Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Dalila Camargo Martins (USP/SENAC)

Minicurrículo

    Bacharel em Audiovisual pela ECA-USP, Mestre e Doutora em Meios e Processos Audiovisuais pela PPGMPA da ECA-USP, com dissertação e tese sobre o cinema de Danièle Huillet e Jean-Marie Straub. Atualmente, é professora do curso Bacharelado em Audiovisual do Centro Universitário SENAC, além de programadora do Cineclube Disgraça.

Ficha do Trabalho

Título

    Comparações entre a técnica de originalidade de Cézanne e a técnica de crueza de Huillet-Straub

Seminário

    Estudos Comparados de Cinema

Resumo

    A comunicação tem o intuito de demonstrar como o filme Cézanne — dialogue avec Joachim Gasquet (1989), de Danièle Huillet e Jean-Marie Straub, indaga o mito da arte moderna segundo o qual o artista se tornaria expressivo ao minimizar o caráter referencial ou mediado de seus próprios meios técnicos, apresentando uma análise comparativa entre a técnica de originalidade de Cézanne, nos termos de Richard Shiff, e o que denominei, em minha tese de doutorado, técnica de crueza de Huillet-Straub.

Resumo expandido

    Em 1985, quatro anos antes do lançamento de Cézanne — dialogue avec Joachim Gasquet (1989), média-metragem de Danièle Huillet e Jean-Marie Straub, Gilles Deleuze já reconhecera, em seu livro A imagem-tempo, ser Paul Cézanne mestre do casal de cineastas. Decerto, engendra-se no filme — comissionado porém recusado pelo Musée d’Orsay por o terem considerado demasiadamente autoral — uma equiparação de ambas as estéticas. Pois, de acordo com Dominique Païni (2012), “os Straub livram o texto do máximo de referências culturais e filosóficas para não reter senão o que, nos supostos propósitos de Cézanne, lhes possa servir”, ou melhor, “os propósitos com os quais eles identificam seu método como cineastas.”
    O filme é dividido em duas partes. Primeiro, introduz-se o pensamento cézanniano para, só então, serem exibidas suas obras. Na meia-hora inicial, retratos fotográficos de Cézanne trabalhando ao ar livre, tirados por André Derain, alternam-se com diferentes vistas cinematográficas atuais da montanha Sainte-Victoire, motivo dileto das paisagens do pintor. Em voz over, Huillet-Straub leem trechos selecionados do capítulo Ce qu’il m’a dit do livro Cézanne, uma compilação de conversas e trocas de cartas ocorridas entre 1896 e 1904, elaborado e publicado pelo poeta e crítico de arte Joachim Gasquet, em 1921, quinze anos após a morte de Cézanne.
    Como respostas alusivas ao conteúdo desses trechos, são inseridas uma imagem do quadro La vieille au chapelet (1896), sequências dos filmes Madame Bovary (1934), de Jean Renoir, adaptação do romance homônimo de Gustave Flaubert, e A morte de Empédocles (1987), dos próprios Huillet-Straub, a partir da peça trágica homônima de Friedrich Hölderlin. Na segunda parte, a leitura continua enquanto mais sete pinturas e duas aquarelas cézannianas aparecem com molduras ou cavaletes em evidência. Por fim, há um plano documental do edifício parisiense em que Cézanne tinha seu estúdio no fim da vida, tomado frontalmente, por trás do portão, que o encerra, enquanto ouve-se o barulho da cidade.
    A eleição de outros autores e a disposição de materiais heterogêneos, portanto, complexifica tal equiparação, traçando um arco histórico mais amplo para perscrutar a problemática da “arte de ver e mostrar” (Aumont, 1990). Trata-se de um convite ao espectador para meditar sobre o que se consagrou ser a intenção de Cézanne: “redescobrir o mundo no ato da percepção” (Böser, 2004). Segundo Richard Shiff (1984), “em sua desconfiança da teoria e em sua busca por uma ‘sensação’ que implicasse a descoberta simultânea de uma natureza e de um eu, Cézanne exemplificou o mais típico dos artistas ‘modernos’, aquele que se tornaria expressivo ao minimizar o caráter referencial (ou mediado) de seus próprios meios técnicos.” Isto é, embora as pinturas cézannianas resultem de dois métodos inter-relacionados (um padrão cromático uniformizante e a atenção a detalhes), a postura do artista contribuiu para que boa parte da fortuna crítica hipostasiasse o efeito gerado por essa técnica de originalidade.
    Em minha comunicação, pretendo demonstrar como o filme indaga o mito do artista moderno, apresentando uma análise comparativa entre a técnica de originalidade de Cézanne e o que denominei, em minha tese (2023), técnica de crueza de Huillet-Straub, composta pelos seguintes procedimentos audiovisuais: intertextualidade por “afinidade eletiva” (definição de Claudia Pummer a partir de Michel Löwy, 2011), decupagem insular (estabelecimento do ponto estratégico da câmera e utilização de som direto), trabalho com não-atores (por vezes junto a atores profissionais), transformados em corpos emissores, montagem paratática etc. Para a análise em questão, o foco estará na intertextualidade por “afinidade eletiva” e na montagem paratática. Como conclusão, quero sugerir que o cinema huillet-straubiano funda uma estética realista que compreende o real como processo — realização: ação de realizar e também o efeito de se tornar real, de emergir.

Bibliografia

    BÖSER, Ursula. The art of seeing, the art of listening: the politics of representation in the work of Jean-Marie Straub and Danièle Huillet. Frankfurt: Lang, 2004.
    GASQUET, Joachim. Conversations avec Cézanne. Paris: Éditions Macula, 2011.
    KEAR, Jonathan. Le sang provençal: Joachim Gasquet’s Cézanne. Journal of European studies, Norwich, junho/setembro de 2002.
    MARTINS, Dalila C. Realismo negativo: estética e política no cinema de Danièle Huillet e Jean-Marie Straub. (tese de doutorado) São Paulo: Universidade de São Paulo, 2023.
    PAÏNI, Dominique; TESSON, Charles (ed.). Jean-Marie Straub, Danièle Huillet: Hölderlin, Cézanne. Lédignan: Editions Antigone, 1990.
    PUMMER, Claudia A. Elective affinities: the films of Danièle Huillet and Jean-Marie Straub. (tese de doutorado) Iowa: University of Iowa, 2011.
    SHIFF, Richard. Cézanne and the end of impressionism — a study of the theory, technique and critical evaluation of modern art. Chicago: University of Chicago Press, 1984.