Ficha do Proponente
Proponente
- Isis Ferreira Gasparini (ECA USP)
Minicurrículo
- Isis Gasparini é artista e pesquisadora nas áreas de Dança e Artes Visuais. Seu trabalho investiga a noção de coreografia na Dança, no Cinema e em instalações concebidas para espaços expositivos. Atualmente, é doutoranda em Artes Cênicas na Universidade de São Paulo. Mestra em Artes pela ECA-USP [2017], é também Bacharel em Artes Plásticas [2011] e Especialista em Fotografia [2013]. Orienta projetos artísticos, ministra aulas e participa de performances e exposições.
Ficha do Trabalho
Título
- Coreografar a guerra: gesto militar e montagem como coreografia no cinema narrativo
Seminário
- Edição e Montagem audiovisual: reflexões, articulações e experiências entre telas e além das telas
Resumo
- A comunicação propõe a noção de montagem coreográfica no cinema narrativo, entendendo a montagem como operação que organiza gestos e movimentos. A partir de filmes de guerra, com análise de Beau Travail e The Young Men, identificam-se características como ritmo, repetição, variação e organização espacial. Nesses filmes, gestos militares tornam-se material coreográfico, tensionando gestos de combate como dança e modulando a experiência perceptiva do espectador.
Resumo expandido
- Esta comunicação investiga de que modo o cinema narrativo de guerra pode operar segundo uma lógica coreográfica, articulando gesto militar e montagem como dispositivos de organização do movimento. A partir da análise de Beau Travail, de Claire Denis (1999), e The Young Men, dirigido por Michael Nunn (2006), o estudo propõe compreender a guerra não apenas como tema, mas sobretudo como operação coreográfica que organiza gestos e movimentos. Parte-se da hipótese de que a montagem não se limita a estruturar a narrativa, atuando como instância coreográfica que produz ritmos, intensidades e relações entre corpos, configurando o que iremos propor como “montagem coreográfica”.
Nessas obras, gestos militares treinados — repetidos, sincronizados e rigidamente estruturados — passam a operar como sequências coreografadas: marchas, exercícios e formações coletivas são encadeados com precisão rítmica, produzindo padrões espaciais e temporais que reconfiguram gestos de combate enquanto dança. Em Beau Travail, a dança infiltra-se no dispositivo cinematográfico sem rompê-lo explicitamente, produzindo deslocamentos sensíveis que tensionam a frontalidade, a linearidade e a centralidade do olhar. Já em The Young Men, a guerra constitui o próprio terreno coreográfico, no qual corpos de bailarinos elaboram a narrativa por meio de movimentos que oscilam entre combate e dança. Em ambos os casos, aquilo que escapa à linguagem — da ordem do indizível — projeta-se no corpo, tornando-se gesto.
O estudo dialoga com as contribuições de Giuliana Bruno e Térésa Faucon, cujas abordagens permitem expandir a noção de coreografia para além do campo da dança e olhar para o cinema. Em Bruno, o olhar é compreendido como gesto corporal e afetivo, implicando o espectador em percursos espaciais e sensíveis; já Faucon propõe o cinema como arte coreográfica, articulada pelas dimensões do gesto, do enquadramento e da montagem. Nesse sentido, a montagem é pensada não apenas como justaposição de planos, mas como organização dinâmica de relações entre corpos, espaços e temporalidades, aproximando-se da noção de montagem nas artes cênicas enquanto composição de elementos heterogêneos em uma unidade performativa.
O estudo ancora-se nas contribuições de Philippe Dubois e Karen Pearlman para pensar a montagem para além de sua função narrativa. Em Dubois, a montagem instaura relações de pensamento entre imagens, operando como espaço de articulação e produção de sentido; em Pearlman, ela se configura como organização rítmica capaz de mobilizar o corpo do espectador, inscrevendo o ritmo como dimensão sensível da experiência fílmica. Nesse sentido, a montagem é compreendida como operação que articula corpos, espaços e temporalidades, aproximando-se de uma lógica coreográfica.
Tal perspectiva aproxima-se da noção de montagem nas artes cênicas enquanto composição de elementos heterogêneos em uma unidade performativa. Nesse campo, a montagem não se refere ao corte ou à justaposição, mas à organização de texto, corpos, gestos e espacialidades em uma estrutura comum. Mais próxima da mise-en-scène do que da edição, trata-se menos de encadear fragmentos do que de produzir sentido pela co-presença e pela relação entre elementos.
Ao deslocar a análise para o campo da gestualidade e da montagem, o estudo mobiliza ainda os conceitos de coreopolítica e coreopolícia (André Lepecki) para pensar o corpo como espaço em disputa, evidenciando que não há neutralidade nos modos de organizar o movimento. Propõe-se, assim, uma leitura do cinema de guerra como prática coreográfica que envolve simultaneamente corpos, câmera e espectador, configurando o espaço fílmico como espaço performativo.
Bibliografia
- BELLOUR, R. La querelle des dispositifs. Paris: POL, 2012.
DUBOIS, P. Cinema, vídeo, Godard. Cosac Naify, São Paulo: 2004.
LEPECKI, André. O corpo colonizado. In: Gesto – Revista do Centro Coreográfico, n. 2, jul.
Rio de Janeiro, 2003.
LEPECKI, André. Coreopolítica, Coreopolícia. In: Revista Ilha, v.13, n.1, p.41 – 60, jan/jun. Florianópolis: UFSC, 2012.
FAUCON, T. Penser et experimenter le montage. Paris: PSN, 2009.
FAUCON, Térésa. Théorie du montage: énergie des images . Paris: Armand Colin, 2017.
FAUCON, Térésa; SAN MARTIN, Caroline (org.). Chorégraphier le film: gestes, cadre, montage. Paris: Éditions Mimésis, 2020.
PEARLMAN, K. Cutting Rhythms. Melbourne: Taylor&Francis, 2009.
TOMASOVIC, Dick. Kino-Tanz: l’art chorégraphique au cinéma. Paris: PUF, 2010.