Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Carolina Amaral de Aguiar (USP)

Minicurrículo

    Professora de História no Instituto de Relações Internacionais da Universidade de São Paulo (USP). Atuou como pesquisadora visitante na Université Paris-Saclay (bolsa Jean D’Alembert, 2023-2025). É pesquisadora da Maison du CNRS da USP (IRL 2034, Mundos em transição), no eixo “Circulations, mobilités et espaces transnationaux”. Doutora em História Social pela FFLCH-USP (2013); mestre em Estética e História da Arte pelo PGEHA-USP (2007); bacharel (2002) e licenciada (2003) em História pela USP.

Ficha do Trabalho

Título

    O Arquivo Audiovisual do Movimento Operário e Democrático (AAMOD) italiano e a tortura no Brasil

Seminário

    Arquivo e contra-arquivo: práticas, métodos e análises de imagens

Resumo

    A comunicação analisa os filmes Brasile tortura (1970) e Amerika (1974), documentários que integram o que integram o Arquivo Audiovisual do Movimento Operário e Democrático (AAMOD) e que denunciam a tortura na ditadura brasileira. Produzidos no contexto da Unitelefilm e de redes internacionais do cinema militante, os filmes utilizam testemunhos e materiais de arquivo para construir um contra-arquivo transnacional das violações de direitos humanos na América Latina.

Resumo expandido

    Esta comunicação analisa dois filmes de denúncia da tortura no Brasil, realizados e veiculados no exterior, que integram o Arquivo Audiovisual do Movimento Operário e Democrático (AAMOD) italiano: Brasile tortura (1970), produzido pelo Comitato Europa-América Latina, e Amerika (1974), dirigido por Alberto Severi e produzido pela Unitelefilm. O AAMOD foi criado no final dos anos 1970 com o objetivo de preservar a memória dos movimentos sociais, em especial do Partido Comunista Italiano (PCI). O fundo, que disponibiliza virtualmente uma grande parte de seus filmes e documentos, é ligado à Fundação Arquivo Audiovisual do Movimento Operário e Democrático, que se dedica a conservar e pesquisar a produção cinematográfica da esquerda italiana. No caso dos filmes sobre o Brasil, eles são parte do esforço de produção da Unitelefilm, empresa destinada à realização de documentários ligados às causas defendidas pelo PCI, que funcionou entre 1964 e 1979. Entre os temas das atualidades, dos filmes de propaganda e de documentários de denúncia feitos nos anos 1970, encontram-se obras dedicadas ao chamado Terceiro Mundo, como a Guerra do Vietnã e à oposição às ditaduras na América Latina. Além da presença dessas pautas, a Unitelefilms estabeleceu intercâmbios e parcerias com sujeitos e instituições da cinematografia de esquerda (nem sempre comunista), tanto da Europa como de outros lugares: a produtora SLON, de Chris Marker, e o Instituto Cubano de Arte e Indústria Cinematográficas (ICAIC) foram algumas das parcerias internacionais da empresa. O filme Brasile tortura (1970), por exemplo, pode ser visto como fruto desses intercâmbios, já que foi produzido com material audiovisual enviado pelos cubanos, em especial cenas do Noticiero ICAIC Latino-americano gravadas com exilados brasileiros que chegaram a Cuba após o sequestro do embaixador estadunidense Charles Burke Elbrick pela Ação de Libertação Nacional (ALN) e pelo Movimento Revolucionário 8 de Outubro (MR-8). Além dos testemunhos de brasileiros torturados, o filme traz imagens de arquivo da repressão no Brasil. Já Amerika é um filme composto por testemunhos colhidos no Tribunal Russel II, realizado em Roma em 1974 com o objetivo de denunciar a tortura na América Latina. Dessa forma, os dois documentários podem ser vistos como parte de uma tentativa de constituir um contra-arquivo transnacional da repressão que pudesse funcionar como prova das violações aos Direitos Humanos que vinham sido cometidas pela ditadura brasileira. A comunicação, além de mapear as circulações que concernem à produção desses filmes e das imagens que os compõem, busca analisar a importância das redes transnacionais do cinema militante para que a tortura se tornasse conhecida internacionalmente, ampliando a pressão sobre organismos internacionais para que fossem adotadas represálias ao governo ditatorial. Também se pretende refletir sobre o papel do testemunho nesse contexto e sua relação com o cinema documental. Além disso, será feita uma reflexão sobre a importância do arquivo da AAMOD para a produção contemporânea de uma memória das lutas sociais e dos movimentos contestatórios atuantes durante a Guerra Fria, bem como da solidariedade que envolveu processos históricos complexos, entre os países centrais e periféricos.

Bibliografia

    AGUIAR, Carolina Amaral de. O cinema latino-americano de Chris Marker. São Paulo: Alameda, 2015.
    FANTONI, Gianluca. Italy through the red lens: Italian politics and society in Communist propaganda films (1946–79). Cham: Palgrave Macmillan, 2021.
    FOLENS, Chloé; LANCIALONGA, Federico. L’« Archivio Audiovisivo del Movimento Operaio e Democratico » de Rome : une archive ouverte sur le XXe siècle. 1895. Mille huit cent quatre-vingt-quinze, n. 95, p. 130–151, 2021.
    MACHADO, Patrícia. Cinema de arquivo: imagens e memória da ditadura militar. Rio de Janeiro: Sagarana, 2024.