Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Marcela Aguiar Borela (IFB)

Minicurrículo

    Formada em Comunicação Social (UFG, 2006), especialista em História Cultural: poder, imaginário e identidades (UFG, 2008), mestre em História (UFG, 2010) e doutora em Estudos Contemporâneos das Artes (UFF, 2026). É professora dos Cursos Técnicos e da Graduação Tecnológica em Produção Audiovisual do Instituto Federal de Brasília – Campus Recanto das Emas. Como cineasta fez diversos curtas, o média Mudernage (2010) e os longas Taego Ãwa (2016), Mascarados (2020), Atravessa Minha Carne (2025).

Ficha do Trabalho

Título

    Arquivo Ãwa – Arquivo Arma

Resumo

    Taego Ãwa (doc, 2016), instaura o “Arquivo Ãwa: Arquivo Arma” e este trabalho por isso investiga a devolução das imagens aos Ãwa do Araguaia e a ativação política deste arquivo. A pesquisa analisa fitas VHS e acervos reunidos desde 2003, incluindo registros do contato forçado de 1973 e da chegada à Fazenda Canuanã. Faz-se o que o filme não fez: examina-s ausências, disputas de memória e critérios de indianidade, em meio à luta pela demarcação da Terra Indígena Taego Ãwa.

Resumo expandido

    ARQUIVO ÃWA: ARQUIVO ARMA
    Em 2016 lançamos Taego Ãwa (documentário, 75 minutos). Desde então, Henrique Borela (co-diretor) e eu, os Ãwa do Araguaia, a antropóloga Patrícia de Mendonça Rodrigues, passamos a aprofundar nossas conversas sobre a história dos arquivos presentes na obra, além do que nunca deixamos de encontrar mais arquivos. As fitas VHS encontradas há mais de vinte anos continuavam a agir, como força latente capaz de atravessar o tempo? Se Taego Ãwa, o filme – conta a história do povo Ãwa, a partir de sua própria perspectiva, reinterpretando o contato com os brancos em termos míticos e cosmológicos, é sobretudo por meio da devolução das imagens que o passado é reencontrado, encenado e reinventado.
    A devolução das imagens aos Ãwa causa o arquivo: é o gesto que instaura o Arquivo Ãwa – Arquivo Arma como afirmação de um direito à imagem que ultrapassa o regime autoral da propriedade e se constitui como prática coletiva de existência. Revela-se ao mesmo tempo a potência política e a insuficiência estrutural do arquivo, abrindo espaço para a fabulação como procedimento de nomeação. O filme não procura recuperar a imagem perdida do contato forçado sofrido pelos Ãwa, mas constrói a imagem dessa busca.
    Este trabalho, contudo, faz o que o filme não fez: articula uma análise do vasto e fragmentado arquivo fotográfico e audiovisual existente, examinando, entre outras imagens, registros da chegada dos Ãwa à Fazenda Canuanã (TO) ao lado do sertanista Apoena Meirelles. As imagens persistem como rastros, desencadeando processos que permanecem abertos.
    As imagens faltam, faltaram e continuam faltando no percurso de reparação das violências sofridas pelos Ãwa desde o contato. Mas aqui parte-se do desejo por uma imagem impossível – ausente, censurada ou deliberadamente apagada. Reconstrói-se a trajetória de resistência do povo Avá-Canoeiro do Araguaia na reivindicação da demarcação de seu território ancestral, último refúgio após séculos de massacres, perseguições sistemáticas e deslocamentos forçados.
    Se, desde 2006 desenvolvemos uma extensa investigação, reunindo materiais provenientes de acervos públicos e privados (vídeos institucionais, documentários clássicos, fotografias pessoais, reportagens televisivas, documentos administrativos e fragmentos audiovisuais contemporâneos), nosso objetivo inicial consistia em localizar registros produzidos especificamente no contato forçado de 1973. Consultamos acervos em Brasília, Goiânia, Rio de Janeiro e São Paulo, percurso que revelou não apenas a dispersão material dos registros, mas também os regimes de visibilidade e poder que os atravessam. Reativar essas imagens não significou preenchê-las de sentido, mas escutá-las em sua incompletude.
    O arquivo surge como abertura para uma comunicação com as formas próprias de ver, narrar e lembrar dos Ãwa, considerando conflitos históricos decisivos: o contato conduzido pela Funai em 1973, a transferência compulsória para a aldeia Javaé – seus antigos inimigos – e a longa experiência de violência, subalternização e desterro.
    De modo que o arquivo presente no filme Taego Ãwa não é o arquivo negado; ao contrário, as imagens que poderiam ser mobilizadas contra os Ãwa foram subtraídas pela imaginação e pela insurgência indígena, bem como pela nossa revolta compartilhada. Permanecem guardadas para que nunca mais sejam utilizadas como instrumentos de destruição dos mundos ãwa.
    Nota-se no arquivo questionamentos acerca da indianidade dos Ãwa do Araguaia e revela-se que lhes foi exigida uma suposta pureza étnica, enquanto determinados setores da antropologia e do indigenismo colocavam em dúvida se os filhos e netos de Kaukamy Ãwa – filha de Tutawa (líder histórico do grupo, in memoriam) –, nascidos após o contato e oriundos de relações interétnicas, poderiam ser reconhecidos como Ãwa. Apesar disso, todos os filhos, netos e bisnetos de Kaukamy se autodenominam Ãwa e reivindicam a Terra Indígena Taego Ãwa, atualmente em processo de demarcação.

Bibliografia

    AZOULAY, Ariella Aïsha. História potencial: desaprender o imperialismo. São Paulo: Ubu Editora, 2024.
    ÃWA, Kamutaja Silva. Em Memória de Tutawa: a luta do povo ãwa. SUR, Revista Internacional de Direitos Humanos, v. 18, n. 31, p. 131-142, 2021. Disponível em: https://sur.conectas.org/wp-content/uploads/2022/05/10-sur-31-por-kamutaja-silva-awa.pdf. Acesso em: 25 jul. 2024
    ÃWA, Kamutaja; RODRIGUES, Patrícia de Mendonça. Os Avá‑Canoeiro isolados do Médio Araguaia. Trabalho apresentado na 33ª Reunião Brasileira de Antropologia, 03 set. 2022. Disponível em: https://www.abant.org.br/files/1661076210_ARQUIVO_0cba5603a97cd4f68f785117e71e5f80.pdf. Acesso em: 13 out. 2025
    BELICO, Ewerton. Nada do que foi dito poderá ser repetido da mesma maneira. In: CATÁLOGO 20 Forumdoc BH. Belo Horizonte: Associação Filmes de Quintal, 2016.
    BORELA; Marcela Aguiar; BORELA, Henrique Aguiar. Taego Ãwa. Documentário 75′ coprodução Barroca filmes e F64 filmes, 2016. Disponível: https://youtu.be/2oM8aRWSgGY.