Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Ícaro Ricarte de Lima (UFPE)

Minicurrículo

    Mestrando em Comunicação pelo PPGCOM/UFPE e graduado em Rádio, TV e Internet pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Tem interesses de pesquisa em representação no audiovisual, cinema de horror e migrações transnacionais.

Ficha do Trabalho

Título

    Notas sobre alteridade e representação de migrantes no cinema de horror contemporâneo

Eixo Temático

    ET 3 – FABULAÇÕES, REALISMOS E EXPERIMENTAÇÕES ESTÉTICAS E NARRATIVAS NO CINEMA MUNDIAL

Resumo

    O presente trabalho examina um subgênero do Cinema de Horror ainda em consolidação que desloca o foco narrativo para os migrantes, enfatizando experiências de vulnerabilidade social e conflitos institucionais causados pelo fenômeno migratório. A partir da análise de obras recentes, a pesquisa identifica eixos temáticos recorrentes e os articula a aportes teóricos sobre representação, alteridade, hospitalidade e agência.

Resumo expandido

    O cinema de horror consolidou na última década uma vertente voltada para a experiência migrante como eixo central da narrativa, divergindo das tradicionais dinâmicas de alteridade radical que historicamente marcaram o gênero. O “outro” monstruoso que ameaçava corpos e territórios, frequentemente apresentado como o estrangeiro invasor, agora dá lugar ao protagonismo do migrante, com o horror sendo deslocado para as estruturas de trauma, rejeição e despossessão inerentes ao processo migratório. Este trabalho não pretende esgotar o tema, mas sim cartografar as principais linhas de força da produção cinematográfica inserida nesse subgênero, articulando suas representações com conceitos teóricos capazes de iluminar as questões suscitadas.

    Entre os exemplos paradigmáticos, destacam-se os filmes Savageland (Phil Guidry, Simon Herbert e David Whelan, 2015), que narra um massacre numa cidade do Arizona onde o único sobrevivente é um migrante indocumentado que logo se torna o principal suspeito; Atlantique (Mati Diop, 2019), onde uma jovem é aterrorizada por fantasmas de trabalhadores que deixaram seu país em busca de melhores condições de vida; O Que Ficou Para Trás (Remi Weekes, 2020), que segue um casal de refugiados sul-sudaneses na Inglaterra assombrado tanto por espíritos quanto por um sistema de imigração hostil; Ninguém Sai Vivo (Santiago Menghini, 2021), em que uma imigrante mexicana indocumentada encontra uma pensão que é também um local de horror arquetípico; A Babá (Nikyatu Jusu, 2022), sobre uma imigrante senegalesa em Nova York cujo sonho americano se desfaz em visões violentas; Lenda Maldita (Andrew Mecham e Matthew Whedon, 2022), que transcorre na fronteira EUA-México durante os “dias sem nome” do calendário asteca, mesclando tráfico humano com terror sobrenatural; e Family Home (Antonios Arapostathis, 2023), sobre refugiadas sírias confinadas em uma “casa de horrores” por uma seita.

    Wallenbrock e Jacob (2021) postulam que o cinema pode dar “voz aos invisíveis”, mas também corre o risco de contribuir para uma visão do migrante como vítima desprovida de agência – ou seja, a capacidade de agir autonomamente, fazer escolhas e influenciar/transformar as estruturas sociais (Giddens, 2003). Alice Haylett Bryan (2021) aplica as noções de hospitalidade e hostilidade presentes no pensamento de Jacques Derrida para pensar o horror contemporâneo, argumentando que esses filmes representam a ansiedade diante da virada política à direita da sociedade atual, onde o tensionamento entre tolerância e hospitalidade é maior do que o medo do “outro” migrante. Já Orquídea Morales, ao discutir o horror latino, propõe que as fronteiras genéricas do horror podem ser expandidas para incluir filmes que examinem a violência nas fronteiras. Para Morales (2018), o horror latino é intrinsecamente transnacional, e a resposta visceral de espectadores latinos às imagens de terror está ligada à experiência vivida da migração, sugerindo que a recepção dessas obras é tão importante quanto seu conteúdo.

    Portanto, conclui-se que nos últimos 15 anos, o horror sobre migração estabeleceu suas bases, porém ainda trata-se de um campo em expansão, tanto cinematográfica quanto academicamente, marcado por produções que circulam de festivais independentes a plataformas de streaming. Os principais temas que atravessam essas obras incluem a casa como espaço de dupla violência (externa e interna); a espectralidade como figuração da culpa do sobrevivente; a crise de hospitalidade nacional diante da migração em massa; o corpo migrante como espaço de inscrição de violências múltiplas; e o questionamento das fronteiras – territoriais, mas também simbólicas – entre “hóspede” e “inimigo”.

Bibliografia

    CARROLL, Nöel. A filosofia do horror ou paradoxos do coração. Campinas: Papirus, 1999.

    GIDDENS, Anthony. A Constituição da Sociedade. São Paulo: Martins Fontes, 2003.

    HALL, Stuart. Cultura e representação. Rio de Janeiro: Ed. PUC-Rio: Apicuri, 2016.

    HAYLETT BRYAN, Alice. Inhospitable landscapes: contemporary French horror cinema, immigration and identity. French Screen Studies, v. 21, n. 3, p. 224-238, 2021.

    MORALES, Orquidea. Border Horror: Genre, Geography, Gender and Death on the US-Mexico Border. 2018. 220f. Tese (Doutorado em Filosofia) – University of Michigan, Ann Arbor, 2018.

    SAYAD, Abdelmalek. A Imigração, ou os paradoxos da alteridade. São Paulo: Edusp, 1998.

    WALLENBROCK, Nicole Beth; JACOB, Frank. Migrants’ Perspectives, Migrants in Perspective: World Cinema. Edimburgo: Edinburgh University Press, 2021.