Ficha do Proponente
Proponente
- KENIA KALYNE GOMES DE ALMEIDA (UFRN)
Minicurrículo
- Diretora, roteirista e pesquisadora. Professora de Comunicação e de Cinema. Doutora em Estudos da Mídia, desenvolve o conceito de Cinema de Lugar. Mestre em Literatura e graduada em Comunicação, dirigiu sete curtas e um longa-metragem e produziu mais de vinte e cinco projetos. Atua com formação em cinema e linguagens, com ênfase em estéticas negras, decoloniais e afrodiaspóricas. Em seus trabalhos, prioriza narrativas de lugar e decoloniais, de mulheres, antirracistas e latino-americanas.
Ficha do Trabalho
Título
- Quem pode me narrar? Corpos negros no cinema como territórios de disputas epistêmicas e políticas.
Resumo
- Este estudo analisa a ocupação dos corpos de mulheres negras em dois filmes rodados no Porto do Capim, em João Pessoa, considerando a performance e a oralitura (Martins, 2013). Questiona-se como esses corpos são conduzidos por elas mesmas, reposicionando-se em tela a partir da consciência de si. Observa-se como os corpos das mulheres personagens ganham autonomia em tela e buscam performar a ancestralidade e fabulações de futuros, a partir de si e do coletivo.
Resumo expandido
- Como os agenciamentos entre as mulheres – diretoras e personagens – dos filmes se inscrevem em tela? A partir dessa premissa, buscou-se analisar os filmes Aponta pra fé ou todas as músicas da minha vida (2020) e Miami-Cuba (2021), longas-metragens dirigidos por Kalyne Almeida e por Caroline Oliveira, respectivamente. Ambos têm como personagens, também, as gêmeas, lideranças do Território Ribeirinho Porto do Capim.
Seguindo um recorte histórico do corpo negro no audiovisual no Brasil, desde 1960 até os dias atuais, esta pesquisa busca traçar um percurso político, uma reconfiguração estética e reconhecer o corpo como produção de conhecimento. Por disputas políticas a partir do corpo (Baltar, 2023), compreendem-se, aqui, disputas sociais e culturais vinculadas ao poder narrativo, imagético e sonoro. Este estudo objetiva compreender como inscrever corpos negros em tela, mesmo sem que esses sujeitos representados estejam na direção formal do audiovisual.
Para tal, buscou-se fazer uma análise fílmica (Penafria, 2009) dos dois filmes em que os corpos e as falas das mulheres estivessem inscritos como uma espécie de direção de corpos em performance consciente.
O cinema, como produto audiovisual, organiza o visível a partir de um histórico regime de visibilidade hegemônico (Borges, 2022). Nesse sentido, pensar a partir de outros regimes de visibilidade é buscar compreender filmes em que os corpos são sujeitos da imagem e não se subjugam a estereótipos rígidos. Na recusa em repetir condições de subalternização, Rayssa e Rossana Holanda reorganizam os “significantes rígidos, inflexíveis, fixados a estereótipos” (Borges, 2022, p. 125) e deslocam as representações de seus corpos, evocando a “emergência de novos signos que se distanciam dos estereótipos e habitam outros sítios de significação” (Ibidem).
Pensando nessa reconfiguração, partimos do corpo como lugar de inscrição de memória, de saber, de ancestralidade e de escritura: “o corpo e a voz como portais de inscrição de saberes” (Martins, 2013, p. 66). Para Martins, “o corpo, na performance ritual, é local de inscrição de um conhecimento que se grafa no gesto, no movimento, na coreografia, na superfície da pele, assim como nos ritmos e timbres da vocalidade. O que no corpo e na voz se repete é uma episteme” (Ibidem). Também seguimos os caminhos de bell hooks (2019), a partir da ideia de quem oferece reconhecimento e visibilidade dentro de uma condição de extração do valor simbólico da negritude. Para a autora, não se trata de táticas coercitivas de dominação, mas de um processo que opera pela sedução e pela extração de valores simbólicos e/ou culturais. Nesse sentido, na comunidade Porto do Capim, observamos a performance e a agência do corpo (Martins, 2003) como oralitura, em que o corpo é ação autônoma e/ou dialogada, produzindo sentido a partir de si e em diálogo com a direção. Observa-se que há duas instâncias: o entendimento de como as mulheres querem ser narradas e a possível intuição ancestral, atuando como potência e negação à subordinação e ao estereotipismo.
Pode-se concluir que não se trata de direção ou autodireção, já que a direção formal pensa a decupagem do projeto e a mise-en-scène. Nesse caso, há uma agência performativa sobre a própria imagem e consciência do sujeito representado, em que essas mulheres, mesmo inseridas em uma estrutura dirigida por outro sujeito, intervêm, negociam e reconfiguram seus modos de aparição em tela.
Apesar de não dirigirem o filme, ele é reconfigurado pela direção de seus corpos. O corpo não é ilustração: desloca a representação e organiza a cena por gestos, pausas, olhares e falas, conduzindo o ritmo. Há, portanto, negociação da mise-en-scène; as tomadas não são totalmente controladas pelas diretoras, pois as mulheres interferem no gesto e no tempo da cena. Trata-se, assim, de uma episteme, um modo de produzir conhecimento em que o corpo da mulher negra produz conhecimento por meio da performance, da oralitura e da consciência de si.
Bibliografia
- BALTAR, Mariana. Corpo e afeto: atualizações do regime de atrações no cinema brasileiro contemporâneo. Aniki, v. 10, n. 2, p. 4-28, 2023. Disponível em: https://aim.org.pt/ojs/index.php/revista/article/view/880. Acesso: 25 abril. 2026.
BORGES, Rosane. Cinema, Imagem e Imaginário: por outros regimes de visibilidade das mulheres negras. In: CARVALHO, Noel dos Santos (org). Cinema negro brasileiro. Campinas, SP: Papirus Editora, 2022, p. 119-136.
hooks, bell. Olhares negros: raça e representação. Tradução de Stephanie Borges. São Paulo: Elefante, 2019. 356 p.
MARTINS, Leda Maria. Performances da oralitura: corpo, lugar da memória. Letras, [S. l.], n. 26, p. 63–81, 2003. Disponível em: https://periodicos.ufsm.br/letras/article/view/11881. Acesso em: 25 abr. 2026.
MARTINS, Leda Maria. Performances do tempo espiralar: poéticas do corpo-tela. São Paulo: Cobogó, 2021.
PENAFRIA, Manuela. Análise de filmes: conceitos e metodologia(s). In: CONGRESSO SOPCOM, 6., 2009, Lisboa.