Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    João Lucas de Castro Pedrosa (UFRJ)

Minicurrículo

    Formado em Cinema (PUC-Rio) e em Letras UNIRIO), começou no cinema em 2011 pela Oficina Pequeno Cineasta (tutor entre 2020 e 2024). Produz obras institucionais e autorais, como o vídeo “Dois Rios” (ALC Videoart Festival 2021) e o documentário “Muro da Paz” (2026). Bolsista PIBIC 2017-2021, Menção Honrosa na JIC UNIRIO 2020 pela pesquisa sobre Bernardo Carvalho. Atualmente mestrando em Comunicação e Cultura na UFRJ. Redator na “Multiplot!” desde 2019.

Ficha do Trabalho

Título

    “Seguindo Todos os Protocolos” (Fábio Leal, 2022), ou o tesão em tempos de catástrofe

Eixo Temático

    ET 1 – CINEMA, CORPO E SEUS ATRAVESSAMENTOS ESTÉTICOS E POLÍTICOS

Resumo

    O longa “Seguindo Todos os Protocolos” (2021), de Fábio Leal, acompanha as tentativas frustradas de encontro sexual totalmente seguro pelo protagonista Chico após dez meses de isolamento durante a pandemia do Covid-19. A apresentação traça sua análise fílmica à luz do contexto político da época retratada, articulando a representação de uma sexualidade em crise em resposta a uma crise político-social.

Resumo expandido

    Esta comunicação busca analisar o longa-metragem “Seguindo Todos os Protocolos” (2021), de Fábio Leal, à luz da crise sanitária e política que afetou a saúde física, emocional e libidinal do povo brasileiro no começo desta década. O norte metodológico, na herança foucaultiana, articula fundo histórico e sexualidade, compreendendo o filme como uma expressão dos sintomas psicossociais decorrentes da pandemia do Covid-19, e o seu deliberado agravamento pelo governo brasileiro da época.

    No filme, o protagonista Chico (interpretado por Leal) quer transar após dez meses em quarentena. Tomado pelo medo de contrair o vírus, incorpora uma série de regras e idiossincrasias aos encontros sexuais. Uma sagaz concisão do conflito imposto pelo contexto é fornecida já nos primeiros minutos: um over-the-shoulder mostra Chico masturbando-se para um vídeo pornô no notebook; um jump cut corta para a mesma tela reproduzindo uma live de Átila Iamarino, em tom soturno e desgostoso, anunciando mais um dia com número exponenciado de mortos pelo vírus. A consumação do desejo humano mais básico vira dilema moral em meio à catástrofe que faz do contato um vilão.

    O conceito de “capitalismo de desastre” por Naomi Klein (2007) retoma a estratégia de Milton Friedman de aproveitar ou criar crises – políticas, econômicas, climáticas, etc – como oportunidades de reestruturar zonas em prol do livre-mercado. O economista, por exemplo, aconselhou Augusto Pinochet a usar o terror autoritário como barreira de reações ao processo de desestatização no Chile (Klein, 2007, p. 13-14). Da mesma forma, a pandemia do Covid-19 foi instrumentalizada pelo governo bolsonarista, que adiou o quanto pôde medidas de contenção da pandemia para, no processo, privatizar empresas públicas e aprovar uma série de desregulamentações ambientais e do agronegócio (De Lima; Júnior, 2022, p. 596). O que melhor serve a um governo reformista que um vírus drasticamente desagregador de uma oposição cuja força está na repleção das ruas?

    Naturalmente, a liberdade e a experimentação da sexualidade dessa mesma oposição progressista também leva o golpe de um isolamento imposto não pelo Estado, mas pela ética e pelo senso de autopreservação. “Como a gente não tem ninguém na presidência de fato, cada um criou a sua forma de distanciamento social e sua forma de fazer o isolamento. Então, eu queria filmar uma forma de fazer isolamento.” (CineVitor, Leal, 2022). A hipervigilância do protagonista é um mecanismo de defesa, e Chico precisa ser o governante do território que consegue controlar: sua casa e seu corpo. O filme se passa quase inteiramente em sua casa – de onde ele nunca sai, e quando um outro vem é por meio de uma tela, seja do celular ou do computador, ou carregando um tom inicial de “invasor”, de “estrangeiro”. A dinâmica da tela é subvertida quando, no primeiro encontro, Chico instala um plástico separando-o de Raul (Paulo César Freire). A proteção não dura muito e, após alguns toques sob a capa, ele pega um estilete e faz-lhe um corte na altura da pélvis do visitante. Seu pênis se projeta da tela rasgada, remetendo à renúncia espectatorial do protagonista. Ele passa a ser vivo atuante, e acaricia a pele outra que o reivindica.

    Apesar de retomar o mais crítico momento da quarentena, o filme é uma comédia de erros, alimentada pelo ruído no contato com o outro em tempo de desconfiança, de pavor, de desalinhamento: “pra mim, a ideia de comédia não é de alívio, ela é uma tensão.” (Romero, Leal, 2022). Chico leva um fora do namorado Ronaldo (Marcos Curvelo) numa videochamada cheia de bugs e congelamentos de tela, materializando o desacordo em dinâmica cênica. Um clima geral de derrota guia o filme principalmente pela frustração de sua teleologia: mesmo com dois encontros sexuais com diferentes pessoas, nenhuma das partes efetivamente goza, e ambos acabam sendo expulsos da casa por Chico. O sexo representado é atravessado pelo desencontro, pelo atrito, pelo fracasso da fantasia.

Bibliografia

    CARMELO, Bruno. “Estava interessado na pior versão de nós mesmos”, explica Fábio Leal, diretor de Seguindo Todos os Protocolos. Meio Amargo, 30 jun. 2022.
    CINEVITOR. Entrevista com Fábio Leal | Seguindo Todos os Protocolos. YouTube, 28 jun. 2022.
    FOUCAULT, Michel. Ditos e Escritos V – Ética, Sexualidade, Política. Rio de Janeiro: Editora Forense Universitária, 2004.
    _________________ História da sexualidade I: A vontade de saber. Rio de Janeiro: Edições Graal, 1988.
    KLEIN, Naomi. A doutrina do choque: a ascensão do capitalismo de desastre. Tradução Vania Cury. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2008.
    LIMA, Claudia Henschel de; ALVES JUNIOR, Antonio José. Capitalismo de desastre à brasileira: revolução cultural, melancolização e apoio popular à Jair Bolsonaro. Revista Geosul, Florianópolis, v. 38, n. 87, p. 586-605, maio/ago. 2023.
    RAFAEL, Romero. “Não vejo pessoas como eu no cinema em relações sexuais”, diz o ator e diretor Fábio Leal.
    Jornal do Commercio (UOL), 30 jun. 2022.