Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Matheus Camargo Jardim (USP)

Minicurrículo

    Matheus Camargo Jardim é graduado em Letras (Português-Inglês) pela USP (2020) e mestre pelo Programa de Pós-Graduação em Estudos Linguísticos e Literários em Inglês da mesma instituição (2023). Doutorando na área de Estudos de Cultura, sob orientação de Maria Elisa Cevasco e financiado pela FAPESP, pesquisa os romances de Ben Lerner. Seus interesses incluem literatura e cinema norte-americanos, ficção seriada e crítica cultural materialista.

Ficha do Trabalho

Título

    O apocalipse bem abastecido: a persistência da forma-mercadoria na série Pluribus (Gilligan, 2025)

Eixo Temático

    ET 1 – CINEMA, CORPO E SEUS ATRAVESSAMENTOS ESTÉTICOS E POLÍTICOS

Resumo

    Analisamos Pluribus (Gilligan, 2025) como formalização da persistência da mercadoria para além do colapso civilizatório. A partir de duas sequências centrais, a leitura imanente faz a série revelar suas próprias contradições, tornando legível aquilo que a continuidade histórica encobre: a divisão entre quem deseja e quem trabalha subsiste intacta ao fim do mundo, mostrando que sua base não estava fixada nas instituições, mas nas próprias relações sociais.

Resumo expandido

    No terceiro episódio de Pluribus (Gilligan, 2025), chamado “Granada”, a colmeia — consciência coletiva alienígena que absorveu a humanidade — reconstitui o supermercado favorito de Carol Sturka, protagonista e última estadunidense imune à integração. Caminhões chegam em fila e mercadorias tomam prateleiras com precisão coreográfica sob uma trilha sonora alegre. Longe de marcar qualquer ruptura com a ordem anterior, a composição formal encena a mais acabada realização da lógica econômica de nosso tempo — e é precisamente o colapso civilizatório que o revela: a forma-mercadoria sobreviveu à dissolução das instituições que pareciam constituí-la, o que demonstra que seu fundamento não estava nelas, mas na própria divisão entre quem deseja e quem trabalha para satisfazer o desejo. Carol enuncia a demanda; a humanidade assimilada executa. Entre o querer e o ter, o único elo visível é a entrega — a colmeia como mediação que se dissolve no instante em que cumpre sua função. A separação entre o trabalho que produz e a mercadoria que aparece, que Marx (2013) descreveu como o núcleo do fetichismo, perfaz-se aqui em sua forma terminal: o próprio ocultamento é automatizado. O sistema eliminou o conflito de classe, o salário, a greve; manteve intacta, contudo, a divisão entre quem deseja e quem trabalha para que o desejo seja invisivelmente satisfeito — tal como a mercadoria se apresenta ao consumidor das plataformas de entrega contemporâneas, sem vestígio do trabalho real que a tornou disponível.
    O sexto episódio percorre a cadeia no sentido inverso. Num armazém refrigerado, Carol descobre o que a prateleira encobria: cabeças e corpos humanos embalados a vácuo, trituradores de carne e caldeirões industriais. Programada para venerar a vida como sagrada e interditada de abater animais, a colmeia racionaliza o canibalismo de cadáveres como recurso desesperado diante do imperativo calórico de 7,3 bilhões de corpos hospedados. É essa contradição que Adorno e Horkheimer (1985) desdobraram como núcleo do esclarecimento: a razão instrumental, ao levar sua lógica até a coerência sem concessões, não fracassa na barbárie, mas a produz como conclusão necessária do mesmo movimento que prometia coibi-la. E a estrutura de classe também se repõe: os treze imunes são poupados do consumo de HDP (Proteína Derivada de Humanos), enquanto os 7,3 bilhões assimilados o ingerem sem saber.
    O que seria um dilema ético fundamental é apresentado a Carol no invólucro ideológico de um vídeo corporativo narrado por um John Cena sorridente. HDP é o eufemismo que a indústria cultural empresta ao canibalismo: o mesmo gesto que fazia sumir o trabalho da prateleira agora faz sumir o corpo do rótulo. O eufemismo não é apenas recurso retórico — é o dispositivo pelo qual o episódio 6 reencena, em escala biopolítica, a neutralização formal do Sprouts. É essa recorrência que o conceito de mapeamento cognitivo, em Fredric Jameson (1996), permite nomear: a capacidade de situar-se na totalidade social foi, nos dois casos, sistematicamente bloqueada. O sistema conhece Carol por inteiro — do conteúdo de sua geladeira à intensidade de seus afetos; mas Carol não conhece o sistema. Diante de sua objeção ética à ingestão de restos humanos, a colmeia oferece um privilégio de consumo — converte, assim, a resistência em diferenciação de produto.
    Nessa senda, Pluribus convoca o apocalipse como instrumento de cognição: ao propor a ruptura como hipótese extrema, torna visível aquilo que a continuidade encobre. A forma-mercadoria não reside apenas nos caminhões e nas prateleiras, mas na relação entre quem pede e quem entrega — relação que, ao sobreviver intacta ao fim do mundo, formaliza a distopia em estrutura já em curso no presente.

Bibliografia

    ADORNO, Theodor W.; HORKHEIMER, Max. Dialética do esclarecimento. Trad. Guido Antônio de Almeida. Rio de Janeiro: Zahar, 1985.
    JAMESON, Fredric. Pós-modernismo: a lógica cultural do capitalismo tardio. Trad. Maria Elisa Cevasco. São Paulo: Ática, 1996.
    MARX, Karl. O Capital: crítica da economia política. Livro I. Trad. Rubens Enderle. São Paulo: Boitempo, 2013.
    ZUBOFF, Shoshana. A era do capitalismo de vigilância: a luta por um futuro humano na nova fronteira do poder. Tradução de George Schlesinger. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2021.