Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Adriana Mabel Fresquet (UFRJ/Rede KINO)

Minicurrículo

    Professora Titular da UFRJ, coordena o CINEAD e atua na interseção entre audiovisual, educação e políticas públicas. Lidera projetos de pesquisa, fundadora e integrante da Rede Kino e vem contribuindo para a formulação de políticas pela presença do Cinema na Escola.  Suas publicações, curadorias e atividades formativas apostam na potência das imagens e dos sons como modos de despertar as infâncias que nos habitam e de tecer vínculos de conhecimento e amizade entre os povos latino-americanos.

Ficha do Trabalho

Título

    Da tela ao pátio: desaprender o isolamento digital brincando com crianças latino-americanas

Mesa

    Cinema e educação entre dípticos, imagens do presente e brincadeiras latino-americanas

Resumo

    A comunicação propõe pensar o cinema na escola como arte, mídia e experiência comum. A partir de Children’s Games, de Francis Alÿs, e dos filmes Ô de casa! de Clarisse Alvarenga e Carreto de Marilia Hughes Guerreiro e Cláudio Marques, defende imagens que convidem crianças a brincar, conviver e filmar, em vez de reforçar o isolamento digital. Dialogando com Éric Sadin, afirma o brincar como gesto ético, estético e político contra a fragmentação social e o domínio das plataformas.

Resumo expandido

    2026. Cinema é arte? O Brasil possui uma lei que obriga a exibição de, no mínimo, duas horas mensais de cinema nas escolas como carga curricular complementar. No entanto, o cinema ainda não integra plenamente as linguagens artísticas reconhecidas pela Base Nacional Comum Curricular. Cinema é mídia? O país conta com um Plano Nacional de Educação Digital, uma Estratégia Nacional de Escolas Conectadas e um documento orientador sobre caminhos curriculares e práticas éticas para o uso da inteligência artificial nas escolas. Ainda assim, pouco ou quase nada se diz sobre o cinema nos documentos dedicados à educação midiática.
    Enquanto isso, 47,1 milhões de crianças e jovens da Educação Básica, segundo o Censo de 2022, ainda esperam um trem… Esperam políticas capazes de articular arte, mídia, tecnologia, corpo, imaginação e mundo comum. Países que digitalizaram intensamente a educação desde os anos 2000 começam agora a rever seus rumos. A recente decisão da Suécia de reduzir o uso de telas nas escolas e retomar práticas com livros físicos, papel, lápis e materiais impressos responde a preocupações com a queda dos índices de leitura, a perda de concentração e os impactos das telas na alfabetização, na aprendizagem infantil e na saúde mental. A mudança, contudo, é controversa: enquanto alguns pesquisadores defendem cautela no uso das tecnologias digitais, especialmente na infância, especialistas em tecnologia e educação alertam que abandonar o digital pode comprometer a formação dos estudantes em um mundo atravessado pela inteligência artificial e por novas competências comunicacionais.
    Diante desse impasse, este trabalho propõe pensar uma relação com as imagens que não reforce o isolamento digital, mas desperte o desejo de brincar, encontrar-se e, talvez, filmar as próprias brincadeiras. A partir da análise da obra Children’s Games, de Francis Alÿs (1999–2026), e dos filmes Ô de casa! (Alvarenga, Brasil, 2007) e Carreto (Marilia Hughes Guerreiro e Cláudio Marques, Brasil, 2009), buscamos aprender com as crianças outras formas de presença, corpo e convivência. Trata-se de desaprender a constelação de individualidades intensificada pelos dispositivos móveis e reaprender, pelo movimento dos corpos, modos de brincar, estar junto, criar e resistir.
    Nesse sentido, os audiovisuais aqui convocados não são apenas objetos de análise, mas convites à experiência. Eles podem animar crianças, famílias e instituições educativas a criar tempos e espaços nos quais os dispositivos móveis cedam lugar a práticas partilhadas no espaço comum: menos seguras, menos controladas e menos previsíveis, mas abertas ao risco, ao vínculo e à invenção coletiva.
    Essa reflexão dialoga com A era do indivíduo tirano, de Éric Sadin, obra em que o autor analisa o surgimento de uma subjetividade marcada pela crença de que cada indivíduo ocupa o centro absoluto da verdade e do julgamento. Esse “indivíduo tirânico” desconfia das instituições, da política, da ciência, da mídia e dos pactos coletivos, contribuindo para a erosão de um mundo comum e para o crescimento da polarização, das teorias conspiratórias e da violência simbólica. As redes sociais e os dispositivos móveis aceleram esse processo ao oferecer a cada pessoa a sensação de possuir uma tribuna própria e uma verdade particular. A promessa de liberdade individual converte-se, assim, em captura por sistemas que estimulam indignação, comparação e autoafirmação permanente.
    Contra essa fragmentação, acreditamos que conhecer os modos de brincar das crianças na América Latina pode estreitar laços entre infâncias e aprofundar outras formas de solidariedade entre povos irmãos. Aprender, desaprender e reaprender tornam-se, então, gestos éticos, estéticos e políticos diante das ameaças às nossas soberanias territoriais, culturais e imaginativas, bem como frente ao emaranhado cada vez mais selvagem do capital das plataformas.

Bibliografia

    BEIGUELMAN, G. Políticas da imagem: vigilância e resistência na dadosfera. São Paulo: Ubu, 2021.
    CRARY, Jonathan. Terra Arrasada. Além da era digital, rumo a um mundo pós-capitalista. São Paulo: UBU, 2023.
    FRESQUET, Adriana Mabel. Entrevista a Inés Dussel:
    sobre a Política Nacional de Educação Digital. Revista GEARTE, Porto Alegre, v. 11, 2024.
    HILLMANN, Thomas; MACGILCHRIST, Felicitas; KIESEWETTER, Svea. Epistemologies of data
    visualisations: On producing certainties, geographies and digitalities in critical educational research.
    On Education. Journal for Research and Debate, v. 6, n. 18, 2023.
    KRENAK, Ailton. Ideias para adiar o fim do mundo. Sao Paulo: Companhia das letrinas, 2020.
    MONDZAIN, Marie-José. (Ed.). Voir ensemble: Autour de Jean-Louis Desanti. Paris: Gallimard, 2003.
    MOROZOV, Evgeny. La locura del solucionismo tecnológico. Katz Editores-Capital Intelectual, 2026.
    SADIN, Éric. La era del individuo tirano: el fin de un mundo común. Buenos Aires: Caja Negra Editora, 2022.