Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Alexandre Wahrhaftig ((sem vínculo))

Minicurrículo

    Alexandre Wahrhaftig é doutor em Meios e Processos Audiovisuais pela Universidade de São Paulo, com pesquisa sobre poéticas de repetição no cinema brasileiro. É também cineasta e montador. Dirigiu o longa-metragem “Panorama”, os curtas “E” e “O Castelo”. Recentemente concluiu a montagem do filme “Dragões”.

Ficha do Trabalho

Título

    De Hitler em Paris ao YouTube de Bolsonaro: o olhar analítico em remontagens de arquivos do poder

Resumo

    A partir da comparação entre “Displaced Person” (1981), de Daniel Eisenberg, e “Dragões” (2026), de Miguel Antunes Ramos, exploramos as formas pelas quais o olhar analítico se constrói na remontagem de arquivos audiovisuais do poder no cinema de “found footage”. Apesar das evidentes diferenças de contexto e suporte, em ambos os filmes a montagem trabalha de forma analítica (via repetições, ampliações, desacelerações), sob a tensão entre o rigor demonstrativo e a liberdade interpretativa.

Resumo expandido

    Não é incomum que arquivos audiovisuais do poder (produzidos por governos, estados, políticos), de diferentes períodos históricos, sirvam de material para filmes críticos a esses mesmos poderes. Muitos documentários de montagem usam tais arquivos de forma “ilustrativa”, para usarmos a classificação de Nicole Brenez (2002), subordinando-os a um fio condutor narrativo que independe das próprias imagens e sons utilizados. Há, no entanto, os filmes de “found footage”, que, ao reciclar tais arquivos, autonomizam as imagens, realizam intervenções sobre elas e propõem novas formas de montagem (Brenez, 2002). Na presente comunicação, investigaremos dois filmes de um subgênero que chamaremos “found footage do poder” que se debruçam sobre imagens de líderes de extrema-direita. Trata-se de filmes que propõem um olhar analítico sobre seu material, cujo teor varia entre o “rigor demonstrativo” da análise e a “liberdade interpretativa de leitura”.

    “Displaced Person” (1981), de Daniel Eisenberg, é um filme feito sobretudo a partir de imagens de Adolf Hitler em Paris, logo após a ocupação nazista. Repetidas, ampliadas, desaceleradas, super-expostas, as imagens, aqui, não são elementos apenas fragmentados, mas “analisados, triturados, auscultados” (Beauvais, 2013). A ideia de análise, de decompor as imagens para melhor “auscultá-las”, possui um pendor pedagógico demonstrativo, que, no entanto, é trabalhado com uma liberdade poética tal que permite múltiplas leituras ao material, e que nunca deixa de salientar o fato de que se trata de arquivos manipulados. Como afirma o próprio diretor, trata-se de libertar as imagens para serem vistas de formas diferentes daquelas pelas quais estamos acostumados e pelas quais o cinema narrativo as amarrou (Guerin, 2012). Sem ser ilustrativa, atenta à materialidade das imagens, e sem cair na banalização já criticada por Farocki (2022) com que o cinema mostrou vítimas do nazismo, a montagem de Eisenberg permite que os horrores da guerra assombrem o filme mesmo em imagens “pacíficas” de Hitler passeando por Paris, cumprimentando apoiadores e sendo fotografado por soldados.

    “Dragões” (2026), de Miguel Antunes Ramos, também busca remontar e, sobretudo, analisar imagens do poder, no caso, vídeos do canal de YouTube do ex-presidente do Brasil, Jair Bolsonaro. O filme, em cuja montagem trabalhamos diretamente, utiliza, diferentemente de Eisenberg, uma narração para conduzir o discurso, mas não deixa de produzir, através de repetições, ampliações, desacelerações, uma montagem analítica para destacar elementos que, no fluxo contínuo dos vídeos, passariam despercebidos. Assim como em “Displaced Person”, há um interesse pelo corpo daquele que exerce o poder, ou seja, um interesse por aquele que seria o “inimigo” na imagem, revisitando o questionamento de Jean-Louis Comolli (2008) de “como filmar o inimigo” na forma de “como ‘montar’ o inimigo” através de seu próprio arquivo. Aqui, além do mais, o gesto de montagem assume também um sentido de produção de arquivo, já que, ao cristalizar tais imagens em sua montagem, impede que elas se percam, seja por diluição no mar infinito de vídeos on-line, seja literalmente, caso sejam excluídas de seus servidores.

    Enfim, cada filme, a seu modo, lidando com contextos, poderes e – importante ressaltar – suportes distintos (película em um caso, digital no outro), explora as possibilidades da remontagem de arquivos do poder. O gesto analítico, evidente em ambos, coloca-nos o questionamento sobre seus limites e potencialidades no cruzamento entre a vontade explicativa e demonstrativa, de um lado, e a multiplicação de sentidos, de outro.

Bibliografia

    BEAUVAIS, Yann. Daniel Eisenberg e a Produção do Sentido da História a partir de Displaced Person. Disponível em: . Acesso em: 27 jan. 2026.

    BRENEZ, Nicole. Montage intertextuel et formes contemporaines du remploi dans le cinéma expérimental. Cinémas : revue d’études cinématographiques, v. 13, n. 1–2, p. 49–67, 2002.

    COMOLLI, Jean-Louis. Ver e poder : a inocência perdida : cinema, televisão, ficção, documentário. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2008.

    FAROCKI, Harun. Aux bords du documentaire. Paris: P.O.L, 2022.

    GUERIN, Frances. Archives and Images as Repositories of Time, Language, and Forms from the Past: A Conversation with Daniel Eisenberg. The Moving Image: The Journal of the Association of Moving Image Archivists, v. 12, n. 1, p. 112–118, 2012.

    SKOLLER, Jeffrey (Org.). Postwar: the films of Daniel Eisenberg. London: Black Dog Publishing, 2010.