Ficha do Proponente
Proponente
- TAINA XAVIER PEREIRA HUHOLD (ESPM RJ)
Minicurrículo
- Tainá Xavier é doutora em Cinema e Audiovisual pelo PPGCINE UFF, mestre Artes Visuais pela UFRJ e bacharel em Comunicação Social – Cinema pela UFF. É docente no bacharelado em Cinema e Audiovisual da ESPM Rio, onde coordena o Trama – Laboratório Experimental em Direção de Arte e integra o grupo de pesquisa NIDAA – Núcleo de Investigação em Direção de Arte Audiovisual (UFPE). Atua no departamento de arte desde 1996 e assina direção de arte de longas, séries e curtas-metragens. É mãe.
Ficha do Trabalho
Título
- Direção de arte e autenticidade: práticas de escuta e partilha na construção documental de Pasajeras
Seminário
- Estética e Teoria da Direção de Arte Audiovisual
Resumo
- O trabalho discute a direção de arte no documentário a partir do relato de experiência no filme Pasajeras (Fran Rebelatto, 2021), entendendo‑a como prática ética e sensível de mediação entre o mundo vivido e sua construção cinematográfica. Com base no convívio com as atrizes sociais, na pesquisa visual da fronteira Brasil‑Paraguai e nas reflexões de Comolli e Nichols, analisa-se a direção de arte como campo relacional, fundado na escuta, na partilha e na construção da autenticidade.
Resumo expandido
- Historicamente associada ao cinema industrial de ficção (como locus) e ao artifício (como procedimento), a direção de arte, ao ser incorporada a práticas documentais, tensiona noções de verdade e autenticidade e amplia a reflexão sobre os modos de atuação do cinema diante do real e sua representação. Este trabalho propõe discutir, a partir da experiência de realização do filme Pasajeras (Fran Rebelatto, 2021), o lugar da direção de arte no cinema documental como um procedimento técnico‑estético‑sensível e ético, entendido não como instância de controle da cena, mas como prática de mediação entre materialidades do mundo vivido e sua construção cinematográfica.
O processo do filme parte de uma longa convivência da diretora Fran Rebelatto com as atrizes sociais que, graças ao seus trânsitos pela fronteira do Brasil e do Paraguai, recebem a alcunha de “pasajeras”. No que toca à direção de arte, dois eixos fundamentaram a ação. Por um lado, as visitas e encontros com as atrizes sociais nos apresentaram os universos que comporiam as visualidades particulares de cada mulher no filme. Seus hábitos, relações familiares, gostos e preferências deveriam ser norteadores de todo e qualquer gesto necessário às adequações demandadas pelo processo de filmagem. Por outro lado, uma pesquisa iconográfica da região de Ciudad del Este revelou contrastes cromáticos, simulacros e acúmulo de camadas temporais como elementos de um imaginário visual fronteiriço, entendido como documento vivo das culturas e trânsitos que marcam o território. Ao analisar o encontro de tais visualidades, nos pareceu necessária a criação de um cenário neutro no estúdio das entrevistas, como contraponto visual à opulência do território e forma de dar centralidade sensorial e simbólica às imagens das mulheres e os conteúdos de seus depoimentos.
As reflexões de Jean‑Louis Comolli (2008) sobre o documentário como experiência de risco e de encontro com um real que resiste à programação, fundamentaram um processo criativo implicado com o propósito de compartilhar com as atrizes sociais os gestos de intervenção em seus espaços e formas de se apresentarem em cada situação a ser filmada. Se, para o autor, é fundamental que a câmera participe do território dos corpos reais, para a direção de arte, a partilha de escolhas e decisões produzia uma zona comum de ordenamento das materialidades do mundo voltada para a imagem a ser filmada. Essa perspectiva desloca a direção de arte para uma posição relacional, em que escolhas visuais e espaciais emergem do contato com aquelas que têm as vidas filmadas, entendendo-as como as maiores conhecedoras dos universos a serem representados.
As questões éticas discutidas por Bill Nichols (2016) aprofundam esse debate ao enfatizar que o documentário não apenas registra o mundo histórico, mas constrói argumentos e pontos de vista a partir de relações assimétricas entre realizadores, atores sociais e espectadores. Intervir em espaços, objetos e vestuários demanda da direção de arte uma escuta ativa, por um lado, e, por outro, o esclarecimento das atrizes sociais sobre os procedimentos da realização audiovisual, em um processo de troca e construção participativa da representação, que parte da consciência de que tais decisões afetam diretamente a forma como aquelas mulheres seriam representadas e percebidas.
A direção de arte em Pasajeras atuou como mediação entre as necessidades da filmagem e o bem‑estar das mulheres, incorporando seus repertórios, gestos e modos de habitar os espaços como elementos estruturantes da imagem. Tal experiência revela que, quando pensada como prática ética, a direção de arte no documentário pode ser deslocada de um lugar de falseamento (conforme visão do senso comum) e afirmar-se como campo de construção da autenticidade através de afeto, escuta e partilha. Ética e estética se revelam indissociáveis, situando a direção de arte como um espaço privilegiado de reflexão sobre o cinema documentário.
Bibliografia
- COMOLLI, Jean. Sob o risco do real. In: Ver e poder: a inocência perdida: cinema, televisão, ficção, documentário. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2008. p. 169 – 178.
NICHOLS, Bill. Por que as questões éticas são fundamentais no documentário? In: Introdução ao documentário. Campinas, SP: Papirus: 2016.p. 61-83.
REBELATTO, Fran (Dir.). Pasajeras. Curitiba: 2021. (Longa‑metragem documentário).