Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Henry Fragel (UFRJ)

Minicurrículo

    Doutorando em Comunicação e Mestre pelo PPGCOM da Escola de Comunicação da UFRJ. Pesquisador do MediaLab.UFRJ. Interessado pelas interseções entre tecnologia, audiovisual, estética, gênero e sexualidade e trabalho na contemporaneidade, com enfoque em plataformas de conteúdo adulto e filmes pornográficos.

Ficha do Trabalho

Título

    O pornô por trás do pornô: encenações do “Prazer” em Ninja Thyberg

Eixo Temático

    ET 3 – FABULAÇÕES, REALISMOS E EXPERIMENTAÇÕES ESTÉTICAS E NARRATIVAS NO CINEMA MUNDIAL

Resumo

    Inspirado pelo filme de 2021 “Pleasure”, estreia da diretora sueca Ninja Thyberg, analiso as complexidades da produção de um filme não pornográfico sobre pornografia. A partir das encenações, marcadas por porosidades entre vida e obra, erótico e pornográfico, paródia e realismo, investigo interdiscursividade, pactos espectatoriais e contradições da realidade social presentes no filme, buscando compreender como Thyberg pensa, contesta e incorpora o pornográfico como exercício de imaginação.

Resumo expandido

    A cineasta sueca Ninja Thyberg estreou seu primeiro longa-metragem, Pleasure (2021), na edição de 2021 do Sundance FIlm Festival. Buscando retratar com complexidade a vida de trabalhadores sexuais, Thyberg acompanhou os bastidores de gravações de produtoras pornográficas de Los Angeles. Os laços construídos em campo permitiram que a diretora estreasse em festivais de cinema internacionais com um filme que, exceto pela atriz principal, tem o elenco composto por estrelas do pornô. Ainda que a narrativa não seja particularmente inovadora – uma jovem sueca se muda para os Estados Unidos para construir uma carreira na indústria pornográfica –, o filme evita uma posição maniqueísta sobre motivações e percalços desses trabalhadores e destaca o que Gerbase (2006) aponta como o principal fator de diferenciação entre o erótico e do pornográfico: a demarcação de áreas de distribuição.
    Este trabalho não tem o objetivo de se prolongar em uma cartografia das fronteiras da moralidade, mas compreender como o estatuto do pornográfico estabelece relações de continuidade mais complexas com o cinema e a realidade social do que sugerem críticas às representações sexuais. A pornografia audiovisual, como objeto da reprodutibilidade técnica, representa explicitamente o sexo e a nudez (HUNT, 1999) e produz respostas corporais específicas que derivam e são derivadas tanto da intencionalidade da produção (PRECIADO, 2020; WILLIAMS, 2012) como de um modo de leitura histórico e cultural (ULLÉN, 2009; STAM, 1992). O “olhar pornográfico” que emerge nesse fluxo de imagens e sensações descentraliza seu repertório estético das representações de sexo explícito e agrega virtualmente todas as imagens que podem ser produzidas como fetiche.
    Ao mobilizar atores pornográficos em cenas simuladas, Thyberg dispara diversas questões: onde começa e termina a pornografia? O que caracteriza um filme não pornográfico sobre pornografia? Até que ponto a intencionalidade pode modular a fruição estética de um filme e como isso afeta e é afetado pelas formas de regulação? São os usos do filme ou o tamanho das telas em que eles são veiculados que estabelecem essa fronteira? A inserção de atores pornográficos em cenas simuladas, mas realistas, constitui uma paródia elaborada: por um lado, os atores podem insinuar sua marca pessoal diante de novas audiências, e a diretora, legitimar o discurso da transparência na representação. Se os filmes pornográficos podem ser considerados paródia da relação sexual, releitura hiperbólica, adaptação de narrativas da cultura, do entretenimento e do cotidiano, que qualidade de paródia é posta em marcha quando trabalhadores do sexo encenam sobre a própria encenação?
    A reflexão metalinguística do filme traz à mesa a crítica de Butler (2021) à leitura de MacKinnon da pornografia como reiteração da violência patriarcal. Para Butler, essa perspectiva não soluciona a contradição entre representação e conduta, mas respalda a intervenção regulatória de imagens. Afinal, se o sexo não pode ser representado pela pornografia por ser atravessado por relações de dominação que podem ser perpetuadas no ato de visualização como apologia e injúria, o que tal preocupação comunica sobre literacia fílmica e educação sexual na contemporaneidade? A partir das encenações do processo pornográfico, busco seguir três linhas de investigação: 1) explorar como Pleasure mobiliza uma estratégia interdiscursiva com o gênero pornográfico para confrontar limites da estetização do sexo no cinema, 2) compreender como análises do prazer no cinema narrativo (MULVEY, 1983, 1989) e da pornografia como gênero corporal (WILLIAMS, 1991) sinalizam tentativas de desenlace dos complexos pactos entre ideologia e espectatorialidade e 3) acolher contradições que posicionam o baixo corporal e a pornografia como coordenadas de uma realidade social fragmentada e disputada por visões do excesso, saberes carnais (WILLIAMS, 1989, 2012; BALTAR, 2015) e corpos saturados de sexualidade (FOUCAULT, 1999).

Bibliografia

    BALTAR, M. Real sex, real lives. E-Compós, v. 17, n. 3, p. 1-17, 2015. BUTLER, J. Discurso de ódio. São Paulo: Editora Unesp, 2021. FOUCAULT, M. História da sexualidade, v. 1. Rio de Janeiro: Edições Graal, 1999. GERBASE, C. Imagens do sexo. Famecos, Porto Alegre, n. 31, p. 39-46, 2006. MULVEY, L. Prazer visual e cinema narrativo. In: XAVIER, I. (org.). A experiência do cinema. Rio de Janeiro: Edições Graal, 1983. p. 437-453. MULVEY, L. Afterthoughts on ‘Visual Pleasure and Narrative Cinema’’. In: MULVEY, L. Visual and Other Pleasures. London: Palgrave Macmillan, 1989. p. 29-38. PRECIADO, P. B. Pornotopia. São Paulo: N-1 Edições, 2020. STAM, R. Subversive Pleasures. Baltimore: JHU Press, 1992. ULLÉN, M. Pornography and its critical reception. Jump Cut, n. 51, p. 1-26, 2009. WILLIAMS, L. Hard Core. Berkeley: UC Press, 1989. WILLIAMS, L. Film Bodies. Film Quarterly, Berkeley, v. 44, n. 4, p. 2-13, 1991. WILLIAMS, L. Screening Sex. Cadernos Pagu, Campinas, v. 38, n. 1, p. 13-51, 2012.