Ficha do Proponente
Proponente
- Camila Macedo Ferreira Mikos (Unespar)
Minicurrículo
- Professora do Bacharelado em Cinema e Audiovisual e do Mestrado em Cinema e Artes do Vídeo da Universidade Estadual do Paraná. Doutora em Educação pela Universidade Federal do Paraná. Pesquisadora do GILDA – Grupo Interdisciplinar em Linguagem, Diferença e Subjetivação (UFPR/CNPq), do GPACS: Grupo de Pesquisa em Arte, Cultura e Subjetividade (Unespar/CNPq) e do CINECRIARE – Cinema: Criação e Reflexão (Unespar/CNPq). Atua nas áreas de curadoria, ensino, pesquisa e realização em cinema.
Ficha do Trabalho
Título
- Curadoria, docência e experimentação de formas queerizadas de dar a ver
Mesa
- Experimentações e práticas de criação: diálogos a partir do gênero
Resumo
- Aproximando práticas curatoriais e o exercício da docência, esta proposição se volta à discussão sobre processos de formação e mediação em cinema inspirados por uma perspectiva queer. Sem mirar no estabelecimento de uma resposta definitiva, interessa ao trabalho lançar a seguinte pergunta: Como os modos de selecionar, organizar, combinar, exibir e enquadrar filmes discursivamente podem ser mobilizados pela desobediência de gênero para promover o estranhamento de formas prescritivas de dar a ver?
Resumo expandido
- Retomando discussões que começaram a ser desenvolvidas em trabalhos anteriores, que aproximavam as ideias de curadoria e de currículo a partir da interface entre os estudos em cinema e em educação (Macedo; Sierra, 2024), nesta proposta, repenso as relações entre processos curatoriais e o exercício docente, entendendo-os enquanto práticas distintas, mas relacionáveis em suas instâncias pedagógicas. Compreendendo, nesses termos, a curadoria e a docência como trabalhos de mediação a partir dos quais sentidos são produzidos para e com os filmes, interessa interrogar sobre as possibilidades de experimentação que uma perspectiva queer pode suscitar em ambas as esferas de atuação. Assim, a partir do exercício cartográfico de inventariar experiências próprias e coletivas, rastrear inspirações em práticas alheias e estabelecer articulações teóricas multidisciplinares, o trabalho objetiva questionar como a curadoria e a docência podem se valer de uma abordagem queerizada para repensar suas formas de dar a ver (Menotti, 2018).
Com a cautela de não promover achatamentos que invisibilizem suas respectivas singularidades, essa aposta no diálogo entre curadoria e docência se dá, em partes, mediante o reconhecimento de que as duas funções conjugam operações de seleção, organização, combinação e produção de discursos para o estabelecimento de relações entre um determinado público e um determinado conjunto de elementos, agrupados não arbitrariamente, mas pelo estabelecimento de uma proposta conceitual. Mas mais do que isso, dá-se também através da insistência nas duas práticas como modos de partilha de experiências e de instauração de cenas de convivência coletiva (Patriota, 2025). É por dimensioná-las em suas potencialidades políticas e sociais de agenciamento de visibilidades e apagamentos (Cesar, 2020) que tenciono a investida em uma perspectiva queer de estranhamento do já dado nas formas de estabelecer o corpo a corpo com o cinema.
Ao questionar as possibilidades e impossibilidades do desenvolvimento de uma pedagogia queer nas práticas de educação formal, Guacira Lopes Louro interroga: “Como um movimento que se remete ao estranho e ao excêntrico pode articular-se com a Educação, tradicionalmente o espaço da normalização e do ajustamento? […]. Qual o espaço nesse campo usualmente voltado ao disciplinamento e à regra, para a transgressão e para a contestação?” (Louro, 2004, p. 47). Se não seria apropriado decalcar nos mesmos termos o cinema como um campo inequívoco de inscrição da norma, também não seria de todo inapurado reconhecer suas possibilidades de reprodução da hegemonia e de condicionamento às suas premissas, naquilo o que Girish Shambu chamou de “velha cinefilia” (2019). Assim, talvez caiba perguntar: Qual o espaço para a transgressão e para a contestação nos modos como nos aproximamos dos filmes e como também os colocamos em aproximação?
Bibliografia
- CESAR, Amaranta. Conviver com o cinema: curadoria e programação como intervenção na história. In: CESAR, Amaranta. [et al.]. (org.). Desaguar em cinema: documentário, memória e ação com o CachoeiraDoc. Salvador: EDUFBA, 2020.
LOURO, Guacira Lopes. Um corpo estranho – ensaios sobre sexualidade e teoria queer. Belo Horizonte: Autêntica, 2004.
MACEDO, Camila; SIERRA, Jamil Cabral. Currículo e curadoria: programas de filmes como procedimento metodológico de pesquisa entre o cinema e a educação. Revista Brasileira Estudos da Presença, v. 14, n.1, jan./mar. 2024.
MENOTTI, Gabriel. (org.). Curadoria, cinema e outros modos de dar a ver. Vitória: EDUFES, 2018.
PATRIOTA, Ingá. Veneno da mudança: curadoria de cinema e a produção de territórios comuns. In: CESAR, Amaranta. [et al.]. Curadoria em cinema: do pensamento em ação. Salvador: EDUFBA, 2025.
SHAMBU, Girish. For a new cinephilia. Film Quarterly, v. 72, n. 3, 2019.