Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Ana Paula Bianconcini Anjos (UnDF)

Minicurrículo

    Professora de Letras-Inglês na Universidade do Distrito Federal (UnDF). É graduada e licenciada em Letras Português e Inglês pela Universidade de São Paulo (USP) e em Jornalismo pela Faculdade Cásper Líbero. Possui mestrado e doutorado em Estudos Linguísticos e Literários em Inglês pela USP. Foi contemplada com bolsas CAPES, CNPq e Fulbright. Atuou como Visiting Scholar nas Universidades de Columbia e Princeton nos Estados Unidos.

Ficha do Trabalho

Título

    Cinema comparado: “A Aventura” e “Sirat” como representações do fim do mundo europeu

Resumo

    Trata-se de uma análise comparativa sobre a representação cinematográfica da Europa, com ênfase nos filmes “A Aventura” (1960), de Michelangelo Antonioni, e “Sirat” (2025), de Oliver Laxe, considerando o contexto das guerras contemporâneas e as estratégias de apagamento do colonialismo europeu no cinema.

Resumo expandido

    A busca pela filha perdida é um tema recorrente no cinema e na literatura europeia. Em “A Aventura” (1960), de Michelangelo Antonioni, a busca por uma jovem desaparecida é encenada. No livro “A Filha Perdida” (2005), de Elena Ferrante, essa procura, transformada em filme homônimo (2021), dirigido por Maggie Gyllenhaal, vira uma obsessão. No caso do cineasta italiano, essa investigação sem fim por um corpo feminino ausente revela um cenário de profunda melancolia, no qual os personagens parecem vagar à deriva, pelo mar e pela cidade, em um verão europeu exclusivo para os ricos e seus amigos ensimesmados, narcísicos e sem propósito. A elite europeia devaneia pelo mar Mediterrâneo à procura de ilhas paradisíacas desabitadas no intuito de desfrutar da paisagem natural, em um cenário idílico, exuberante; não fosse pela fuga da filha de um diplomata, aquela que, em um piscar de olhos, desaparece em meio a uma paisagem rochosa e deserta no sul da Itália. A partir deste momento, os personagens tentam procurar Anna (Lea Massari), mas ela parece não querer ser encontrada. Em certa medida, o mesmo destino ocorre com Mar, a personagem desaparecida de “Sirat”, filha de Luís (Sergi López), irmã de Esteban (Bruno Arjona), jovem espanhola que, supostamente, fugiu de seu país e de sua família para uma aventura, buscando escapar de uma rave para outra no deserto, sem deixar rastros. Enquanto Anna some durante um passeio em uma ilha europeia em alto-mar, a personagem espanhola Mar, que carrega a referência marítima que separa os dois continentes em seu próprio nome, é procurada no deserto africano. No tempo de “Sirat” (2025), a ideia de um verão europeu no sul da Itália nem sequer é cogitada, ela não satisfaz os cidadãos europeus embrutecidos. A rave deve ser travada em território estrangeiro, inóspito, difícil e perigoso, em meio a um deserto inespecífico, desconhecido, paisagem reveladora da soberba europeia que pode invadir com trailers o deserto do Sahara, sem nada temer, desconhecendo até mesmo um campo minado. Tão melancólicos e perdidos como os personagens de Antonioni, os de Oliver Laxe carregam ainda o peso de um continente em frangalhos, tal qual os seus próprios corpos. Os europeus de Laxe não são representados como os colonialistas de outrora, nem como os aristocratas e burgueses de Antonioni a desfilar de terno e gravata, maiôs, chapéus e outros modelitos da alta costura europeia em uma ilha despovoada no mar Mediterrâneo; ao contrário, os protagonistas de “Sirat” são sujos e maltratados, compondo uma espécie de reality show de sobrevivência no deserto africano. Por que Luís busca Mar, mesmo sabendo que ela não quer ser encontrada? Qual é o sentido de um bando de outsiders europeus buscarem outra rave em meio ao Sahel, mesmo após tantas mortes? Não obstante, o pacto da branquitude europeia se mantém em uma jornada suicida, avessa ao contexto local. A alienação dos personagens chega ao limite de desligarem o rádio, única forma de comunicação externa, para não ouvirem sobre a chegada de uma Terceira Guerra Mundial. Exaustos e mutilados, os cidadãos europeus de 2025 elegem deliberadamente a alienação total ao mundo externo que a todo o momento insiste em despontar, interrompendo a música eletrônica, com uma bomba. As associações com as guerras contemporâneas europeias estão em toda a parte em “Sirat”, nos corpos mutilados dos soldados veteranos, nos traumas de guerra, no vício em opióides, na sensação de abandono à sua própria sorte, na escolha de um campo minado para dançar. Em meio ao deserto, a Europa sucumbe. “Sirat” constrói uma metáfora da Europa contemporânea, trazendo de volta, em imagem cinematográfica contundente, o notável poema de Percy B. Shelley, “Ozymandias” (1818), no qual “Nada mais resta. / Ao redor da decadência / daquela ruína colossal, vasta e nua, / As areias solitárias e uniformes estendem-se à distância.”

Bibliografia

    ANDERSON, Perry. The New Old World. New York: Verso, 2009.
    BENJAMIN, Walter. On Hashish. Cambridge, MA: Harvard University Press, 2006.
    BRECHT, Bertolt. Brecht on Film and Radio. London: Methuen, 2000.
    BUCK-MORSS, Susan. The Dialectics of Seeing: Walter Benjamin and the Arcades Project. Cambridge, MA: The MIT Press, 1990.
    COOK, David A. Lost Illusions: American Cinema in the Shadow of Watergate and Vietnam, 1970-1979. History of the American Cinema; v.9. California: University of California Press, 2000.
    EISENSTEIN, Sergei. A forma do filme; trad. Teresa Ottoni. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2002.
    KHALIDI, Rashid. The Iron Cage: the story of the Palestinian struggle for statehood. Boston: Beacon Press, 2006.
    SHELLEY, Percy. OZYMANDIAS. In: Shelley: Poems; selected by Isabel Quigly. New York: Penguin Books, 1956.
    XAVIER, Ismail (org.). A Experiência do Cinema: antologia. Rio de Janeiro: Edições Graal: Embrafilmes, 1983.