Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Isaac Pipano Alcantarilla (UFF)

Minicurrículo

    Professor e pesquisador do curso de Cinema e Audiovisual da Universidade Federal Fluminense (UFF). Doutor pelo Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Federal Fluminense (UFF). Especialista em Computação Aplicada à Educação e Tecnologias Educacionais (ICMC-USP). É um dos idealizadores do projeto Inventar com a Diferença – cinema, educação e Direitos Humanos e foi coordenador da Rede Kino – Rede Latino-Americana de Educação, Cinema e Audiovisual.

Ficha do Trabalho

Título

    Por uma proposta conceitual de filme de formação no campo do cinema e educação

Mesa

    Filmes de formação – o cinema como experiência situada de produção de conhecimento

Resumo

    A expressão “filme de formação” circula no campo cinema-educação brasileiro sem uma elaboração conceitual sistemática. Emprestado do campo literário, o conceito geralmente é definido por aquilo que o filme narra: o processo de amadurecimento de seu protagonista. Por outra via, este trabalho propõe deslocar essa noção do plano do conteúdo diegético para o plano da experiência espectatorial, argumentando a respeito daquilo que acontece com o espectador em seu encontro com o filme.

Resumo expandido

    O campo do cinema-educação brasileiro, constituído amplamente em torno dos encontros da SOCINE, acumulou nas últimas três décadas um repertório denso de práticas pedagógicas e uma bibliografia teórica que o singulariza no cenário internacional. Paradoxalmente, esse mesmo acúmulo não produziu ainda uma elaboração conceitual rigorosa para uma noção que circula com frequência nos trabalhos do campo: a de “filme de formação”.
    O que se observa, em lugar de uma formulação sistemática, é a oscilação da expressão entre três usos imprecisos. No primeiro, “filme de formação” opera como tradução ou equivalente do coming-of-age film anglófono, a categoria com que os estudos cinematográficos de língua inglesa descrevem obras cujos protagonistas são jovens em transição para a vida adulta. No segundo, a expressão designa filmes considerados pedagogicamente desejáveis para o uso em sala de aula: um critério moral que confunde “filme de formação” com um “filme formativo”, ou, de outro modo, um filme pedagógico. No terceiro, “filme de formação” aparece como referência genérica a obras que “mobilizam” ou “tocam” o espectador — uma formulação insuficiente que não permite distinguir o que especificamente constitui essa mobilização, tampouco em que medida ela pode ser compreendida como formativa.
    Esses três usos partilham um pressuposto comum que este trabalho busca explicitar e deslocar: todos eles operam numa lógica temática ou conteudista, a saber, definem o filme pelo que ele narra. No primeiro uso, o critério é a presença de um protagonista jovem em amadurecimento; no segundo, a presença de temas considerados educativamente pertinentes; no terceiro, a presença de elementos supostamente mobilizadores. Em todos os casos, o que define o filme de formação é algo que está no filme, no seu enredo, na sua temática, na sua representação. O espectador, nessa lógica, é figura acessória, uma vez que recebe o filme, indiferentemente, e, assim, não comparece ao conceito.
    A proposta conceitual que aqui se apresenta vai em outra direção. O filme de formação, tomado em sua potência teórica e pedagógica, não pode ser definido por seu conteúdo diegético, mas pela qualidade do encontro que proporciona ao sujeito que assiste. A formação, nessa perspectiva, não está no personagem que amadurece dentro da tela: está no espectador que, diante da obra, é convocado a um trabalho de si que excede qualquer programa pedagógico prévio e qualquer intenção do cineasta. A distinção não é nominalista por se tratar de um modo de reordenar a pergunta que se faz ao filme. Não mais “de que esse filme trata?”, mas “o que esse filme faz ao sujeito que o encontra?” e, correlata a essa questão, “quais condições tornam possível ou impossível esse trabalho?”. O que a apresentação propõe é desenvolver essa distinção em seus termos conceituais e examinar suas implicações para o modo como o campo cinema-educação brasileiro formula hoje suas perguntas teóricas e pedagógicas em torno da relação que se estabelece com os filmes.

Bibliografia

    BERGALA, A. A hipótese-cinema. Rio de Janeiro: Booklink, 2008.
    HOOKS, bell. Olhares negros: raça e representação. São Paulo: Elefante, 2019.
    MIGLIORIN, C.; PIPANO, I. Cinema de brincar. Belo Horizonte: Relicário, 2019.
    MORETTI, F. The Way of the World. London: Verso, 1987.
    PIPANO, I. Isso que não se vê. Rio de Janeiro: Multifoco, 2023.
    RANCIÈRE, J. O espectador emancipado. Lisboa: Orfeu Negro, 2010.
    SOBCHACK, V. Carnal Thoughts. Berkeley: UC Press, 2004.
    STAM, R. A literatura através do cinema. Belo Horizonte: UFMG, 2008.