Ficha do Proponente
Proponente
- KENIA CARDOSO VILACA DE FREITAS (UFS)
Minicurrículo
- Professora da Universidade Federal de Sergipe (UFS) no curso de Cinema e Audiovisual. Fez estágios de pós-doutorado (CAPES/PNPD) no programa de pós-graduação em Comunicação na UCB (2015-2018) e no programa de pós-graduação em Comunicação da Unesp (2018-2020). Doutora pela Escola da Comunicação da UFRJ (2015). Possui pesquisa sobre Afrofuturismo, Cinema Negro e Crítica de Cinema. Integra o Forúm Itinerante de Cinema Negro.
Ficha do Trabalho
Título
- Cinema Negro e Imaginação Radical: as relações formais e políticas dos movimentos de cinemas negros
Seminário
- (Re)existências negras e africanas no audiovisual: epistemes, fabulações e experiências
Resumo
- A apresentação pretende pensar as relações formais e políticas que constituem diferentes momentos dos Cinemas Negros – Race Movies nos EUA (1919-1950), Blaxploitation e L.A. Rebellion (1970-80) nos EUA e New Queer Cinema (1980-1990) na Inglaterra e nos EUA – tendo a Imaginação Radical (KELLEY, 2002) como elemento em comum. Isso será desenvolvido a partir de aportes teórico-metodológicos presentes nos estudos Estudos Negros: Afropessimism , Fabulação Crítica e Afrofuturismo.
Resumo expandido
- Historicamente, os Cinemas negros surgem a partir de perspectivas sociais, culturais e geográficas associadas às lutas dos Movimentos Negros por inclusão, representação, direitos civis, autonomias nacionais e culturais, etc. Temos assim, por exemplo, a ascenção dos Race Movies na década de 1910 ligada ao sistema de segregação racial nos EUA, propondo uma estrutura de produção e exibição de filmes voltado para espectadores negros que não podiam frequentar os espaços de cinema ligados à industria de Hollywood. Podemos citar também a maneira como o pensamento afrocentrado de movimentos dos anos 1960 e 1970, como o Partidos dos Panteras Negras, influência a produção de jovens estudantes da Universidade da Califórnia (UCLA). Esses jovens estudantes produzem filmes nos anos 1970 e 1980 em que a música, as artes plásticas e a literatura negra ocupam o centro de criação, em um movimento que ficou conhecido como L.A. Rebellion. O movimento acontece de forma simultânea a produção conhecida como o cinema Blaxploitation, um cinema que explorava sexo, nudez e violência em seu enredo, tendo o protagonismo negro como marca – mas nem sempre a autoria de diretores negros. Nos filmes da Blaxploitation a impacto dos movimentos negros organizados do periodo se mostra muito mais em uma faceta estética (valorização da beleza negra, através das roupas e cortes de cabelo) e menos nos aspectos políticos (sendo um cinema integrado aos grandes estúdios). Alguns anos depois, no final do 1980, temos uma nova onda de filmes feitos por realizadores que reivindicam a coexistência das suas identidades negras e gays, no contexto de New Queer Cinema de autoria negra (WALLENBERG, 2004). Diretores como Marlon Riggs e Cheryl Dunye nos EUA e Isaac Julien na Inglaterra se alinham às mudanças nas perspectivas das discussões das identidades propostas pelos Estudos Culturais e pela democratização da produção audiovisual a partir do uso do suporte videográfico.
Um campo que extrapola as delimentações das contradições e ambivalências que o definem, como a discussão da autoria, da temática e da estrutura econômica. Como argumenta Michael B. Gillespie em “Film blackness” (2016), acreditamos que trata-se menos de impor “prescrições” e mais em assumir a potencialidade como pergunta dos filmes negros. Ou seja, trata-se de mergulhar no emaranhado de discussões estéticas e políticas que se colocam em jogo quando evocamos a denominação cinema negro.
Em seu manifesto, Racquel Gates e Michael Gillespie (2019) defendem a pesquisa de filmes pretos como um ato rebelde – visto que esse se faz fora da lógica dominante do campo dos estudos cinematográficos (centralizado nos homens brancos heterossexuais). Conspirando com Gates e Gillespie, trazemos para essa pesquisa os sentidos de rebelde propostos por Saidiya Hartman (2022), “o movimento desregulado da deriva e da errância; permanências sem um destino fixo, possibilidades ambulantes, migrações intermináveis, debandada e fuga, locomoção negra, a luta diária para viver livre. A tentativa de escapar à captura pela não acomodação”, para propor uma aproximação epistemológica dos estudos dos Cinemas Negros como gestos rebeldes de imaginação radical estética e política que perpassam as experiências negras.
A partir desse campo teórico e histórico, o problema de pesquisa a ser discutido nessa apresentação é o de: como pensar as relações formais e políticas que constituem diferentes momentos dos Cinemas Negros tendo a Imaginação Radical (KELLEY, 2002) como elemento em comum? Para isso serão discutidos quatro contextos variados: Race Movies nos EUA (1919-1950), Blaxploitation e L.A. Rebellion (1970-80) nos EUA e New Queer Cinema (1980-1990) na Inglaterra e nos EUA. Os movimentos serão analisados no contexto das discussões teóricas ligadas ao campo dos Estudos Negros: Afropessimismo (Wilderson, 2010) , Fabulação Crítica (Hartman, 2020) e Afrofuturismo (Freitas, 2022).
Bibliografia
- FREITAS, Kênia. Afrofuturismo no Cinema: os errantes no tempo da diáspora negra”. In: CARVALHO, N. dos S. (org). Cinema Negro Brasileiro. 1st ed. Papirus Editora, 2022.
GATES, R. J.; GILLESPIE, M. B. Reivindicando os Estudos de Filme e Mídia Pretos. Film Quarterly, Spring 2019, Volume 72, Issue 3, pp. 13-15.
GILLESPIE, M. B. Film blackness: American cinema and the idea of black film. Durham: Duke University Press, 2016.
HARTMAN, S. Vidas Rebeldes, Belos Experimentos: Histórias íntimas de meninas negras desordeiras, mulheres encrenqueiras e queers radicais. São Paulo: Fósforo, 2022.
___________. Vênus em dois atos. Revista Eco-Pós, 23(3), 12–33, 2020.
KELLEY, R. Freedom Dreams: the black radical imagination. Boston: Beacon Press, 2002.
WALLENBERG, L. O New Queer Cinema Negro [2004]. In: New Queer Cinema – Cinema, Sexualidade e Política. Murari, L.; Nagime, M. (orgs.), 2015
Wilderson III, F. Red, White & Black: Cinema and the Structure of U.S. Antagonisms. Durham: Duke University, 2010