Ficha do Proponente
Proponente
- Gabriel Filgueira Marinho (UFF)
Minicurrículo
- Professor e documentarista pela Universidade de Brasília – UnB (2008), e mestre em História pela Universidade Federal Fluminense – UFF (2011), atualmente é doutorando pelo PPG-Cine da Universidade Federal Fluminense – UFF. Atuou como diretor, pesquisador de imagens, assistente de direção e produtor executivo em filmes e séries para televisão e cinema. Sua principal área de estudo são as relações entre cinema e História, arquivos e memórias traumáticas
Ficha do Trabalho
Título
- A articulação colaborativa e internacional na pesquisa de “Trilha sonora para um golpe de Estado”
Resumo
- A pesquisa iconográfica envolve a articulação de uma rede de profissionais com expertises diversas, do conhecimento histórico à política dos arquivos. A partir de entrevistas com o diretor e pesquisadores de “Trilha sonora para um golpe de Estado” (2024), identifica-se uma rede internacional colaborativa, na qual cada agente atua a partir de seus próprios circuitos de acesso — institucionais, geográficos e pessoais — potencializando resultados e viabilizando o acesso a arquivos dispersos.
Resumo expandido
- Durante a assembléia geral da ONU de 1960, Nikita Khrushchev fez um duro discurso contra o colonialismo e a interferência dos Estados Unidos e da Bélgica na vida política do Congo. Supostamente foi nesse encontro que o secretário-geral da URSS teria batido os próprios sapatos na bancada – um gesto mundialmente comentado de forma pejorativa. No entanto, 60 depois, quando o diretor Johan Grimonprez desse episódio em filmes ou fotografias, não os encontrou. Inicialmente, investigou bancos de imagens online e, posteriormente, arquivos institucionais ligados ao congresso. Diante da ausência de evidências, passou a considerar que a cena poderia se tratar de uma falsa memória, reconstruída consensualmente (HALBWACHS, 2006).
Mas durante a pesquisa para seu documentário, Grimonprez soube que esse mesmo evento acarretou no encontro informal de três personalidades históricas. O ativista negro Malcolm X teria convidado Fidel Castro e o próprio Khrushchev para visitá-lo no Harlem, após alegações de falta de segurança nos hotéis em que estavam hospedados. Para encontrar tais registros, ele contatou a pesquisadora estadunidense Judy Aley. Inicialmente, ela repetiu o insucesso das buscas anteriores em arquivos institucionais e cinejornais da época. No entanto, ao recorrer aos arquivos do Harlem e ao acervo da família de Malcolm X, encontrou dezenas de registros do encontro.
Esse material foi posteriormente ampliado pela pesquisadora russa Gena Kagermanov, que, por meio de acesso pessoal à família de Khrushchev, incorporou fotografias produzidas tanto por sua equipe quanto pelo próprio líder soviético durante a visita a Nova York.
Com o desenvolvimento do projeto e da pesquisa, o líder cubano se tornou personagem inesperado de seu filme. Por isso, a busca pelo registro do famoso discurso de Fidel Castro, com duração de mais de 4 horas e proferido na mesma assembleia, tornou-se um dos principais objetivos da pesquisa. Contudo, Aley não encontrou registros integrais na Biblioteca do Congresso nem em outros arquivos institucionais. O diretor então acionou Orlando Mora Cabrera, da EICTV, que trabalhava com o acervo dos noticieros cubanos. O pesquisador localizou diversos trechos do discurso, editados em cinejornais como fragmentos voltados à audiência cubana, mas nenhum registro completo.
Quando a busca já parecia esgotada, o brasileiro Pedro Glosser, assistente de edição do filme que passou a atuar como pesquisador informal, encontrou na Cinemateca Brasileira um registro quase integral da fala de Fidel Castro nesse dia.
Esse percurso de pesquisa iconográfica do documentário “Trilha sonora para um golpe de Estado” (2024) exemplifica a construção de uma rede internacional de pesquisadores e instituições de memória que, mobilizados, buscam contornar a dispersão e o agenciamento colonial dos arquivos. Como afirma Achille Mbembe, trata-se de “seguir rastros, juntar fragmentos e destroços, recompor vestígios e participar de um ritual que resulta na ressurreição da vida”.
A partir de entrevistas com o diretor e os pesquisadores envolvidos, este trabalho pretende mapear esse esforço coletivo de prospecção e licenciamento de imagens. Busca-se, em especial, identificar métodos de investigação e o papel das trajetórias individuais e redes de contato pessoais no acesso a registros audiovisuais, tanto em instituições de memória quanto em acervos familiares.
O processo de prospecção descrito parece confirmar a formulação de Jacques Derrida, para quem o Arquivo não constitui um depósito neutro do passado, mas um dispositivo de poder. Um contexto que parece explicar alguns insucessos dessa rede de pesquisadores. Contraditoriamente, são justamente alguns micropoderes desses agentes, acessos econômicos diferenciais e redes de parcerias que parecem explicar como esse grupo acessou registros em diferentes países e suportes midiáticos diferentes.
Bibliografia
- BEIGUELMAN, Giselle. Impulso historiográfico. São Paulo: Peligro Edições, 2019.
BERNARDET, Jean-Claude. A migração de imagens. In: TEIXEIRA, Francisco Ilinaldo (org.). Documentário no Brasil: tradição e transformação. São Paulo: Summus, 2004.
DERRIDA, Jacques. Mal de arquivo: uma impressão freudiana. Tradução de Cláudia de Moraes Rego. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2001.
FORBES, David. Film archives: a decaying visual history. African Research and Documentation, [s.l.], v. 110, p. 37–43, 2009
FOSTER, Hal. An archival impulse. October, Cambridge, v. 110, p. 3–22, 2004.
HALBWACHS, Maurice. A memória coletiva. São Paulo: Centauro, 2006.
MBEMBE, Achille. The power of the archive and its limits. In: HAMILTON, Carolyn et al. (org.). Refiguring the archive. Dordrecht: Springer Netherlands, 2002. p. 19–27.
NORA, Pierre. Between memory and history: les lieux de mémoire. Representations, Berkeley, n. 26, p. 7–24, 1989.