Ficha do Proponente
Proponente
- Bárbara Piazza dos Reis (UFPR)
Minicurrículo
- Mestre e doutoranda em Comunicação pela UFPR e bolsista CAPES. Também possui formação em Roteiro pelo Centro Cultural Espaço de Arte (2023) e em Cinema Documental pela Escuela de Cine de Chile (2020). Seus interesses de pesquisa versam sobre: Comunicação e Cinema; Psicanálise e Semiologia/Semiótica; Sexualidade e Dissidências.
Ficha do Trabalho
Título
- Do olhar masculino ao pacto autobiográfico: o gesto de criação na carreira de Brooke Shields
Resumo
- Este trabalho se insere na Teoria de Cineastas ao compreender o documentário Pretty Baby: Brooke Shields (Lana Wilson, 2023) como gesto autobiográfico de criação e reinscrição simbólica. Em diálogo com Laura Mulvey e Philippe Lejeune, discute-se a passagem do “olhar masculino” ao “pacto autobiográfico” — da voz passiva à ativa —, evidenciando como a série transforma uma trajetória marcada pela sexualização precoce em reflexão crítica sobre imagem, memória e poder.
Resumo expandido
- Lançado no Sundance Film Festival em 2023 e dirigido por Lana Wilson, Pretty Baby: Brooke Shields revisita a trajetória da atriz e modelo Brooke Shields por meio de arquivos, depoimentos e registros pessoais, examinando a construção de sua imagem pública na indústria cultural norte-americana, conforme conceitua Cecília Almeida Salles (2017) em seus “arquivos de criação” / “documentos de processo”. O documentário, assim, desloca o tradicional ponto de vista de objetificação sexual da atriz ao reposicioná-la como agente de sua própria história. Em outras palavras, tem-se o “pacto autobiográfico” (Philippe Lejeune) como resposta alternativa ao “male gaze” / ”olhar masculino” (Laura Mulvey).
Este trabalho, portanto, investiga a autobiografia como gesto de reinscrição simbólica, articulando-o à Teoria de Cineastas, por compreender o documentário como espaço de elaboração da experiência. A trajetória de Shields evidencia como a erotização precoce foi mobilizada não apenas como recurso narrativo, mas também como estratégia de produção de valor simbólico e mercadológico, especialmente em obras como Pretty Baby (1978), dirigido por Louis Malle.
A construção visual do filme dialoga com o conceito de male gaze / olhar masculino formulado por Laura Mulvey, pois o corpo feminino jovem serve como objeto de contemplação. O documentário de Wilson, por sua vez, revisita criticamente essa lógica ao explorar a recepção midiática da atriz e a relação com sua mãe, Teri Shields, evidenciando tensões entre cuidado, exploração e mediação profissional.
Incorporando múltiplas vozes — como a de Meenakshi Gigi Durham —, o documentário constrói uma reflexão sobre os dispositivos culturais que sustentam a sexualização precoce, através de produções cinematográficas como Pretty Baby (1978), The Blue Lagoon (1980) e Endless Love (1981); e publicitárias, como a campanha para a Calvin Klein Jeans (1980). O ponto de inflexão ocorre quando Shields assume a autoria de sua experiência, tanto no documentário quanto em suas obras escritas, mobilizando o que Philippe Lejeune define como pacto autobiográfico: um compromisso de identidade entre autor, narrador e personagem que confere ao relato um estatuto particular de testemunho e reconstrução da experiência vivida (1991, p. 48). A autobiografia emerge, assim, como prática crítica que desloca a atriz da posição de objeto de representação para sujeito da enunciação.
Brooke Shields não apenas reorganiza retrospectivamente experiências marcadas pela exploração e pela fetichização, mas produz uma mediação simbólica que lhes confere inteligibilidade. Nesse sentido, a autobiografia traduz um processo de elaboração psíquica no qual memória e crítica se tornam indissociáveis.
Em Down Came the Rain: My Journey Through Postpartum Depression (2005), a atriz relata sua experiência pessoal com a depressão pós-parto, deslocando a supérflua imagem de símbolo sexual para um registro confessional e profundo sobre seu sofrimento psíquico. Em There Was a Little Girl: The Real Story of My Mother and Me (2014), Brooke Shields revisita sua relação com a mãe e o papel central que Teri Shields desempenhou na mediação entre sua imagem e a indústria cultural. Já em Brooke Shields Is Not Allowed to Get Old: Thoughts on Aging as a Woman (2025), a reflexão desloca-se para a experiência do envelhecimento feminino em uma indústria que historicamente valoriza a juventude como atributo central de desejabilidade.
O documentário Pretty Baby: Brooke Shields (2023) pode ser compreendido, no âmbito da Teoria de Cineastas, como um dispositivo de criação que transforma a experiência vivida em reflexão audiovisual. Ao reescrever sua trajetória, Shields não apenas reconfigura sua imagem, mas também tensiona os modos de produção e circulação de imagens femininas na cultura contemporânea, articulando estética, memória e política.
Bibliografia
- LEJEUNE, Phillipe. El Pacto Autobiográfico. Barcelona: Editorial Anthropos. 1991.
MULVEY, Laura et al. Prazer visual e cinema narrativo. 1973. In: XAVIER, Ismail (org.). A Experiência do Cinema: Antologia. Rio de Janeiro: Edições Graal: Embrafilme, 1983, p. 437-453.
PRETTY Baby: Brooke Shields. Direção de Lana Wilson. Estados Unidos: ABC News Studios, Bed by 8, Matador Content, Drifting Cloud Productions. 2023.
PRETTY Baby. Direção de Louis Malle. Estados Unidos: Produção de Louis Malle, 1978.
SALLES, C. A. Da Crítica Genética à Crítica de Processo: uma linha de pesquisa em expansão. SIGNUM: Estud. Ling., Londrina, n. 20, v. 2, p. 41-52, ago. 2017.
SHIELDS, Brooke. Brooke Shields is Not Allowed to Get Old: Thoughts on ageing as a woman. London: Piatkus, 2025.
SHIELDS, Brooke. Down Came the Rain: My Journey Through Postpartum Depression. New York: Hyperion, 2005.
SHIELDS, Brooke. There was a little girl: the real story of my mother and me. New York: Penguin Random House LLC, 2014.