Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Gilmar Adolfo Hermes (UFPel)

Minicurrículo

    Professor do Curso de Bacharelado em Jornalismo da Universidade Federal de Pelotas (UFPel). Mestre em História e Crítica da Arte (UFRGS), doutor em Comunicação (Unisinos), com estágio pós-doutoral na Universidade de Rhode Island (EUA). Atualmente cursa estágio pós-doutoral na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Suas pesquisas voltam-se para os temas do jornalismo, semiótica, estética, artes e cinema brasileiro.

Ficha do Trabalho

Título

    Uma leitura semiótica e estética do filme “A Melhor Mãe do Mundo”

Mesa

    A análise cinematográfica e audiovisual hoje: objetos, histórias, epistemologias

Resumo

    Nesta pesquisa, são feitas análises fílmicas de filmes brasileiros, buscando problematizar as suas qualidades estéticas. Através da teoria semiótica de Charles Sanders Peirce, identificam-se os signos com caráter mais estético que levem à sugestão de novas ideias. No exemplo do filme “A Melhor Mãe do Mundo” (2025), a elaboração audiovisual sugere, a partir de possíveis reflexões, a necessidade de uma outra concepção da feminilidade nos âmbitos da cultura e da sociedade.

Resumo expandido

    Na primeira etapa de estudos da pesquisa “A produção de identidade entre a estética dos filmes brasileiros e sua abordagem jornalística”, são feitas análises fílmicas com a ênfase dos aspectos estéticos de títulos selecionados entre os anos de 2018 e 2025. Sob essa perspectiva, a teoria semiótica de Peirce (1993) demonstra pertinência à medida que, no âmbito fenomenológico e com sua gramática especulativa, oferece uma classificação semiótica. Os signos correspondentes à categoria fenomenológica da Primeiridade – os quali-signos, os sin-signos icônicos e os ícones, são os que mais correspondem ao que nesta pesquisa se entende como valores estéticos, sobretudo pelo fato de traduzirem a sensibilidade perceptiva. É importante observar que Peirce, no entanto, definiu a estética como uma ciência normativa, de forma a pensar em como agimos em relação aos signos e como eles nos afetam. Nesta perspectiva, a estética volta-se para o admirável, no sentido de chegar ao summum bonum, o objetivo maior visado por toda a forma de conhecimento, levando em conta também aspectos éticos e lógicos. A estética, embora se caracterize por tratar da sensibilidade, seria um guia tanto para a ética como para a lógica. Aí, soma-se o conceito de Musement, através do qual Peirce (2025) demonstra inspiração no “impulso lúdico”, de Friedrich Schiller (2013), o qual propõe a estética como o exercício da liberdade na contraposição dos impulsos “sensível” e “formal”. Para Peirce, esses dois aspectos distintos correspondem à Primeiridade (que dá lugar à percepção e as possibilidades das existências) e a Terceiridade (que pressupõe as regras, as leis, concepções generalizadas, os conceitos teóricos e os hábitos), sendo que a Secundidade (os fenômenos dados como existentes) seria um ponto intermediário. Para o semioticista, tudo o que está estabelecido no âmbito da Terceiridade pode ser colocado em questão tanto pelos fenômenos observados como fatos (Secundidade), como também pelas hipóteses e sensibilidades próprias do Musement, em que o ser humano exercita mais plenamente a sua liberdade de propor novas ideias, como é próprio das produções artísticas. Tomando-se como um exemplo de análise o filme “A Melhor Mãe do Mundo” (2025), identifica-se vários planos e sequências quanto às diversas formas de mostrar os personagens, espaços e objetos, e como essas visibilidades podem colocar em questão ideias generalizadas e como elas podem vir a ser passíveis de reflexão e crítica. A representação sensível da figura de uma mulher e mãe, de seus dois filhos, de seu marido, da cidade de São Paulo e dos diversos lugares sociais de seus habitantes é um primeiro ponto de problematização crítica. Imagens relacionadas ao cotidiano do trabalho na coleta de lixo, designam a fragilidade daqueles que cumprem uma função essencial em relação ao consumo excessivo e, ao mesmo tempo, vivem em uma condição limítrofe, com a fome e a falta de moradia. Mas é a condição feminina, o significado de ser mulher, que vai ser mais problematizado nas representações ao longo do filme. Uma das cenas emblemáticas é quando, após empreender uma fuga com seus dois filhos da violência doméstica, Gal reencontra o marido na casa de parentes e cede à sua sedução e à pressão dos familiares. Diante do espelho do banheiro, ela cobre as cicatrizes com a maquiagem e passa batom nos lábios como se, assim, estivesse recuperando a dignidade. Tendo em conta essa e outras sequências, a elaboração audiovisual desta produção sugere a possibilidade e a necessidade de uma outra concepção da feminilidade nos âmbitos da cultura e da sociedade, tendo em conta os sin-signos icônicos. Com imagens realistas, mas envoltas em uma fantasia própria do gênero aventura, a narrativa reflete sobre o cotidiano das mulheres e mães trabalhadoras. O filme não impõe uma hipótese sobre a condição feminina hoje, mas sensibiliza para a necessidade de repensar as ideias disseminadas na sociedade.

Bibliografia

    A MELHOR Mãe do Mundo. Direção: Anna Muylaert. São Paulo: Biônica Filmes, 2025.
    AUMONT, Jacques; MARIE, Michel. A Análise do Filme. Lisboa: Texto & Grafia, 2004.
    DONDIS, Donis A. Sintaxe da Linguagem Visual. São Paulo: Martins Fontes, 1997.
    PEIRCE, Charles Sanders. A Neglected Argument for the Reality of God (1908) [e-book]. Disponível em: [https://www.amazon.com/Neglected-Argument-Reality-God-ebook/dp/B0CQP9K6GD]. Acesso em: 6 jun. 2025.
    _____. Semiótica e Filosofia: Textos Escolhidos de Charles Sanders Peirce. São Paulo: Cultrix, 1993.
    SANTAELLA, Lucia. Matrizes da Linguagem e Pensamento. São Paulo: Iluminuras, 2001.
    _____. Estética de Platão a Peirce. São Paulo: Experimento, 1994.
    SCHILLER, F. A Educação Estética do Homem: numa série de cartas. São Paulo: Iluminuras, 2013.