Ficha do Proponente
Proponente
- Rosa Albergaria de Carvalho Santos (FAAP)
Minicurrículo
- Graduanda em Comunicação Social com habilitação em Cinema pelo Centro Universitário Armando Álvares Penteado (FAAP), com Iniciação Científica PIBIC (2024–2025). Participou da residência artística Flutuantes (Casa Líquida, 2025). Atua em cinema universitário e teatro profissional, com experiência em figurino e criação para a Companhia do Latão e para o grupo Asas do Sertão, do Assentamento Santana (MST). Em 2023, desenvolveu pesquisa sobre comunidades eclesiais de base no Ceará.
Ficha do Trabalho
Título
- Tempo estendido: a prática fotográfica de Elza Lima como modelo para um cinema documental
Eixo Temático
- ET 3 – FABULAÇÕES, REALISMOS E EXPERIMENTAÇÕES ESTÉTICAS E NARRATIVAS NO CINEMA MUNDIAL
Resumo
- A pesquisa examina como as práticas fotográficas de Elza Lima em comunidades da Amazônia, ameaçadas pelo desenvolvimento capitalista, podem informar o cinema documental. Destaca-se a colaboração dos fotografados na construção da imagem, em um processo relacional que articula a experiência da desaparição e aponta para formas documentais mais horizontais. A metodologia baseia-se na análise formal das obras e nos relatos da fotógrafa, a partir de entrevistas feitas pela pesquisadora.
Resumo expandido
- Esta pesquisa investiga o trabalho da fotógrafa paraense Elza Lima – do ponto de vista de suas atitudes poéticas, estratégias e escolhas formais – como um modelo para o cinema documental contemporâneo. A prática de Elza Lima, ao registrar a vida amazônica, pode ser comparada à de cineastas como Eduardo Coutinho, no nível da relação com o fotografado. Do ponto de vista da plasticidade e resultados formais são grandes as diferenças. Quanto aos procedimentos de trabalho, porém, ambos se interessam por processos colaborativos em que os sujeitos representados participam da construção da imagem. Fazem uso da “teatralidade” como elemento de aproximação a uma realidade brasileira em que duelam tempos antigos e novos. O que Elza Lima tem de específico é sua atenção à desaparição de mundos sociais, a capacidade de flagrar a vitalidade de uma experiência em vias de extinção, que é potente a ponto de se recusar a ser um “objeto” da imagem.
Elza Lima ganhou reconhecimento por seus retratos de populações ribeirinhas da Amazônia, observadas em momentos de descanso e celebrações. Os fotografados – crianças e idosos – aparecem como seres desviantes do mundo do trabalho. Não raro, são eles que parecem “dirigir” a foto e ironizam a posição de objetos do olhar. Produzidas em quilombos e comunidades ribeirinhas, as fotos observam a própria temporalidade. O sentimento de que há uma desaparição em curso surge em contraste com a força da vida ameaçada pelo desenvolvimento capitalista na Amazônia.
De um ponto de vista técnico, as imagens surgem por meio de um “improviso preparado”, uma organização do trabalho documental que permite o ato intuitivo. A comparação com a obra de Eduardo Coutinho, em filmes como Cabra Marcado para Morrer ou trabalhos mais recentes como Edifício Máster e Santo Forte, serve aqui como referencial de contraste. A teatralidade de Coutinho está voltada à ampliação da colaboração subjetiva entre documentarista e retratados. Elza Lima é também uma “personagem” ausente: os fotografados expõem e tensionam sua presença. O que está em jogo é uma atividade conjunta. Sua marca pessoal é o registro da “dissolução” dos tempos históricos, com base em visões sugeridas pelos retratados, ligadas ao imaginário mítico amazonense. Tais estratégias podem ser transpostas a um cinema documental contemporâneo que visa a relações mais igualitárias, interativas e compartilhadas.
A pesquisa descreve casos concretos de produção de imagens. Analisa as fotos em seus contextos produtivos. E alude a escritos teóricos de Roland Barthes, Merleau-Ponty e da própria Elza Lima. De modo geral, suas fotos são ao mesmo tempo oníricas e “realistas”. Têm algo de “espectral”, nos termos de Barthes. Entretanto, a fantasmagoria – a morte em vida do “instantâneo” – não é vista como problema. É antes uma forma de comunhão provisória. Para Elza, o que mais importa são as relações subjetivas sutis, em que a objetividade é questionada pelo olhar dos fotografados. Trata-se de uma prática que procura reconhecer a imaginação – esse “ver além do visto” – como elemento central do processo documental. A beleza procurada é assim um misto de graça e tragicidade, em que a alegria da obra e sua força de resistência provém de uma natureza amazônica humanizada pelas crianças e velhos. São os gestos conjuntos que convidam o espectador a imaginar entre-tempos (a supor o passado e o futuro da imagem), a sondar a vida que se reinventa.
O estudo se funda nesse exame analítico de obras de Elza Lima, reveladoras de seu trabalho, conforme entrevista inédita realizada pela pesquisadora em julho de 2025, em Belém do Pará. Ali Elza descreve, de maneira sensível e vibrante, sua prática de “interações imaginativas”. O cinema documental brasileiro pode aprender com a experiência dessa artista que há décadas realiza um trabalho de aprendizagem com sujeitos que habitam as margens, e que por isso aprenderam a resistir através da mutabilidade, inspirados pelo movimento das águas.
Bibliografia
- BARTHES, Roland. A câmara clara: notas sobre a fotografia. 3. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira Participações S.A., 2011. p. 1-75.
LIMA, Elza. Águas fronteiras. \[S.l.: s.n.], \[s.d.]. Disponível em: [https://revistacontinente.com.br/images/Elza\_Lima\_extra-site.jpg].
LIMA, Elza. Elza Lima. Organização de Éder Chiodetto. São Paulo: Ipsis, 2016.
MATOS, Adriana Dória. Parece que o mundo se prepara para desaparecer. Entrevista com Elza Lima. Revista Continente, Recife, n. 209, p. 78-85, maio 2018. Disponível em: [https://revistacontinente.com.br/edicoes/209/rparece-que-o-mundo-se-prepara-para-desaparecer].
MERLEAU-PONTY, Maurice. O olho e o espírito. In: CHAUÍ, Marilena de Souza (Org.). Os pensadores. São Paulo: Abril Cultural, 1980. p. 85-111.
MOKARZEL, Marisa. Expedição Elza Lima: imagens e lendas de um real construído. Arte & Ensaio, Rio de Janeiro, n. 27, p. 85–88, out. 2013. Disponível em: [https://revistas.ufrj.br/index.php/ae/article/view/20737/11894].