Ficha do Proponente
Proponente
- VANESSA CRISTINA SANTANA DE JESUS (UFMG)
Minicurrículo
- Doutoranda e Mestra no Programa de Pós Graduação em Comunicação Social da UFMG. Graduada em Comunicação Social – Cinema e Audiovisual pela PUC Minas (2019). Produtora e Técnica Audiovisual formada na Escola de Arte e Tecnologia Oi Kabum Minas (2010). Produtora Cultural e oficineira de arte e cultura. Atualmente se dedica a pesquisa no campo da comunicação analisando as interações Afro Religiosas no Cinema Negro Brasileiro Contemporâneo, atravessados por gênero e suas interseccionalidades.
Ficha do Trabalho
Título
- Estéticas da ancestralidade no cinema negro: corpo, território e imagem de terreiro e congado.
Resumo
- Esta comunicação apresenta resultados parciais de uma pesquisa em desenvolvimento que investiga a construção estética e política de imagens a partir de um processo documental realizado em colaboração com um terreiro e quilombo, tendo como foco uma festa anual específica e as relações estabelecidas no encontro com o congado durante a realização da festa. Partindo da compreensão do cinema negro como prática situada a pesquisa busca analisar as “esteticas da ancestralidade” presentes no encontro.
Resumo expandido
- O projeto de tese intitulado: “Encruzilhadas entre o sagrado e a fé: caminhos espiralados da estética da ancestralidade presente nos rituais coletivos vivenciados entre o candomblé e o congado na festa de Pai Benedito no terreiro e quilombo Manzo Ngunzo Kaiango” propõe a realização de um documentário no campo dos cinemas negros brasileiro e uma reflexão teórica que explore as confluências entre terreiro, quilombo e congados, articulando espiritualidade e as variadas conexões intermundos a fim de investigar a vasta presença das estéticas da ancestralidade no contato desses povos durante a realização da festa anual do Preto Velho que acontece no quilombo a quase 50 anos.
Assim, este trabalho apresenta resultados parciais dessa pesquisa em desenvolvimento dando a ver e sentir parte da investigação dessa construção das “estéticas da ancestralidade” a partir desse processo documental. A pesquisa parte da compreensão do cinema negro não apenas como dispositivo de registro, mas como prática situada, relacional e implicada, capaz de produzir deslocamentos nos modos de ver e representar experiências historicamente marcadas por processos de invisibilização racial e religiosa.
Ao tomar a festa como acontecimento estético e também político, o estudo propõe compreendê-la como um campo complexo de produção de imagem, no qual corpo, música, indumentária, espacialidade e espiritualidade se articulam como formas de conhecimento e expressão. Nesse contexto, a imagem não é entendida como mera representação, mas como resultado de relações, atravessada por dinâmicas de presença, participação e pertencimento. Tal perspectiva dialoga com a noção de “lugar de fala” proposta por Djamila Ribeiro (2017), ao reconhecer a centralidade das experiências e vozes historicamente subalternizadas na produção de conhecimento e de imagens.
A pesquisa se debruça sobre as práticas performativas presentes ali, considerando-as como gramáticas estéticas que tensionam regimes hegemônicos do audiovisual. O corpo-território são aqui concebidos como espaço vivido e político estruturantes de inscrição de saberes, memórias vivências e ancestralidades, operando simultaneamente como suporte e agentes na produção de visualidades. Nesse sentido, aproxima-se das reflexões de Leda Maria Martins (2021), para quem as performances afro-diaspóricas constituem formas de conhecimento inscritas na corporeidade, atravessadas por temporalidades outras.
As relações estabelecidas entre povos de terreiro e povos do congado durante a realização da festa evidenciam redes de continuidade histórica, alianças simbólicas e formas de resistência que atravessam essas manifestações. Ao colocar em diálogo essas tradições, o trabalho aponta para a existência de epistemologias afro-diaspóricas que reconfiguram modos de existência, organização e produção de sentido, em consonância com as reflexões de Beatriz Nascimento (1989) sobre memória, território e resistência negra.
O estudo adota uma abordagem coletiva, compreendendo o documentário como campo de investigação. A construção das imagens e narrativas ocorre em interlocução com os sujeitos, tensionando a centralidade autoral e afirmando práticas colaborativas. O cinema opera, assim, como linguagem e método, articulando prática e reflexão. Em diálogo com bell hooks (2019), essa perspectiva aproxima-se do cinema negro brasileiro ao afirmar o fazer audiovisual como produção de conhecimento desde as margens, reconfigurando narrativas e regimes de representação.
Ao apresentar este recorte, o trabalho contribui para os debates sobre o cinema negro brasileiro ao articular corpo, política e audiovisual como campo crítico. Propõe pensar o cinema não apenas como representação, mas como espaço ético de encontro, escuta e criação compartilhada, comprometido com a valorização de saberes afro-brasileiros e com a invenção de mundos possíveis.
Bibliografia
- RIBEIRO, Djamila. O que é lugar de fala? Belo Horizonte: Letramento, 2017.
MARTINS, Leda Maria. Performances do tempo espiralar: poéticas do corpo-tela. Rio de Janeiro: Cobogó, 2021.
NASCIMENTO, Beatriz. O negro visto por ele mesmo. Rio de Janeiro: UFRJ, 1989.
HOOKS, bell. Olhares negros: raça e representação. São Paulo: Elefante, 2019.