Ficha do Proponente
Proponente
- Matheus Camargo Jardim (USP)
Minicurrículo
- Matheus Camargo Jardim é graduado em Letras (Português-Inglês) pela USP (2020) e mestre pelo Programa de Pós-Graduação em Estudos Linguísticos e Literários em Inglês da mesma instituição (2023). Doutorando na área de Estudos de Cultura, sob orientação de Maria Elisa Cevasco e financiado pela FAPESP, pesquisa os romances de Ben Lerner. Seus interesses incluem literatura e cinema norte-americanos, ficção seriada e crítica cultural materialista.
Ficha do Trabalho
Título
- O apocalipse bem abastecido: a persistência da forma-mercadoria na série Pluribus (Gilligan, 2025)
Eixo Temático
- ET 1 – CINEMA, CORPO E SEUS ATRAVESSAMENTOS ESTÉTICOS E POLÍTICOS
Resumo
- Analisamos Pluribus (Gilligan, 2025) como formalização da persistência da mercadoria para além do colapso civilizatório. A partir de duas sequências centrais, a leitura imanente faz a série revelar suas próprias contradições, tornando legível aquilo que a continuidade histórica encobre: a divisão entre quem deseja e quem trabalha subsiste intacta ao fim do mundo, mostrando que sua base não estava fixada nas instituições, mas nas próprias relações sociais.
Resumo expandido
- No terceiro episódio de Pluribus (Gilligan, 2025), chamado “Granada”, a colmeia — consciência coletiva alienígena que absorveu a humanidade — reconstitui o supermercado favorito de Carol Sturka, protagonista e última estadunidense imune à integração. Caminhões chegam em fila e mercadorias tomam prateleiras com precisão coreográfica sob uma trilha sonora alegre. Longe de marcar qualquer ruptura com a ordem anterior, a composição formal encena a mais acabada realização da lógica econômica de nosso tempo — e é precisamente o colapso civilizatório que o revela: a forma-mercadoria sobreviveu à dissolução das instituições que pareciam constituí-la, o que demonstra que seu fundamento não estava nelas, mas na própria divisão entre quem deseja e quem trabalha para satisfazer o desejo. Carol enuncia a demanda; a humanidade assimilada executa. Entre o querer e o ter, o único elo visível é a entrega — a colmeia como mediação que se dissolve no instante em que cumpre sua função. A separação entre o trabalho que produz e a mercadoria que aparece, que Marx (2013) descreveu como o núcleo do fetichismo, perfaz-se aqui em sua forma terminal: o próprio ocultamento é automatizado. O sistema eliminou o conflito de classe, o salário, a greve; manteve intacta, contudo, a divisão entre quem deseja e quem trabalha para que o desejo seja invisivelmente satisfeito — tal como a mercadoria se apresenta ao consumidor das plataformas de entrega contemporâneas, sem vestígio do trabalho real que a tornou disponível.
O sexto episódio percorre a cadeia no sentido inverso. Num armazém refrigerado, Carol descobre o que a prateleira encobria: cabeças e corpos humanos embalados a vácuo, trituradores de carne e caldeirões industriais. Programada para venerar a vida como sagrada e interditada de abater animais, a colmeia racionaliza o canibalismo de cadáveres como recurso desesperado diante do imperativo calórico de 7,3 bilhões de corpos hospedados. É essa contradição que Adorno e Horkheimer (1985) desdobraram como núcleo do esclarecimento: a razão instrumental, ao levar sua lógica até a coerência sem concessões, não fracassa na barbárie, mas a produz como conclusão necessária do mesmo movimento que prometia coibi-la. E a estrutura de classe também se repõe: os treze imunes são poupados do consumo de HDP (Proteína Derivada de Humanos), enquanto os 7,3 bilhões assimilados o ingerem sem saber.
O que seria um dilema ético fundamental é apresentado a Carol no invólucro ideológico de um vídeo corporativo narrado por um John Cena sorridente. HDP é o eufemismo que a indústria cultural empresta ao canibalismo: o mesmo gesto que fazia sumir o trabalho da prateleira agora faz sumir o corpo do rótulo. O eufemismo não é apenas recurso retórico — é o dispositivo pelo qual o episódio 6 reencena, em escala biopolítica, a neutralização formal do Sprouts. É essa recorrência que o conceito de mapeamento cognitivo, em Fredric Jameson (1996), permite nomear: a capacidade de situar-se na totalidade social foi, nos dois casos, sistematicamente bloqueada. O sistema conhece Carol por inteiro — do conteúdo de sua geladeira à intensidade de seus afetos; mas Carol não conhece o sistema. Diante de sua objeção ética à ingestão de restos humanos, a colmeia oferece um privilégio de consumo — converte, assim, a resistência em diferenciação de produto.
Nessa senda, Pluribus convoca o apocalipse como instrumento de cognição: ao propor a ruptura como hipótese extrema, torna visível aquilo que a continuidade encobre. A forma-mercadoria não reside apenas nos caminhões e nas prateleiras, mas na relação entre quem pede e quem entrega — relação que, ao sobreviver intacta ao fim do mundo, formaliza a distopia em estrutura já em curso no presente.
Bibliografia
- ADORNO, Theodor W.; HORKHEIMER, Max. Dialética do esclarecimento. Trad. Guido Antônio de Almeida. Rio de Janeiro: Zahar, 1985.
JAMESON, Fredric. Pós-modernismo: a lógica cultural do capitalismo tardio. Trad. Maria Elisa Cevasco. São Paulo: Ática, 1996.
MARX, Karl. O Capital: crítica da economia política. Livro I. Trad. Rubens Enderle. São Paulo: Boitempo, 2013.
ZUBOFF, Shoshana. A era do capitalismo de vigilância: a luta por um futuro humano na nova fronteira do poder. Tradução de George Schlesinger. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2021.