Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Eduardo Bordinhon de Moraes (UNICAMP)

Minicurrículo

    Eduardo Bordinhon é doutorando no PPG em Multimeios (IA-Unicamp), com estágio de pesquisa na Université de Strasbourg (FR). É membro do GEAs-Unicamp e docente no curso de Cinema e Audiovisual da Universidade Católica de Santos (Unisantos). É Mestre em Artes da Cena e bacharel em Artes Cênicas pela Unicamp.

Ficha do Trabalho

Título

    Corpo e determinação: o jogo neonaturalista no cinema brasileiro dos anos 2000

Resumo

    A comunicação propõe a noção de jogo neonaturalista para analisar o ator em filmes como Cidade de Deus e Tropa de Elite. Neles, observa-se um jogo atoral que, partindo da verossimilhança, se baseia na centralidade do corpo, na implicação emocional do ator e na naturalização dos comportamentos das personagens. Argumenta-se que esse regime intensifica a impressão de realidade ao mesmo tempo em que reduz a mediação crítica, ao converter processos sociais em determinações naturais.

Resumo expandido

    A comunicação propõe a noção de jogo atoral neonaturalista para analisar uma linha de força preponderante no cinema brasileiro dos anos 2000. A partir da consolidação da verossimilhança como qualidade hegemônica do jogo atoral, observamos uma variação que radicaliza alguns de seus princípios, dando centralidade ao corpo por meio de uma implicação física e, por vezes, emocional do ator. Tal jogo se alia a uma preparação de ensaios que deixa de lado o enfoque no texto e se baseia em exercícios corporais e improvisação na busca que uma reação espontânea em cena. Ao mesmo tempo que evoca o corpo como central, o jogo neonaturalista constrói uma personagem ancorada em uma visão pessimista e determinista do comportamento humano. Para nossa argumentação, adotamos a ideia da verossimilhança como uma convenção cultural que organiza a representação e constrói junto a outros elementos da mise-en-scène o regime de transparência do cinema narrativo. O jogo neonaturalista intensifica o efeito de real ao deslocar o foco das relações sociais para a interioridade da personagem. Nesse contexto, o comportamento é frequentemente apresentado como dado natural, seja pela ausência de explicitação de suas causas, seja por sua atribuição a um meio igualmente naturalizado. Para a comunicação, lançamos mão da análise de filmes como Cidade de Deus (Fernando Meirelles & Kátia Lund, 2002) e Tropa de Elite (José Padilha, 2007). Tratam-se de obras que empregam um jogo atoral baseado em uma gestualidade crível e técnica, com ênfase nas manifestações fisiológicas e psicológicas, como suor, tiques e exaustão, traços presentes no naturalismo cinematográfico, mas que aparecem reelaboradas a partir de uma visão mórbida e pessimista. Verificaremos também como Cidade de Deus, por meio do enquadramento e da montagem, reduz a autonomia expressiva do ator, fazendo parecer que a câmera apenas capta uma essência natural e violenta das personagens. A partir dessas premissas, verificamos que o jogo neonaturalista produz um efeito ambíguo: ao intensificar a impressão de realidade, ele reforça a adesão do espectador à personagem. Entretanto, ao naturalizar os comportamentos e reduzir sua perspectiva sócio-histórica, tende-se ao esvaziamento da dimensão crítica do jogo atoral e da representação como um todo. Dessa forma, conflitos sociais complexos, como a violência nas favelas brasileiras, são apresentados como manifestações de uma natureza individual ou como expressão de um meio tomado como dado e imutável. Com o conceito de neonaturalismo buscamos, então, delimitar e analisar um regime de jogo atoral que, ainda que filiado a uma tradição verossímil e naturalista, apresenta particularidades no contexto brasileiro contemporâneo e que auxiliam na compreensão das representações da realidade a partir do ator.

Bibliografia

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