Ficha do Proponente
Proponente
- Breno Mota Alvarenga (UFSC)
Minicurrículo
- Breno Alvarenga é graduado em Comunicação pela UFMG, mestre em Comunicação pela UFPE e doutor em Cinema e Audiovisual pela UFF. Atualmente, é Professor Substituto do Curso de Cinema da Universidade Federal de Santa Catarina. Como realizador audiovisual, atuou como diretor e roteirista de curtas-metragens como “O Destino da Senhora Adelaide” (2022), “Camaco” (2022) e “Jardim Tropical” (2024). Atualmente, seu primeiro longa-metragem, “Bom Retorno”, encontra-se em pós-produção.
Ficha do Trabalho
Título
- O papel da direção em um cinema cada vez mais colaborativo: um estudo de caso do filme “Bom Retorno”
Resumo
- Esta proposta busca refletir sobre o papel da direção no cinema colaborativo, tomando como estudo de caso o longa “Bom Retorno”, de Breno Alvarenga. A partir de uma análise reflexiva da prática do diretor, investiga-se como uma condução menos centrada no controle e mais aberta ao compartilhamento pode potencializar o processo criativo. São analisados a direção de atores, as revisões de roteiro e a integração entre departamentos, destacando a colaboração como eixo central.
Resumo expandido
- David Mamet, em On Directing Film, afirma que o cinema é, por natureza, uma arte colaborativa: da escrita do roteiro aos processos de distribuição, múltiplos agentes participam da construção de um filme, cuja forma final resulta da articulação entre diferentes visões criativas. A compreensão do cinema como prática coletiva tem se difundido entre profissionais da área, tanto para valorizar os diversos gestos criativos envolvidos quanto para questionar a noção de que a direção seria a única responsável pela concepção da obra. Partindo desse contexto, este trabalho propõe refletir sobre o papel da direção em um cinema pensado, cada vez mais, como colaborativo. Como estudo de caso, analiso o longa-metragem Bom Retorno, dirigido por mim e atualmente em fase de pós-produção.
Robert Bresson, a respeito de seu processo criativo, disse que seus filmes passavam por duas mortes e três nascimentos: “(…) nasce uma primeira vez na minha cabeça, morre no papel; é ressuscitado pelas pessoas vivas e objetos que eu emprego, que são mortos na película, mas que, colocados em uma certa ordem e projetados sobre uma tela, se reanimam como flores na água. Em diálogo Bresson, interessa-me pensar essas “mortes” não como perdas, mas como momentos de transformação que abrem espaço para novos “renascimentos”. A partir disso, investigo de que modo uma postura de direção menos centrada no controle e mais aberta ao compartilhamento do ato criativo pode potencializar a emergência do inesperado como dimensão constitutiva do fazer coletivo.
Metodologicamente, o trabalho se ancora na análise reflexiva de minha própria prática como diretor em Bom Retorno, buscando avaliar os desdobramentos de escolhas orientadas por uma lógica colaborativa. Para isso, são examinados: (1) os processos de preparação de elenco e direção de atores, que incentivaram a construção de um elenco mais propositivo; (2) as revisões e adaptações do roteiro a partir de contribuições da equipe e do elenco; e (3) a integração entre diferentes departamentos na definição de aspectos da mise-en-scène e da decupagem.
A reflexão dialoga ainda com Carolina Gonçalves Pinto, para quem o cinema constitui uma prática de síntese entre múltiplas artes, implicando a negociação constante entre artistas de diferentes campos. Nesse sentido, busco identificar, nos processos de direção de Bom Retorno, estratégias que favoreceram a escuta e a incorporação efetiva das contribuições coletivas, seja na direção de atores, na reescrita do roteiro ou na construção estética das cenas.
Para isso, são analisadas dinâmicas de preparação de elenco, formatos de reuniões de equipe, o calendário de pré-produção, a organização da base de filmagem e os documentos gerados ao longo do processo, com atenção especial às formas de comunicação estabelecidas pela direção. Parte-se da hipótese de que uma condução mais compartilhada dos processos tende não apenas a favorecer a coesão criativa entre os envolvidos, mas também a instaurar sets mais organizados e obras mais abertas ao acaso e à pluralidade de olhares.
Bibliografia
- BORDWELL, David; THOMPSON, Kristin; SMITH, Jeff. Film Art: An Introduction. 12. ed. New York, NY: McGraw-Hill Education, 2020.
BRESSON, Robert. Notes sur le Cinématographe, Paris, Éditions Gallimard, 1988
GERBASE, Carlos. Direção de Atores: como dirigir atores no cinema e TV. Porto Alegre, RS: Artes e Ofícios, 2003.
MAMET, David. On Directing Film. New York: Penguin Books, 1992.
MÜLLER, Marcelo. Rodrigo Mingoti, FRANCO, Marília da Silva Estratégias da direção processos de realização em longas metragens brasileiros contemporâneo, Tese de Mestrado – Universidade De São Paulo, Escola de Comunicações e Artes, 2010.
PASSERON, René. Pour une philosophie de la Création, Editions Klincksieck, 1985
PINTO, Carolina Gonçalves. Processos criativos da direção cinematográfica. 2015. Dissertação (Mestrado), Escola de Comunicações e Artes, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2015.
RABIGER, Michael. Directing: Film Techniques and Aesthetics. 4. ed. London: Focal Press, 2014.