Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Nathalia Batalha Queiroz Zuccari (UFRJ)

Minicurrículo

    Nathalia Zuccari é mestranda em Comunicação e Cultura pela ECO-UFRJ, bolsista CAPES com pesquisa voltada para o vampiro e o horror no audiovisual e integrante do grupo de pesquisa POPMID, da UERJ. Graduada em Comunicação Social com habilitação em Cinema pela PUC-Rio através do Prouni, trabalhou na produção de vídeos publicitários e de entretenimento para internet.

Ficha do Trabalho

Título

    Defanged: reconfigurações do vampiro e dos afetos em Buffy, a Caça-Vampiros e True Blood

Eixo Temático

    ET 1 – CINEMA, CORPO E SEUS ATRAVESSAMENTOS ESTÉTICOS E POLÍTICOS

Resumo

    Partindo da transformação do mito do vampiro ao longo dos séculos XX e XXI, o presente trabalho propõe uma reflexão acerca das obras de ficção seriada Buffy, a Caça-Vampiros (1997-2003) e True Blood (2008-2014), focando no atravessamento do horror pelo romance. Pretende-se analisar as relações afetivas humano-vampiro e a representação da figura feminina nessas obras para compreender seu efeito nas concepções de gênero, identidade e monstruosidade, culminando em sua relevância até os dias atuais.

Resumo expandido

    O mito do vampiro passou por profundas transformações ao longo do século XX na literatura, na TV e no cinema, transitando entre e mesclando o horror ao drama, à comédia e ao romance. A figura monstruosa aristocrática introduzida nas primeiras obras sobre vampirismo do cinema, como Nosferatu (1922) e Drácula (1931), gradualmente cedeu espaço a abordagens mais sensíveis, como no livro Entrevista com o Vampiro (1976), de Anne Rice, adaptado para o cinema em 1992 e para a televisão e o streaming em 2022 sob o mesmo título, cuja narrativa gira em torno de Louis de Pointe du Lac – um vampiro atormentado pela sua humanidade perdida, em profundo conflito com sua natureza de predador morto-vivo. Seguindo uma tendência de humanização do monstro, em Drácula de Bram Stoker (1992), adaptação para o cinema do romance homônimo dirigida por Francis Ford Coppola, temos um Conde Drácula dotado de emoções humanas cujo objetivo, para além da predação, é encontrar seu amor do passado.
    Metamorfos culturais extremamente adaptáveis ao contexto em que estão inseridos, os vampiros, especialmente ao final do século XX e início do século XXI, se aproximam cada vez mais dos humanos, física e emocionalmente, protagonizando produtos culturais extremamente populares que exploram as dimensões psicológicas, afetivas e sexuais das relações entre as espécies. Nas obras de ficção-seriada Buffy, a Caça-Vampiros (1997-2003) e True Blood (2008-2014), objetos de análise deste trabalho, as protagonistas femininas Buffy e Sookie veem suas vidas atravessadas pelo perigo e sedução dos vampiros que, por sua vez, são levados a repensar sua natureza, existência e propósito a partir das relações de afeto que estabelecem com essas mulheres. Pontos-chave dessas obras são as formas de representação da figura feminina e seus efeitos sobre a figura predatória masculina arquetípica do vampiro. Tem-se o tensionamento e (im)possibilidades das relações humano-monstro. As humanas que, na verdade, não são inteiramente humanas, se debatem entre o desejo e a repulsa pelo vampiro, vivenciando um devir-monstro. Já o vampiro, em constante devir por sua condição imortal, parece cada vez mais humano e, mais do que uma ameaça, passa a representar possibilidades de liberdade e agenciamento. Tal movimento leva à uma reconfiguração do mito do vampiro e da figura da mulher em narrativas vampirescas, além de levantar questionamentos acerca dos conceitos de amor romântico, monstruosidade e identidade.
    Para além do sangue, os vampiros contemporâneos anseiam pela vida pulsante dos afetos e as transmutações que eles causam. Em relações como a de Buffy e Spike/Buffy e Angel (Buffy, a Caça-Vampiros) e Sookie e Eric/Sookie e Bill (True Blood), a figura feminina – fruto de um contexto histórico de popularização do feminismo na mídia – representa uma constante ameaça de castração à figura masculina, o grande predador, que tende a abandonar sua posição hierárquica dominante, sua dimensão mais monstruosa, perdendo figurativamente suas presas – símbolo de sua natureza e poder vampíricos – para a mulher humana. Tal dinâmica estabelece paralelos com o momento atual e a figura dos red pills, demonstrando como essas narrativas ainda ressoam na contemporaneidade, uma vez que o vampiro possui forte vínculo com o desvio, a disrupção, aparecendo principalmente em momentos de crise (estética, política, ética, cultural) e refletindo essas turbulências.
    Considerando o panorama de tendências apresentado, este trabalho busca se debruçar sobre as obras Buffy, a Caça-Vampiros (1997-2003) e True Blood (2008-2014) uma vez que estas demonstram sua longevidade e relevância, mesmo décadas após sua finalização, na medida em que exploram as dimensões afetivas das relações entre humanos e vampiros, bem como os limites e interseções entre o humano e o monstruoso, além das formas de representação feminina na cruza entre horror e romance, afetando concepções de gênero, identidade e monstruosidade que reverberam na contemporaneidade.

Bibliografia

    ABBOTT, S. Celluloid Vampires: Life After Death in the Modern World. Texas: University of Texas Press, 2007.
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    COHEN, J. J. Pedagogia dos monstros: Os prazeres e os perigos da confusão de fronteiras. Tradução: Tomaz Tadeu da Silva. Belo Horizonte: Autêntica, 2000.
    DELEUZE, Gilles; GUATTARI, Félix. Mil platôs: capitalismo e esquizofrenia. v.4. Rio de Janeiro: Editora 34, 1995.
    GARCIA, Y. Super-heróis, amantes, melancólicos e cômicos: as reconfigurações do vampiro no cinema contemporâneo. Revista Desenredo, v. 21, n. 2, 2025. DOI: 10.5335/rdes.v21i2.15430. Disponível em: https://seer.upf.br/index.php/rd/article/view/15430.
    GEORGE, S. HUGHES, B. Open Graves, Open Minds. Representations of vampires and the Undead from the Enlightenment to the present day. Manchester: Manchester University Press, 2013.