Ficha do Proponente
Proponente
- Giovana Pedrilho (UFSCar)
Minicurrículo
- Giovana Pedrilho é bacharel em Audiovisual (2022) pelo Centro Universitário Senac com MBA em História da Arte (2023) pelo Centro Universitário São Camilo e mestranda em Imagem e Som na Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) na linha de pesquisa Narrativa Audiovisual onde estuda, sob orientação do Prof. Dr. Alessandro Constantino Gamo, cinema de horror pós-anos 2000 com foco temático na representação do corpo feminino e do luto.
Ficha do Trabalho
Título
- Oscilações do eu e da forma: o corpo infértil e seu horror em Beau Tem Medo (Ari Aster, 2023)
Eixo Temático
- ET 1 – CINEMA, CORPO E SEUS ATRAVESSAMENTOS ESTÉTICOS E POLÍTICOS
Resumo
- Nesta comunicação, propomos a análise das oscilações genéricas de Beau tem medo (Ari Aster, 2023) a partir da relação entre a instabilidade formal da obra e a indefinição de identidade do protagonista, Beau. Assim, pretendemos investigar de que forma a morte identitária da personagem é representada, como o corpo dela, que é, em última instância, infértil e descontinuado, é moldado, e qual a sua interação com os espaços simultaneamente verosímeis e fantásticos pelos quais ela transita.
Resumo expandido
- Em 2023, em entrevista concedida à Academy of Motion Picture Arts and Sciences, Ari Aster, conhecido por Hereditário (2018) e Midsommar – O mal não espera a noite (2019), afirma não temer ser rotulado como um diretor de horror, pois acredita ter se afastado do gênero com o lançamento de seu terceiro longa-metragem, Beau tem medo (2023).
Assim, a recepção desse filme reflete uma polaridade: por um lado, Aster se esforça para evidenciar o que o faz genericamente diferente de seus antecessores, por outro, jornalistas e críticos de cinema parecem mais inclinados a reconhecer continuidades nas obras do estadunidense. Chama a atenção, contudo, que os dois lados concordem em um aspecto: Beau tem medo desafia categorias de gênero.
Paralelamente, palavras como “ansiedade”, “culpa”, “horror”, “medo”, “monstro” e suas variações povoam o discurso sobre o filme. Afinal, Beau tem medo de quê? Como esse medo se manifesta no texto fílmico? E qual o gênero de Beau? Este último questionamento é duplo e diante disso, nossa comunicação se propõe a explorar as nuances genéricas do longa-metragem de Aster, questionando se tanto o filme quanto Beau cabem dentro de uma categoria de gênero delimitada e definitiva.
Beau tem medo, como Aster (2023) define, é uma odisseia freudiana dividida em atos que abrangem do nascimento à morte de Beau, abordando suas travessias: de menino para homem, de filho para indivíduo, de morador do centro para habitante dos subúrbios e, enfim, visitante da zona residencial de classe alta. Nenhuma dessas condições, porém, é estável.
Logo, Beau tem o corpo constantemente ameaçado e, em meio à violência, sua identidade permanece indefinida; ele não se desenvolve como sujeito, não se distancia verdadeiramente da mãe, a quem é emocionalmente enredado, e não reproduz, muito pelo contrário, ele é um protagonista perseguido pela morte cujo próprio gozo é letal quando ele finalmente é capaz de tê-lo, remetendo ao que Byung-Chul Han (2021, p. 25-6) escreve:
É possível também compreender a morte como um processo continuado, no qual se perde paulatinamente a identidade já durante a vida . A morte então começa antes da morte. A identidade do sujeito é essencialmente mais complexa do que a constância de um nome. O sujeito se desvia sempre de si mesmo. A ideia moderna da morte é determinada por uma representação que se orienta pela função biológica. Ela localiza a morte no corpo que, em determinado momento, para de funcionar.
De que forma, então, essa morte identitária é representada? Como esse corpo que oscila entre extremos e é, em última instância, infértil e descontinuado, é moldado? Trata-se de um corpo feminino e monstruoso (Creed, 1993), seria um ciborgue (Haraway, 2025) ou é, ainda, outro constructo representativo? E qual a sua relação com os espaços simultaneamente verosímeis e fantásticos pelos quais ele transita? É nessa construção da experiência afetiva de Beau, marcada pela indefinição e recheada de baixos e mais baixos, que o filme se aproxima do insólito.
O horror de Beau tende a ir de encontro àquele visto no gênero em seus anos mais recentes – entre meados da década de 2000 e metade da década de 2020 – com filmes que, segundo David Church (2022, p. 1), “combinam o estilo do cinema de arte com tropos de gênero descentralizados, privilegiando o medo persistente e a contenção visual em vez de choques audiovisuais e nojo monstruoso”.
Apesar de Aster manipular estratégias genéricas além daquelas do horror, ele parece instrumentalizá-las em prol do funcionamento dos “mecanismos de apreensão” (ibid.) do filme, isto é, o estado de alerta praticamente constante ao qual Beau – e, por conseguinte, o espectador – é submetido.
Portanto, propomo-nos a refletir sobre as implicações representativas de um corpo de identidade e espacialidade oscilantes, incapaz de reproduzir e de se desenvolver como sujeito, buscando apreender de que modo o gênero de horror pode ser desdobrado para suscitar os afetos relativos a esta instabilidade.
Bibliografia
- ASTER, ARI. Ari Aster talks ‘Beau Is Afraid’: ‘I knew this was one I couldn’t compromise on’. [Entrevista concedida à] Academy of Motion Picture Arts and Sciences. Newsletter Oscars, abr. 2023. Disponível em: https://newsletter.oscars.org/news/post/beau-is-afraid-ari-aster-interview. Acesso em: 9 dez. 2024.
CHURCH, David. Post-Horror: Art, Genre, And Cultural Elevation. Edimburgo: Edinburgh Univerty Press, 2022.
CREED, Barbara. The Monstrous-feminine: Film, Feminism, Psychoanalysis. Abington: Routledge, 1993.
HAN, Byung-Chul. Capitalismo e Impulso de Morte: Ensaios e Entrevistas. Petrópolis: Vozes, 2021.
HARAWAY, Donna; KUNZRU, Hari; TADEU, Tomaz. Antropologia do Ciborgue: As Vertigens do Pós-humano. Belo Horizonte: Autêntica, 2025.
LAURIA, Pedro. Subúrbio e o Suburbanismo Fantástico Hollywoodiano. Rio de Janeiro: Nau Editora, 2025.