Ficha do Proponente
Proponente
- Ester Figueredo Noleto (UEG)
Minicurrículo
- Ester tem seus interesses focados em linguagem cinematográfica e significação da imagem. Além disso, pauta sua trajetória acadêmica na experimentação. Já atuou como monitora acadêmica nas dependências da universidade onde lecionou algumas aulas com supervisão docente. Participou como extensionista do laboratório “Entre-imagens” integrando o projeto “De Cantos a Encantos em direção à Chapada dos Veadeiros – segunda edição” e atualmente se encontra como monitora no mesmo laboratório.
Ficha do Trabalho
Título
- Estratégias de montagem como dispositivo de construção discursiva e persuasão política.
Eixo Temático
- ET 4 – HISTÓRIA E POLÍTICA NO CINEMA E AUDIOVISUAL DAS AMÉRICAS LATINAS E DOS BRASIS
Resumo
- O estudo investiga como a montagem atua como dispositivo de construção discursiva e persuasão política nos documentários: No intenso agora (2017), Fico te devendo uma carta sobre o Brasil (2019) e Cinema Novo (2016). Parte-se da hipótese de que a justaposição de imagens, aliada à voz-over, produz novos sentidos, organiza discursos políticos e cria efeitos de adesão no espectador.
Resumo expandido
- Propomos, neste estudo, uma reflexão sobre a montagem como dispositivo de construção discursiva e mecanismo de persuasão política no documentário brasileiro contemporâneo. Nos debruçamos sobre três documentários: No intenso agora (João Moreira Salles, 2017), Fico te devendo uma carta sobre o Brasil (Carol Benjamin, 2019) e Cinema Novo (Eryk Rocha, 2016). Buscamos compreender o papel da montagem na organização do discurso fílmico, investigando como a justaposição de imagens, a articulação entre arquivo e narração e o uso da voz-over produzem sentidos políticos e persuasão.
Questionamos de que modo a montagem, enquanto estratégia formal e discursiva, atua na construção de perspectivas políticas nessas obras. Uma vez que percebemos nos três filmes o uso expressivo de imagens de arquivo, a associação entre memória individual e história coletiva e procedimentos que orientam a leitura do espectador. Assim, analisamos como os elementos visuais e sonoros são organizados para produzir sentido e mobilizar adesão.
Partimos da hipótese de que a montagem não apenas organiza os materiais fílmicos, mas transforma o sentido das imagens, fazendo com que cada plano seja afetado pelo anterior e pelo seguinte. A justaposição imprime novas significações aos fragmentos, inserindo-os no campo discursivo. Logo que, conforme Amiel, a montagem discursiva “obriga cada uma destas realidades a assumir um sentido novo…” (AMIEL, 2007, p. 49), estruturando uma argumentação audiovisual capaz de expressar posições políticas.
A pesquisa compreende o documentário como narrativa que estabelece asserções sobre o mundo. A partir de Didi-Huberman (2017), entende-se que as imagens não são neutras, pois carregam posicionamentos e podem operar criticamente quando articuladas pela montagem. Os filmes analisados são compreendidos entendidos como obras que constroem discursos a partir da organização dos fragmentos visuais e sonoros, aproximando-se de uma dimensão persuasiva e, em certa medida, propagandística, entendida como divulgação de ideias, crenças e perspectivas.
Destaca-se também o papel da voz-over na construção de sentido. Ela orienta a interpretação das imagens, estabelece relação com o espectador e reforça posicionamentos. Como aponta Bruzzi (2000), a voz-over fornece informações não disponíveis diretamente na diegese.
Metodologicamente, a pesquisa se apoia na análise fílmica, com ênfase na decupagem de cenas. A partir da decomposição de planos, enquadramentos e sons, busca-se compreender como a montagem articula sentidos políticos. Segundo Mombelli e Tomaim (2014), a análise fílmica implica decompor e reconstituir o filme para alcançar sua interpretação.
Propõe-se um estudo de caráter estilístico-temático para examinar os recursos formais mobilizados pela montagem e seu papel enquanto operador discursivo e de persuasão política. Inicialmente, investigaremos como a associação de imagens reconfigura significados, com destaque para a relação entre arquivo e voz-over. Em seguida, analisaremos ritmo, contrastes e organização narrativa como estratégias argumentativas, bem como a articulação entre memória individual e história coletiva.
Nos dedicaremos então à análise de “No intenso agora”, observando como a montagem organiza relações entre memória e experiência coletiva por meio da articulação entre imagens de arquivo e narração. Em seguida, examinaremos “Fico te devendo uma carta sobre o Brasil”, compreendendo como a associação entre imagens, ritmo, contraste e construção argumentativa produzem efeitos de persuasão. Por fim, analisaremos “Cinema Novo”, considerando a reorganização de imagens previamente carregadas de significado.
Conclui-se que a montagem, ao articular imagens, sons e voz, ultrapassa sua função técnica e atua como força discursiva e política, capaz de reorganizar os sentidos e orientar a leitura do espectador. O estudo busca, assim, evidenciar o papel central da montagem na construção de discursos no documentário contemporâneo brasileiro.
Bibliografia
- AMIEL, Vincent. Estética da montagem. Lisboa: Texto & Grafia, 2007.
BRUZZI, Stella. New Documentary: A Critical Introduction. New York: Taylor & Francis, 2000.
DIDI-HUBERMAN, Georges. Quando as imagens tomam posição: o olho da história, I. Tradução de Cleonice Paes Barreto Mourão. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2017.
MOMBELLI, Neli Fabiane; TOMAIM, Cássio dos Santos. Análise fílmica de documentários: apontamentos metodológicos. Lumina – Revista do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Federal de Juiz de Fora, Juiz de Fora, v. 8, n. 2, dez. 2014.