Ficha do Proponente
Proponente
- Leonardo Alvares Vidigal (UFMG)
Minicurrículo
- Leonardo Vidigal é professor associado no curso de graduação de Cinema de Animação e Artes Digitais e no Programa de Pós-Graduação em Artes, linha de pesquisa Cinema, da Escola de Belas Artes da UFMG. Publicou artigos em diversos periódicos acadêmicos nacionais e internacionais, como Pós, Significação, Contemporânea, Music Research Annual, Interactions e Volume!.
Ficha do Trabalho
Título
- Terminologia sonora e documentários sobre sound-systems: em busca de uma análise mais precisa
Resumo
- Como novas terminologias e as categorias para se estudar o som no audiovisual podem ser adaptadas na análise de filmes documentais? E se estes filmes documentais possuem o som, amplificado por equipamentos móveis que constroem a cultura sound-system em todo o mundo, como tema principal? Os documentários têm especificidades que merecem uma terminologia própria quando o constitutivo sonoro é analisado. Como chegar a uma análise mais precisa? Esta comunicação faz parte de um trabalho em progresso.
Resumo expandido
- Em uma comunicação anterior neste seminário, apresentei um trabalho sobre questões de terminologia na análise sonora de filmes. Os autores da segunda edição do livro “Hearing the Movies”, James Buhler e David Neumeyer, definiram diversas categorias para caracterizar a relação do som ouvido pelos personagens em um filme (diegético) e aqueles que apenas os espectadores ouvem (não-diegético), estabelecendo diversos regimes de diegeticidade. As categorias são: diegético em quadro (o normal para falas, diálogos, ruídos e música diegética, com a imagem dos elementos que emitem os sons), diegético fora de quadro (som adjacentes, sem indicação de fonte), não-diegético em quadro (sons imaginados ou rememorados por alguém em cena, mas que não ouvidos por outras personagens) e não-diegético fora de quadro (música ou narração não ouvidos pelos personagens).
Tais categorias depois foram expandidas e comentadas por outros autores, como descrevi em outra comunicação, mas para o objetivo desta proposta parecem suficientes na busca por uma terminologia mais adequada para tratar de filmes não-ficcionais, como os filmes de sound systems tratados na última comunicação deste autor, o que está sendo buscado aqui.
Como vimos e ouvimos em comunicações anteriores, os filmes de sound-systems – que tratam dessas equipes de som altamente amplificado ocupando espaços públicos e estabelecendo uma dominância sônica sobre um local – muitas vezes extirpam o som direto que sai das caixas de som (o que, grosso modo, seria chamado de diegético em filmes de ficção) e o substituem por um som não-diegético (que, no caso de documentários, chamo de “músicas pós-sincronizadas”) das músicas que eles produzem. Isso acontece porque o som gravado nas sessões de sound-systems frequentemente fica distorcido demais.
Estas duas categorias, “som direto” e “som pós-sincronizado” serão usadas como ponto de partida para a elaboração de terminologias que possam analisar de forma mais adequada documentários de modo geral e filmes documentais de sound system de forma particular. Iremos também usar os filmes analisados na comunicação anterior, “Más Fuerte” e “Word, Sound and Power”, como exemplos do que poderiam ser essas categorias, depois expandindo para outros filmes.
Por exemplo, quando tratamos do filme “Más Fuerte”, sobre os sound-systems embutidos em carros nos EUA e na República Dominicana, ressaltamos o segmento (equivalente à “cena” de um filme ficcional) em que é mostrada uma mulher sentada junto a um desses carros com alto-falantes sendo descabelada pelo som ensurdecedor. A música que saía da caixa foi substituída por outra sem distorção, como se aquela música pós-sincronizada tivesse criado o efeito de descabelamento. Em um filme ficcional, poderíamos descrever que os alto-falantes do carro estão dentro do quadro e pertencem ao mundo da história, tornando aceitável aquela música como diegética também. Portanto, o som pareceria pertencer à categoria do diegético em quadro, mixado como um som mais agudo. Porém, em se tratando de um filme documental, fica audivelmente límpido que não se trata de som direto. Nesse caso, poderíamos pensar em uma categoria como “pós-sincronizado em quadro”.
No caso do filme “Word, Sound and Power”, o sound system colombiano é mostrado à liderar passeatas em Bogotá. As músicas que sonorizam este segmento também eram pós-sincronizadas, mas na hora em que o DJ tira a agulha do toca-discos para o MC fazer um discurso, o som volta a ser direto. Isso poderia ser associado a uma passagem do som não-diegético fora de quadro para o som diegético em quadro em um filme ficcional, ou ainda associado à teoria da “brecha fantástica” entre sons diegéticos e não-diegéticos, quando esta brecha estabelece uma zona de ambiguidade entre os dois regimes de diegeticidade.
Que terminologia seria adequada para descrever estes casos em filmes documentais? Como ela ajudaria a chegar a uma análise mais precisa destes e outros filmes?
Bibliografia
- BUHLER, James; NEUMEYER, David. Hearing the movies: music and sound in film history. New York: Oxford University Press, 2015.
HENRIQUES. J. A Dominância Sônica e a Festa de Sound System de Reggae. Revista Eco-Pós, 23 (1), 44–80. 2020.
STILLWELL, Robyn. J. “The Fantastical Gap between Diegetic and Nondiegetic”. In: GOLDMARK, Daniel; KRAMER, Lawrence e LEPPERT, Richard (orgs.), Beyond the Soundtrack: Representing Music in Cinema. Berkeley: University of California Press. 2007.
VIDIGAL, Leonardo. “Cinema de som, faixas de frequência e arranjos audiovisuais nos filmes de sound system”. In: XXIII Encontro SOCINE, Anais de Textos Completos, São Paulo: SOCINE, 2020.
VIDIGAL, Leonardo. “Ponto de escuta e regimes da diegese: ambiguidades na percepção sonora”. In: XXIV Encontro SOCINE, Anais de Textos Completos, São Paulo: SOCINE, 2024.