Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Aryanne de Oliveira Araújo (UFMG)

Minicurrículo

    Jornalista e pesquisadora, dedica-se a aprofundar a compreensão do entrelaçamento entre as teorias da comunicação, a linguagem audiovisual e as construções das noções de gênero, em diálogo com a perspectiva teórica feminista. É doutoranda em Comunicação pela UFMG com bolsa Capes Proex, na linha de pesquisa Textualidades Midiáticas. Mestre em Comunicação pela UFOP com bolsa Fapemig, na linha de pesquisa Práticas Comunicacionais e Tempo Social.

Ficha do Trabalho

Título

    Violências cotidianas nos filmes Blondi e Belén: entre a resistência e a colonialidade de gênero

Resumo

    Este trabalho investiga como Blondi (2023) e Belén (2025), de Dolores Fonzi, tensionam a colonialidade de gênero a partir da inscrição da violência no cotidiano. Analiso como diferentes regimes de visibilidade modulam essa violência, entre o extracampo e sua espetacularização. Por meio de estudo de caso e articulação teórica (Das, 2020; Lugones, 2020; Segato, 2016; Lauretis, 2019; Lopes Louro, 2008; Mulvey, 2019; hooks, 2019), observo tensões entre denúncia, resistência e reinscrição da dor.

Resumo expandido

    Este trabalho realiza um estudo de caso dos filmes Blondi (2023) e Belén: Uma história de injustiça (2025), da cineasta argentina Dolores Fonzi, como expressões cinematográficas que tensionam a colonialidade de gênero a partir da inscrição da violência no cotidiano. Em Blondi, comédia leve centrada na relação afetuosa entre mãe e filho, a violência não se apresenta como evento central, mas como ferida histórica alojada no extracampo: o aborto mal sucedido na adolescência da protagonista, resultado da ilegalidade do procedimento. A revelação ocorre em um breve diálogo sob uma marquise, gesto mínimo que evidencia como o trauma se reinscreve na vida ordinária. Em Belén, drama baseado em fatos reais, acompanhamos uma jovem trabalhadora doméstica de Tucumán que, ao sofrer um aborto espontâneo, é presa e submetida à violência obstétrica e judicial por um sistema que criminaliza seu corpo e sua pobreza. O filme acompanha sua luta até que uma rede de advogadas feministas a acolhe, transformando o caso individual em batalha coletiva por justiça reprodutiva.

    Ambos os filmes são obras de ficção, mas nascem em momentos distintos da vida da diretora. Blondi emerge de uma escuta subjetiva, quase autobiográfica na atmosfera: a ficção como elaboração indireta. Belén nasce do encontro deliberado com o ativismo feminista e com a dor documentada de outra mulher, marcando a virada política explícita de Fonzi. Essa passagem da comédia leve à denúncia direta, da ferida no extracampo à violência encenada em primeiro plano, não representa necessariamente um amadurecimento estético, mas uma mudança de regime de visibilidade que corre o risco de tornar o sofrimento feminino novamente espetacularizável. A questão não é se a violência deve ser mostrada, mas como o cinema pode inscrevê-la sem reproduzir a lógica que exige o espetáculo da dor para que a injustiça seja reconhecida.

    Para compreender como essa violência se inscreve nas imagens, articulo quatro camadas teóricas: (1) a descida da violência ao cotidiano (Veena Das, 2020); (2) a colonialidade de gênero como estrutura (María Lugones, 2020; Rita Segato,2016); (3) o cinema como tecnologia e pedagogia cultural do gênero (Teresa de Lauretis, 2019; Guacira Lopes Louro, 2008); (4) o olhar como disputa entre objetificação e resistência (Laura Mulvey, 2019; bell hooks, 2019). Veena Das ensina que a violência extrema desce ao cotidiano, instalando-se em gestos banais como cozinhar, exitar em atravessar um cômodo ou falar baixo. María Lugones demonstra que a colonialidade impôs um sistema de gênero binário e racializado que transformou corpos feminizados em territórios de apropriação. Rita Segato aprofunda com o conceito de continuum da violência: a violência de gênero é pedagógica, estrutural e disciplinar. Teresa de Lauretis e Guacira Lopes Louro mostram que o cinema não reflete o gênero: ele é uma tecnologia que o produz, uma pedagogia cultural que educa o olhar. Por fim, Laura Mulvey revela o olhar masculino (male gaze) ativo que reduz a mulher a espetáculo, enquanto bell hooks aponta olhares opositores que resistem a essa posição.

    É nessa tensão que se situa este trabalho: coabitar as representações do corpo feminino para compreender nossa existência enquanto corpos feminizados latino-americanos que experienciam o mundo em finais de mundo que nos são cotidianos.

Bibliografia

    Referências Bibliográficas

    DAS, Veena. Vida e Palavras: A Violência e sua Descida ao Ordinário. São Paulo: Editora da Unifesp, 2020.
    hooks, bell. Olhares negros: raça e representação. São Paulo: Elefante, 2019.
    LAURETIS, T. A tecnologia de gênero. In. HOLLANDA, Heloisa Buarque (org.). Pensamento feminista: conceitos fundamentais. Rio de Janeiro: Bazar do Tempo, 2019. p. 121-155.
    LOURO, Guacira Lopes. Cinema e sexualidade. Revista Educação e Sexualidade, Porto Alegre, Vol. 33, n. 1, p. 81-97, 2008.
    LUGONES, María. Colonialidade e Gênero. In. HOLLANDA, Heloisa Buarque (org.). Pensamento feminista hoje: perspectivas decoloniais. Rio de Janeiro: Bazar do Tempo, 2020. p. 52-83.
    MULVEY, Laura. Afterimages: on cinema, women and changing times. London: Reaktion Books, 2019.
    SEGATO, Rita Laura. La guerra contra las mujeres. Madrid: Traficantes de Sueños, 2016.

    Filmografia

    BELÉN. Direção: Dolores Fonzi. Argentina, 2025.
    BLONDI. Direção: Dolores Fonzi. Argentina, 2023.