Ficha do Proponente
Proponente
- Gustavo Pierzchalski Vieira (PUC-SP)
Minicurrículo
- Doutorando em Ciências Sociais pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Mestre em Ciências Sociais pela mesma instituição no Programa de Estudos Pós-Graduados em Ciências Sociais, com financiamento do CNPq. Autor do livro Cinema na Revolução Espanhola, lançado em 2025 pela Editora Intermeios. É pesquisador no Nu-Sol (Núcleo de Sociabilidade Libertária). Participa do coletivo editorial da revista verve.
Ficha do Trabalho
Título
- Imagens contra o Estado: linguagem, memória e resistências indígenas no cinema sul-americano
Resumo
- O texto articula uma reflexão sobre linguagem, memória e violência colonial a partir das formulações do antropologo Pierre Clastres, contrapondo sociedades ameríndias às de Estado. Examina o extermínio de povos do sul por meio dos filmes O botão de pérola (Patricio Guzmán, 2015) e Os Colonos (Felipe Gálvez Haberle, 2023), discutindo etnocentrismo e etnocídio e evidenciando a violência colonial e as resistências indígenas
Resumo expandido
- O texto articula uma reflexão sobre linguagem, memória e violência colonial a partir das formulações do antropólogo Pierre Clastres, contrapondo sociedades de Estado, nas quais a palavra se concentra como instrumento de comando, às sociedades ameríndias, onde a linguagem opera como prática coletiva de vínculo, memória e recusa da centralização do poder. Essa distinção orienta a análise histórica e cinematográfica dos povos do sul do continente americano, como os selk’nam e os kawésqar, habitantes da Patagônia e da Terra do Fogo há cerca de 10 mil anos.
A experiência desses povos é mobilizada por meio de duas obras cinematográficas: O botão de pérola (2015), de Patricio Guzmán, e Os colonos (2023), de Felipe Gálvez Haberle. No primeiro, o elemento água emerge como princípio cosmológico e arquivo de memória, articulando a relação dos kawésqar com as terras ancestrais e evidenciando a violência da colonização que levou à sua quase extinção. A cosmo visão desses povos reitera formas de vida que escapam à lógica estatal e reafirma a linguagem como dimensão inseparável da existência coletiva. No filme Os Colonos, a dimensão brutal da colonização aparece na trama que acompanha o processo de uma expedição de extermínio contra os povos indígenas da Terra do Fogo. O filme evidencia como a colonização se estrutura pela violência direta, pela apropriação do território e pela eliminação física e simbólica dos povos nativos do sul, cujo o genocídio e etnocídio é justificado pelo olhar colonial.
O texto também recupera os registros do antropólogo Martin Gusinde, que documentou práticas culturais selk’nam, como a cerimônia Hain, ao mesmo tempo em que evidencia a ambiguidade do olhar etnográfico inserido em um contexto de destruição. A atuação de colonos, missionários e agentes econômicos, assim como a concentração forçada em missões, contribuiu para o desmantelamento dessas sociedades. A exibição de indígenas em “zoológicos humanos” na Europa reforçou sua objetificação e inserção em hierarquias raciais. A partir das análises do antropólogo Claude Lévi-Strauss, o texto discute o etnocentrismo como tendência generalizada, distinguindo, porém, o caso ocidental por sua dimensão etnocida, isto é, pela destruição sistemática dos modos de vida de outros povos. A noção de civilização é problematizada como dispositivo de hierarquização, que associa progresso à supressão da alteridade.
Bibliografia
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NIETZSCHE, Friedrich. A Gaia Ciência. Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo, Companhia das letras, 2012.
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