Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Gustavo Jardim (UFMG)

Minicurrículo

    Gustavo Jardim é curador e realizador audiovisual. Pesquisa o cinema experimental em suas interfaces com pedagogias e tecnologias. Desenvolve pesquisa de pós-doutorado na Casa de Cinema (UFMG). É professor da Formação Intercultural para Educadores Indígenas e coordenador artístico-pedagógico do Seminário Latino Americano de Cinemas e Educação.

Ficha do Trabalho

Título

    Que imagens e sons queremos compartilhar? A atividade da curadoria em processos pedagógicos

Resumo

    A apresentação especular possíveis interfaces entre questões atuais que envolvem a atividade curatorial no campo do cinema independente (Andrade, 2022; Maia, 2025; Oliveira, 2025; Cesar, 2025) e determinadas práticas pedagógicas envolvendo imagens e sons em territórios específicos. A proposta é buscar ampliar os limites daquilo que se concebe como curadoria de filmes em festivais e mostras de cinema ao envolver processos pedagógicos.

Resumo expandido

    A apresentação propõe uma inflexão no conceito de curadoria audiovisual ao articulá-lo a práticas pedagógicas territorializadas no campo do cinema e da educação. Partindo de uma imagem poética inspirada em Galáxias, de Haroldo de Campos, investiga-se a possibilidade de aproximar regimes heterogêneos de sensibilidade — o ordinário e o sofisticado, o popular e o institucional — como operação estética e política capaz de reconfigurar processos de criação e aprendizagem. A questão que orienta o trabalho é: como produzir, em contextos educativos, curadorias que não apenas selecionem obras, mas ativem relações capazes de fazer emergir imagens e sons situados, frequentemente invisibilizados?

    O debate ancora-se em formulações recentes do campo da curadoria no cinema independente, sobretudo na noção de “curadoria como cuidado”, conforme elaborada por Patrícia Mourão Andrade, Amaranta Cesar e Carla Maia. Ao deslocar a curadoria de um regime técnico-operacional para uma prática relacional, ética e política, compreende-se o gesto curatorial como produção de condições de acolhimento, escuta e reciprocidade. Nessa perspectiva, curar não se restringe à organização de obras, mas implica intervir nas formas de relação entre filmes, espectadores e territórios, instaurando acontecimentos que excedem o momento da exibição.

    Ao tensionar essas formulações no campo educacional, propõe-se o conceito de curadoria audiovisual pedagógica como prática que articula exibição, criação e reflexão em processos situados. Em vez de instrumentalizar o cinema como recurso didático, trata-se de instaurar dispositivos de escuta que permitam aos filmes e aos sujeitos se afetarem mutuamente. A curadoria torna-se, assim, uma prática de mediação expandida, capaz de produzir deslocamentos no olhar e abrir espaço para experiências de pensamento que escapam às normatividades da linguagem e às lógicas de circulação hegemônicas.

    Mobilizando referenciais como Deleuze, bell hooks e Paulo Freire, a apresentação compreende o gesto cinematográfico como operação de desestabilização do visível e do audível, instaurando brechas nos regimes dominantes de significação. A curadoria, nesse contexto, funciona como dispositivo de agenciamento entre forças heterogêneas, articulando imagens, sons, corpos e territórios em processos que tensionam tanto a tradição cinematográfica quanto os modos instituídos de aprender.

    Como operadores conceituais, são propostos três gestos curatoriais — conspirar, combinar e confabular — que não configuram um método, mas um campo de sensibilidade. Conspirar implica instaurar uma escuta comum a partir de questões emergentes; combinar refere-se à articulação de fluxos sensíveis entre corpos, tempos e imagens; e confabular designa a fabulação coletiva com o território como prática de invenção de memória e pertencimento. Tais gestos orientam práticas abertas, processuais e coletivas, deslocando a curadoria de uma lógica de autoridade para um regime de contágio e relação.

    A apresentação sustenta que a curadoria audiovisual pedagógica, ao operar na intersecção entre cinema, educação e território, afirma-se como prática estética, política e formativa. Seus limites — marcados pela dificuldade de acesso, circulação e formação — não anulam sua potência, mas indicam a necessidade de criação de redes, acervos e dispositivos que ampliem sua incidência. Em permanente variação, essa prática reinscreve o cinema como campo de experimentação coletiva, no qual ver e aprender tornam-se atos indissociáveis de imaginar e sustentar outras formas de vida.

Bibliografia

    ANDRADE, Patrícia Mourão. Curadoria como poder e trabalho, e algumas notas sobre a capitalização do amor. In: Caderno de Leituras, n.141. Belo Horizonte: Chão da Feira. Série intempestiva, 2022.
    CAMPOS, Haroldo de. Galáxias. São Paulo: Editora 34, 2004.
    CESAR, Amaranta (et al.). Curadoria em cinema: do pensamento em ação. Salvador: Edufba,
    DELEUZE, Gilles; PARNET, Claire. Diálogos. São Paulo: Escuta, 1998. (Original: Dialogues, 1977.)
    DELEUZE, Gilles. Cinema 2: A imagem-tempo. Tradução de Eloisa Araújo Ribeiro. São Paulo: Editora 34, 2018.
    FREIRE, Paulo. Pedagogia do Oprimido. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1968. — Ou edição atualizada: Paz e Terra, 2019.
    hooks, bell. Ensinando comunidade: uma pedagogia da esperança. Tradução de Kênia Cardoso. São Paulo: Elefante, 2021.
    RAJCHMAN, John. The Deleuze Connections. Cambridge: MIT Press, 2000.
    RODOWICK, David N. Gilles Deleuze’s Time Machine. Durham & London: Duke University Press, 1997.