Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    ALEXANDRE MUNIZ (UFRJ)

Minicurrículo

    Alexandre Muniz é mestre em Mídias Criativas (UFRJ), especialista em Economia do Audiovisual e graduado em Cinema (UFF). Atua como Especialista em Regulação na ANCINE, com experiência em fomento e FSA. Trabalhou como diretor de fotografia, roteirista e editor em filmes como Entreatos e Edifício Master. Pesquisa cinema expandido e produziu o VR Travessia Pelo Mundo das imagens, documentário animado sobre o pensamento revolucionário de Nise da Silveira e o poder de transformação pelas artes.

Ficha do Trabalho

Título

    Do Tempo ao Espaço: A Espacialidade como Linguagem Estruturante nas Narrativas em Realidade Virtual

Seminário

    Cinema e Espaço

Resumo

    A pesquisa investiga o Cinema em Realidade Virtual (CRV) a partir de obras exibidas em festivais como We Are One e Sundance, destacando a transição do “cinema-tempo” para o “cinema-espaço”. No CRV, o ambiente torna-se central na narrativa, exigindo novas formas de montagem e fruição. O filme Travessia exemplifica essa abordagem ao articular espaço físico e subjetivo, explorando estratégias imersivas inspiradas no cinema de atrações.

Resumo expandido

    Esta comunicação apresenta os desdobramentos da pesquisa de mestrado “Travessia Pelo Mundo das Imagens – Experimentações cinematográficas em realidade virtual na Ocupação Nise da Silveira “, do PPGMC/ECO-UFRJ/2022, focada no Cinema em Realidade Virtual (CRV). A partir da análise de obras imersivas em realidade virutal exibidas e premiadas em festivais internacionais a partir de 2016, como We Are One e Sundance, o estudo investiga as transformações narrativas promovidas por esse formato, evidenciando uma mudança de eixo: do predomínio do tempo, característico do cinema tradicional, para uma organização centrada no espaço. Nesse contexto, o ambiente deixa de funcionar como pano de fundo e passa a assumir um papel estruturante na experiência e na construção da narrativa.
    No cinema clássico, associado à chamada “Forma Cinema”, a condução do olhar é organizada pelo enquadramento e pela montagem sequencial, estabelecendo uma progressão temporal guiada pelo diretor. No CRV, por outro lado, a ausência de moldura fixa e a possibilidade de exploração em 360 graus alteram significativamente essa lógica. O espectador deixa de ocupar uma posição passiva e passa a explorar o ambiente, o que demanda estratégias narrativas menos dependentes do corte e mais articuladas espacialmente. Assim, o espaço torna-se elemento central de orientação e sentido, organizando a experiência a partir da percepção e da presença do espectador no ambiente.
    Para compreender essas mudanças, a pesquisa dialoga com conceitos da teoria do cinema, como a montagem polifônica de Sergei Eisenstein, propondo uma adaptação desse pensamento à realidade imersiva. Em vez de uma montagem baseada na sucessão de planos, observa-se uma articulação simultânea de elementos visuais, sonoros e espaciais, que se organizam no ambiente e são ativados pela atenção e pelo movimento do espectador. Essa perspectiva aponta para uma reconfiguração do papel da montagem, que passa a operar de forma distribuída no espaço.
    Como desdobramento prático, a pesquisa apresenta o filme “Travessia – Pelo Mundo das Imagens”, desenvolvido em realidade virtual. A obra toma como ponto de partida o Instituto Municipal Nise da Silveira, explorando sua transformação de espaço manicomial em ambiente de produção artística. A narrativa articula duas dimensões: o espaço físico, marcado pela ressignificação arquitetônica, e o espaço subjetivo, relacionado às imagens do inconsciente dos pacientes.
    Para lidar com os desafios de continuidade e transição em um ambiente 360º, o projeto recorre a estratégias inspiradas no cinema de atrações e nas experimentações de Georges Méliès, como fusões, sobreposições e intervenções visuais que permitem a construção de passagens mais fluidas entre cenas. Essas soluções evidenciam como referências históricas do cinema podem ser reativadas no contexto das mídias imersivas.
    Dessa forma, o estudo sugere que o CRV não apenas amplia as possibilidades do audiovisual, mas também convida à revisão de seus fundamentos, especialmente no que diz respeito ao papel do espaço na narrativa. Ao enfatizar a espacialidade como elemento organizador da experiência, a pesquisa contribui para a reflexão sobre novas formas de construir e vivenciar histórias no cenário contemporâneo das mídias imersivas.

Bibliografia

    CRARY, Jonathan. Técnicas do observador: visão e modernidade no século XIX. Rio de Janeiro: Contraponto, 2012
    EISENSTEIN, Sergei. A Forma do Filme. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2002
    ELSAESSER, Thomas. Cinema como Arqueologia das Mídias. São Paulo: Edições Sesc, 2018
    MÉLIÈS, Georges. As Vistas Cinematográficas. Foco Revista de Cinema. [S.I.] [1923?] SILVEIRA, Nise da. Imagens do inconsciente: As artes visuais na loucura. Rio de Janeiro: Alhambra, 1992
    SLATER, M.; WILBUR, S. A framework for immersive virtual environments (FIVE): Speculations on the role of presence in virtual environments. Presence: Teleoperators and virtual environments, v. 6, n. 6, p. 603-616, 1997
    TRICART, Celine. Virtual Reality Filmmaking: Techniques & Best Practices for VR Filmmakers. New York: Routledge, 2018