Ficha do Proponente
Proponente
- Vinícius Andrade de Oliveira (Unicap)
Minicurrículo
- Doutor em Comunicação Social pela UFMG, coordenador geral e de pesquisa do projeto Acervo do Vídeo Popular em Pernambuco (AVPP) e colaborador do projeto de formação e experimentação audiovisual Coquevídeo. Mestre pela UFPE também em Comunicação Social, é professor-visitante da Pós-Graduação em Narrativas Contemporâneas da Fotografia e do Audiovisual da Universidade Católica de Pernambuco (Unicap).
Coautores
- Maria da Conceição Fontoura de Paula Cardoso (UFPE)
Paula Sophia Branco de Lima (CPDOC FGV)
Ficha do Trabalho
Título
- Pedagogias do Movimento do Vídeo Popular em Pernambuco
Seminário
- Arquivo e contra-arquivo: práticas, métodos e análises de imagens
Resumo
- Nesta comunicação, compartilhamos reflexões construídas no Acervo do Vídeo Popular em Pernambuco, projeto de preservação da produção audiovisual realizada por movimentos sociais nos anos 1980 e 1890. A partir do vídeo Agentes de Saúde – Reforma Sanitária (TV Viva, Etapas, 1987), discutimos a relação entre a pedagogia dos movimentos e a invenção de pedagogias próprias às imagens e refletimos como, enquanto arquivos portadores de saberes, eles nos auxiliam a pensar o presente e imaginar futuros.
Resumo expandido
- Nossa proposta se volta ao fenômeno histórico que ficou conhecido como Vídeo Popular a partir da experiência de pesquisa e de preservação de coleções audiovisuais do projeto Acervo do Vídeo Popular em Pernambuco. O chamado Vídeo Popular compreende um conjunto descentralizado de produções que tiveram seu marco inicial com a incorporação da tecnologia do vídeo ao trabalho de organizações, coletivos e movimentos populares engajados na luta por direitos a partir dos anos 1980, no singular contexto da reabertura democrática brasileira. Essa produção audiovisual incidiu e participou de processos decisivos de nossa história recente, como a formulação da constituição de 1988, ficando conhecida nacionalmente como Movimento do Vídeo Popular (Santoro, 1989).
Em Pernambuco, coletivos como a TV Viva, o SOS Corpo – Instituto Feminista para a Democracia e a Equipe Técnica de Assessoria, Pesquisa e Ação Social (Etapas), da qual surgiria a Etapas Vídeo, se destacaram nesse cenário (Bezerra, Figuerôa, 2016) por terem compreendido a indissociabilidade entre as disputas sociais e as disputas pelas imagens, combinando ações de educação popular, comunicação audiovisual e agitação cultural. Ao adotarem o recurso do vídeo como dispositivo de apoio às lutas em curso, não apenas registraram sua própria atuação como também fizeram de grupos parceiros importantes protagonistas nas imagens (como a Comissão de Saúde de Casa Amarela, o Centro das Mulheres do Cabo e o Movimento da Mulher Trabalhadora Rural do Nordeste), contribuindo, por exemplo, com o fortalecimento de associações de moradores, grupos de mulheres e clubes de mães e com a organização de categorias de trabalhadores urbanos e rurais.
Consideramos que essas imagens compõem um importante arquivo audiovisual de experiências de organização e participação popular, muitas vezes ignorada em nossa história social e cultural, que envolve formas variadas de encontro, reunião, debate, cooperação, articulação, mobilização, dissenso, confronto, entre outras. Nesta apresentação, iremos discutir essa produção audiovisual a partir de duas questões centrais: (1) Quais as relações possíveis entre o que podemos chamar de pedagogia de atuação dos movimentos (seus modos de organização e estratégias de ação) e a invenção de pedagogias próprias às imagens, pelas quais cada grupo leva adiante os saberes e fazeres forjados nas lutas? (2) Como, enquanto arquivos portadores de saberes, essas imagens auxiliam a problematizar nosso presente histórico e imaginar futuros na continuidade das lutas sociais?
Para responder a essas reflexões, partiremos da análise do vídeo Agentes de Saúde – Reforma Sanitária (1987), realizado pela TV Viva em parceria com a Etapas, indicando, aqui e ali, relações com materiais pertencentes aos acervos de outras organizações pesquisadas no âmbito do projeto Acervo do Vídeo Popular em Pernambuco. Do ponto de vista metodológico, levaremos em conta os recursos expressivos que os vídeos engendram e, ao mesmo tempo, atravessamentos históricos relevantes, ligados aos métodos de trabalho coletivo utilizados, aos arranjos e desenhos de produção adotados, aos processos de realização vivenciados, aos atos de engajamento constituídos na gênese de algumas imagens e as relações mútuas entre esses aspectos (OLIVEIRA, 2019). Assim, atentamos para os modos como se relacionam processos fílmicos e processos de luta, em intersecção com processos históricos mais abrangentes, buscando lançar luz também sobre contingências, limites e possibilidades que estiveram em jogo na produção desses arquivos.
Bibliografia
- BRANCO, Sophia; CARDOSO, Maria; OLIVEIRA, Vinícius Andrade de (orgs.). Histórias do vídeo popular em Pernambuco. 1. ed. Recife, PE: Caio Azevedo Monte, 2025.
BRANCO, Sophia. Outras histórias do feminismo brasileiro contemporâneo: a emergência de um campo político tecido entre divergências, diferenças e desigualdades. Tese de Doutorado (Sociologia). Universidade Federal de Pernambuco e Universitat de Barcelona, 2026.
FIGUEIRÔA, Alexandre; BEZERRA, Cláudio. O documentário em Pernambuco no século XX. Recife: FASA, 2016.
OLIVEIRA, Vinícius Andrade de. Intervir na História: Modos de participação das imagens documentais em lutas urbanas no Brasil. Tese (Doutorado em Comunicação Social) – Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas, Universidade do Federal de Minas Gerais, Belo
Horizonte, 2019.
SANTORO, Luiz Fernando. A imagem nas mãos: o vídeo popular no Brasil. Summus Editorial, 1989.