Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Anthony dos Santos Silva (UNESPAR)

Minicurrículo

    Anthony dos Santos Silva – Mestrando em Cinema e Artes do Vídeo Linha 2 (Processos de Criação) e bacharel em Cinema e Audiovisual pela UNESPAR. Multiartista experimental e pesquisador, atua na intersecção entre linguagens e suportes diversos para investigar relações experimentais em gênero e cinema. Co-coordena o Projeto Amador, dedicado à tradução de textos de cineastas experimentais. Sua realização mais recente é exp trans cinema visual manifesto (2025), exibido pela Canyon Cinema/Film Coop.

Ficha do Trabalho

Título

    Metodologias, diálogos e processos de criação a partir de uma prática trans experimental de cinema

Mesa

    Experimentações e práticas de criação: diálogos a partir do gênero

Resumo

    Este trabalho investiga metodologias de criação sob o viés do “cinema trans experimental”, tomando-as como atuantes na elaboração e inscrição estética de identidades dissidentes. Ao deslocar o olhar da obra para o processo, examina-se o hibridismo tecnológico de suportes, práticas intuitivas, posicionamento político e corporificação fílmica, articulando tais operações à tradução de instabilidades da transição de gênero, via fricção metodológica, entre artista-pesquisador e outros cineastas.

Resumo expandido

    Partindo da compreensão de gênero a partir das proposições de Judith Butler (2018), temos um conjunto de práticas reiteradas no cotidiano por meio de recursos semióticos e convenções culturais. No âmbito do que estou chamando de cinema trans experimental, essa premissa se desdobra em uma prática de posicionamento político e estético acerca da transgeneridade e os processos a ela atrelados, onde a criação audiovisual opera como um laboratório para o que Paul B. Preciado (2019) define como o ato de “hackear” as tecnologias do sexo e do gênero, deslocando e reinventando assim a própria materialidade do corpo trans, mas também a do corpo fílmico. No processo de criação, a linguagem cinematográfica é também hackeada, transmutada, seguindo em compasso de transformação com o processo de transição de gênero. Como bem observa Laura U. Marks, “cineastas experimentais vêm explorando há anos as relações entre percepção e corporeidade, oferecendo uma alternativa mimética à narrativa convencional da experiência.” (2000, p. 215).

    Esta desobediência metodológica, entre gênero e prática cinematográfica, manifesta-se de maneiras diversas em produções de cineastas trans, como nos seguintes exemplos: em typhoon diary (2024), na recusa de Helix Zhang ao modelo hegemônico de produção; em Trivakra (2025), na exploração que Sofia Angst faz da dimensão tátil da imagem, encorajando “uma relação corporal entre o espectador e a imagem” (Marks, 2000, p. 164); ou, ainda, na filmografia de Frances Arpia, em registros diarísticos anti-narrativos que operam como instantes de tempo da existência de corpos trans. Encontro, nos processos criativos e nas experimentações dessas autorias, inclinações a um fazer cinema que, mais do que falar sobre o processo de transição, constrói e produz identidade para si e para o mundo ao retomar agência plena sobre sua existência trans.

    Em diálogo com as poéticas destes meus pares, a investigação que proponho no conjunto de obras “Liminaridade do corpo” parte de métodos de criação como a investigação de materiais de arquivo, a sistematização do fluxo intuitivo de escrita, filmagem e montagem, dentre outros. O gesto de criação artística, operado pela fragmentação dos processos e pela tradução intersemiótica, revela-se como uma prática imprescindível em constante diálogo com as faces que revelam, através da experimentação, a construção de minha identidade de gênero. É nesse fazer que a liminaridade do corpo trans encontra aquilo que Eliza Steinbock (2019) conceitua como shimmering: cintilações e oscilações visuais que materializam um corpo em passagem, sempre transicionando, sempre em processo.

    Todas estas e outras operações metodológicas e teóricas desenvolvidas por tais cineastas permitem superar informações previamente definidas acerca da identidade e experiência trans e provocar novas maneiras de agenciar e se relacionar com esta vivência particular. Como bem pontua Helix Zhang, em entrevista concedida para a pesquisa, esse movimento, que tais operações viabilizam, é central ao processo de criação numa prática trans experimental de cinema, pois “a transgeneridade é transcendência e o ato supremo de amor-próprio: quebrar os limites da própria forma física”, seja a forma da obra, seja a do corpo físico, seja a do corpo social.

Bibliografia

    BUTLER, Judith. Problemas de gênero: feminismo e subversão da identidade. Tradução de Renato Aguiar. 16a ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2018.
    PRECIADO, Paul B. Testo Junkie: Sex, Drugs, and Biopolitics in the Pharmacopornographic Era. New York: The Feminist Press, 2019.
    MARKS, Laura U. The Skin of the Film: Intercultural Cinema, Embodiment, and the Senses. Durham: Duke University Press, 2000.
    STEINBOCK, Eliza. Shimmering Images: Trans Cinema, Embodiment, and the Aesthetics of Change. Durham; London: Duke University Press, 2019.