Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Wellington Junio Costa (UFS)

Minicurrículo

    Wellington Júnio Costa é professor efetivo do curso de Letras Português/Francês e membro permanente do Mestrado Interdisciplinar em Cinema da UFS. Na UFMG, graduou-se em Cinema de Animação e Letras e fez Mestrado em Literatura e Outras Artes, sobre a obra de Jean Cocteau. Seu Doutorado na USP abordou a recepção desse multiartista francês na imprensa brasileira. Tradutor da obra de Cocteau no Brasil, é autor do livro Jean Cocteau: a construção do eu no desenho, na literatura e no cinema (2016).

Ficha do Trabalho

Título

    A recepção brasileira de “A Bela e a Fera” de Jean Cocteau: 80 anos de encantamento?

Resumo

    Neste ano de celebração do octogésimo aniversário do longa-metragem A Bela e a Fera, de Jean Cocteau, esta comunicação aproveita a ocasião para apresentar reflexões sobre a recepção brasileira desse filme, desde o seu lançamento até os dias atuais, a partir da análise de dados coletados nas coleções da Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional e em outras fontes mais recentes, sem deixar de estabelecer relações com a importância histórica da obra em questão no contexto da cinematografia mundial.

Resumo expandido

    Lançado na primeira edição do Festival de Cinema de Cannes, em 1946, o longa-metragem “A Bela e a Fera”, realizado pelo francês Jean Cocteau, tornou-se, ao longo do tempo, referência como a melhor adaptação cinematográfica do conto homônimo de Madame Leprince de Beaumont, segundo Laurent Aknin (2014). O historiador e crítico recorda, ainda, que algumas adaptações da mesma estória foram realizadas antes do filme de Cocteau, e que muitas outras lhe sucederam.
    É preciso notar que a produção coctaliana recebeu o prestigioso prêmio Louis Delluc. Para Serge Toubiana (2003), o rigoroso trabalho artesanal de criação altamente técnica, mas regido pela poesia, empreendido por Cocteau, em “A Bela e a Fera”, é um manancial de ensinamentos para os aspirantes a cineasta do século XXI.
    Não por acaso, essa obra aparece em algumas listas internacionais, como a inglesa “10 great fairytale films” (Brook, 2013), em que “A Bela e a Fera” ocupa o primeiro lugar; a francesa “100 films pour une cinémathèque idéale” (Philippe, 2009), em que o filme de Jean Cocteau figura na posição de número cinquenta; ou a americana “1001 filmes para ver antes de morrer” (Schneirder, 2010), que se organiza segundo a ordem do ano de lançamento das produções cinematográficas listadas.
    Nesse sentido, diante de sua importância histórica no contexto da cinematografia mundial, resta saber como se deu a recepção brasileira de “A Bela e a Fera”, de Jean Cocteau, e de que maneira esse filme ainda repercute no Brasil dos dias atuais. Eis as questões a serem abordadas nesta comunicação individual proposta ao XXIX Encontro SOCINE, a partir da análise de dados coletados nas coleções da Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional e em outras fontes mais recentes.
    Embora desde o seu lançamento na França, esse filme de Cocteau tenha sido notado por vários veículos da imprensa brasileira, sua estreia no Brasil se deu dois anos depois, apenas em 28 de dezembro de 1948.
    Em 1946, por exemplo, a revista “Rio” (Boucler, 1946) publicara uma matéria ilustrada com dois fotogramas do filme e um retrato do cineasta, cujo título ressaltava o status de poeta de Jean Cocteau: “Quando um poeta prepara um filme”. Na mesma linha, no ano seguinte, o crítico Antonio Rangel Bandeira (1947) argumentava que Cocteau usava o cinema para fazer poesia. Por outro lado, Gino Palmisano (1948) reconhecia o domínio do autor francês sobre a linguagem cinematográfica.
    Quando chegou, enfim, às telas brasileiras, a posição de Palmisano foi corroborada em um artigo anônimo publicado no “Diário de Natal” (1949), no qual o êxito de “A Bela e a Fera” é atribuído à reunião dos talentos de Jean Cocteau, dos atores Jean Marais e Josette Day, do diretor de fotografia Henri Alekan e do músico Georges Auric, ou seja, à consciência de um diretor sobre o caráter coletivo da criação cinematográfica e à sua habilidade de coordenar todos os elementos do filme. Hipótese confirmada pela publicação, na revista “A Cigarra”, de um texto do próprio Cocteau traduzido com o título “A minha ‘Bela e a Fera’” (Cocteau, 1949).
    Diversos anúncios publicitários, que acompanhavam a programação de cinema publicada nos jornais, atestam a estreia de “A Bela e a Fera” em várias cidades das diferentes regiões brasileiras, no ano de 1949. Nas décadas seguintes, esse filme foi exibido em sessões cineclubistas e em mostras retrospectivas dedicadas a Jean Cocteau, como aquela organizada pelo Centro de Estudos Cinematográficos de Minas Gerais (CEC), em 1989, ou a que foi realizada no Centro Cultural Banco do Brasil de Brasília, em 2017, intitulada “Jean Cocteau: o testamento de um poeta”.
    Mais recentemente, no terceiro episódio da nova versão da telenovela “Vale Tudo”, veiculado no dia 3 de abril de 2025, o jovem personagem Tiago Roitman se emociona ao assistir “A Bela e a Fera” de Jean Cocteau. Seria um sinal de que esse filme ainda pode encantar as novas gerações, oitenta anos depois do seu lançamento?

Bibliografia

    AKNIN, L. Les différentes adaptations cinématographiques du conte. L’Avant-scène cinéma, Paris, n. 610, p. 52-55, fev. 2014.
    A REUNIÃO… Diario de Natal, ano 10, n. 1861, 1 mai. 1949, p. 6, 4.
    BANDEIRA, A. R. Greg Toland e outras notas sobre cinema. Letras e Artes, Rio de Janeiro, ano 2, n. 53, p. 9, 31 ago. 1947.
    BOUCLER, A. Quando um poeta prepara um filme. Rio, n. 83, p. 96-97, 126, mai. 1946.
    BROOK, M. 10 great fairytale films. BFI, UK, 26 dez. 2013.
    COCTEAU, J. A minha “Bela e a Fera”. A Cigarra, Rio de Janeiro, n. 178, p. 74, 96, jan. 1949.
    PALMISANO, G. O Mago Jean Cocteau. Diario de Pernambuco, ano 123, n. 68, p. 3-4, 21 mar. 1948.
    PHILIPPE, C-J. (org.). 100 films pour une cinémathèque idéale. Paris: Cahiers du Cinéma, 2009.
    SCHNEIRDER, S. J. 1001 filmes para ver antes de morrer. Trad. C. I. da Costa; F. Morais; L. Almeida. Rio de Janeiro: Sextante, 2010.
    TOUBIANA, S. Le cinema à cœur ouvert. In: COCTEAU, J. La Belle et la Bête: journal d’un film. Mônaco: Éd. du Rocher, 2003.