, Civil Society, State 1980-2001. Londres: Palgrave Macmillan, 2003.