Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Fernanda Aguiar Carneiro Martins (UFRB)

Minicurrículo

    Professora associada IV do Colegiado em Cinema e audiovisual da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia – UFRB, é fundadora e líder do LACIS – Laboratório de análise e criação em imagem e som (CNPq). Em 2025, finalizou Pós-doutorado na Universidade Paris Nanterre (seu segundo), com projeto de pesquisa intitulado “Imagens e feminismo: a fotografia, o cinema e o audiovisual na era do female gaze”, fruto de suas participações em eventos científicos e publicações recentes.

Ficha do Trabalho

Título

    Captar no feminino: o female gaze em jogo

Mesa

    A análise cinematográfica e audiovisual hoje: objetos, histórias, epistemologias

Resumo

    O conceito de female gaze popularizou-se nos últimos anos, fazendo eco ao male gaze, teorizado por Laura Mulvey em seu conhecido ensaio de 1975. A presente comunicação se propõe a refletir sobre as contribuições da teoria feminista do cinema e, em especial, o female gaze enquanto poderosa ferramenta conceitual para a análise fílmica, tendo como objeto “Açúcar” (2017) e “Lispectorante” (2024), de Renata Pinheiro, o primeiro em co-direção com Sergio Oliveira.

Resumo expandido

    A escrita do célebre ensaio “Prazer visual e cinema narrativo”, da estudiosa britânica Laura Mulvey, tem seus inícios na década anterior à de sua publicação nos anos 1970, quando os debates acerca dos direitos da mulher proliferam e os estudos cinematográficos abrem-se a novos horizontes. Periódicos como Afterimages e Screen, o Festival de Cinema de Edimburgo em 1972, sob a coordenação de Laura Mulvey, Claire Johnston e Lynda Myles – uma das primeiras programações de filmes de mulheres em um festival, exercem um papel preponderante. A importância deste último é tal que Mulvey começa a acreditar, que somente um cinema feminino pode vir a mudar radicalmente os códigos dominantes presentes na criação da imagem da mulher (Mulvey, 2019). Nesse contexto, surge o conceito de female gaze fazendo eco ao de male gaze, resguardadas as devidas proporções entre o feminino e o masculino, em todo seu caráter de fluidez e de devir trans.

    Doravante, teoria feminista do cinema e militância convergem. Autora do livro “O olhar feminino: uma revolução na tela” (Le regard féminin: une révolution à l’écran, 2020), Iris Brey, publica, em co-autoria com Mirion Malle, “Sob nossos olhos – pequeno manifesto para uma revolução do olhar” (Sous nos yeux – petit manifeste pour une révolution du regard, 2021). Nele, Brey e Malle lançam várias questões cruciais no que diz respeito à imagem da mulher. Com efeito, indagam sobre o significado do ato de filmar, de como o corpo de feminino é registrado, em que consiste o male gaze, suas consequências. De modo sucinto e didático, Brey e Malle propõem como definição do female gaze a condição de dar a conhecer a experiência feminina. Alertam para o fato que as obras cinematográficas e audiovisuais, ao simplesmente contarem a vida de uma heroína, não produzem necessariamente o olhar feminino.” (Brey, Malle, 2021).

    Ao que nos interessa, a saber, a análise fílmica, o conceito de female gaze parece constituir uma poderosa ferramenta conceitual, fazendo coincidir abordagem externa e abordagem interna. Em seu livro “O olhar feminino”, Brey assinala os componentes necessários para a elaboração do female gaze em obra cinematográfica e em ficção seriada, ora dizendo respeito à construção narrativa, ora referindo-se aos recursos formais. Segundo ela, é preciso que o personagem principal se identifique como mulher, que a narrativa seja estruturada sob o seu ponto de vista, pondo em causa a ordem patriarcal, livre de todo e qualquer voyeurismo (Brey, 2020). Sob essa perspectiva, cabe estudar os longas-metragens Açúcar (2017) e Lispectorante (2024), de Renata Pinheiro, o primeiro realizado em co-direção com Sergio Oliveira). Neles, as protagonistas Bethânia Wanderley (Maeve Jinkings) e Glória Hartman (Marcélia Cartaxo) possuem cada uma um percurso singular. Tanto em Açúcar como em Lispectorante, o trabalho minucioso e original da mise en scène promove uma incursão na experiência feminina, apta a desestabilizar os códigos estabelecidos e trazendo argumentos para detectar a presença do female gaze.

Bibliografia

    AUMONT, J.; MARIE, M. L’analyse des films, 3ª ed., Paris: Armand Colin, 2015.
    BREY, Iris; MALLE, Mirion. Sous nos yeux – petit manifeste pour une révolution du regard, France : Éditions Ma vie brûle, 2021.
    BREY, Iris. Le regard féminin – une révolution à l´écran, France : Éditions de l´Olivier, Collection « Les feux », 2020.
    CHATTERGI, Shoma A. The female gaze – essays on gender, society and media, Estados Unidos: Global Collective Publishers, 2022.
    CAUGHIE John; KUHN, Annette (éds.) The sexual subject – a screen reader in sexuality, London/ New York: 1992.
    KAPLAN, E. Ann et al. The Routledge companion to cinema and gender, London/New York: Routledge, 2017.
    MULVEY, Laura. Afterimages – on cinema, women and changing times, London: Reaktion Books, 2019.
    MULVEY, Laura. “Prazer visual e cinema narrativo” In. XAVIER, Ismail (org.). A experiência do cinema – uma antologia, 4ª ed., Rio de Janeiro: Graal, 2008.